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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

06
Ago10

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

 

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pesca nos pisões

 

O mantão que cobriu o Inverno glacial da Veiga começava finalmente a diluir-se. Os raios de um sol, cada vez mais desavergonhados, brilhavam agora mais quentes e demorados. Já se ouvia no ar o chilrear da passarada. Era a procura de parceiro para a perpetuação da espécie. O pintarroxo encantava a pintarroxa, cabriolando nas galhas da piorneira. A carriça vasculhava luras nas paredes de pedra solta para a construção dos sete ninhos com que a natureza a castigou, quiçá por ser rebunhosa![i] O melro saltitava de silva em silva com pauzinhos no bico. Do chão, ainda há pouco gelado e dormente, rebentavam tufos de erva tenra e primaveras.[ii] As flores mais serôdias atreviam-se já a enfrentar as madrugadas ainda geladas e teimosas, desabrochavam. Nas carvalheiras as primeiras folhitas espreitavam a luz do dia, tenras, acanhadas e de um verde muito infantil. Pelas encostas do Brunheiro ao fim da tarde, a brisa começava a espargir as primeiras nuvens amareladas do pólen da flor do pinheiro. As formigas rabigas e as outras, acordadas da letargia invernal, davam inicio à azáfama secular de provimento do celeiro para o próximo Inverno. O Tâmega também oferecia os primeiros sinais de um novo ciclo. Os ciprinídeos esfregavam-se sobre os seixos do leito, preparando o frenesim da desova que em breve teria lugar.

 

Era a Primavera que botava corpo para alegria dos homens, dos bichos e das plantas. Um renovar de milénios. Enfim, um tempo farto, alegre e libertador, um prémio que os céus ofereciam a quem fora capaz de vencer o diacho do Inverno planáltico.

 

Corria o ano da graça de 1964, dez anos antes da libertação,[iii] quando foi concluída, no coração do Barroso profundo, sobre o leito do rio Regavão, uma grande obra do Estado Novo. Fazendo parte do Plano de Fomento que pretendia prover o país, ainda medieval, de grandes obras públicas, nascia a barragem dos Pisões ou do Alto Rabagão, como também é conhecida. Com uma albufeira de dois mil e duzentos hectares, uma capacidade máxima de quinhentos e setenta hectómetros cúbicos e uma altura de cerca de cem metros na parte central do paredão é, ainda hoje, uma das maiores hidroeléctricas do norte.

 

À medida que a albufeira ia enchendo, com ela cresciam cardumes imensos de bogas e escalos que antes, espartilhados nos estreitos poços do rio, não conseguiam proliferar. Na época da desova, ali por Maio, o espectáculo era impressionante! Recanto onde embocasse um rigueirito[iv] que fosse, pejava-se destes peixes. No reboliço do acasalamento as fêmeas atropelavam-se para depositar as ovas na água corrente, mais oxigenada, a fim de que fossem regadas pela seiva dos machos. Estes, espargiam nuvens leitosas de sémen sobre os milhões de ovos que emprestam aos fundos uma cor de doirado velho. Era um espectáculo formidável da natureza! Uma sinfonia de renovação que a ser observada pelos cépticos da fé os ajudaria certamente a crer na existência de uma força poderosa e invisível que tudo parece determinar com precisão!

 

É claro que a história da truta, um ladino peixe de rio que também por ali vai aparecendo, é outra e bem diferente. Em tratando-se da espécie fário,[v] a truta selvagem que somente os ribeiros de correntes libertinas são capazes de criar, aparece ralas[vi] vezes. Este bicho parece beber azougue.[vii] Gosta de águas frias e batidas. A dar-se nas paradas, como são as da albufeira, cresce desmesuradamente e fica morqueliaira.[viii] Contudo, aqui há uns anos foi construída naquela albufeira uma exploração de aquacultura. Criava, para consumo, espécimes salmonídeas que não a fário. A ração usada e que se escapava pela rede dos tanques era um maná para o resto do peixe selvagem, que nas suas imediações se ia multiplicando.

 

É claro que à cata deste peixe fácil, estúpido, ou daquele que se escapa pelos rombos que a lontra provocava na malha da rede, atropelavam-se autênticos predadores da linha. Oportunistas, que do título de pescadores isento, por se valerem mais da palermice deste peixinho cego do que da sua própria arte para o enganar: atributo que deve caracterizar um verdadeiro pescador desportivo.

 

Já agora permita-se que aqui seja aberto um parêntesis em defesa da natureza barrosã. Um paraíso que Bento da Cruz tão bem sabe cantar!

 

De todos os recantos deste reino luso, no ano de 2009, fazendo fé numa notícia que por Fevereiro correu de que tinham fugido das redes umas toneladas de trutas, acorreram à albufeira dos Pisões, no dia da abertura da pesca, dizem, mais de quinze mil apanhadores de peixe. Que fossem vinte mil. Desde que deixassem a prata[ix] nos restaurantes da região! O problema é que a maioria destes predadores de peixe fácil, como aliás seria de esperar, não nutrem pela natureza o menor respeito. Pejaram as margens de toneladas de lixo que os impostos de todos tiveram de limpar! Actos de selvajaria que aconselham à atenção das autoridades!.. Fim de parêntesis.

 

Corria por’i o Maio de 85, quando em Chaves combinei uma pescaria para os Pisões com uns amigos. Éramos quatro: eu, o bombeiro, que bebia cerveja como um burro come palha, o engenheiro que tinha tanto de inteligente como de brutinho e o segurador, um amigo a quem o vício da pesca se pegou como se pega a sarna. Tudo foi preparado de véspera. Manhã cedo seguiu a malta para o Alto Barroso. Fomos no meu carro, um Opel Corsa novinho em folha. Na mala um taperware com fêveras em sorça,[x] uma bôla de pão centeio e um garrafão de tinto do de Água Revés. O resto eram canas para todos os gostos e bichos do sebo[xi] para isco que, retirados do congelador, enviveceriam pelo caminho.

 

Chegámos de madrugada, mal se via ainda. Estacionámos a viatura num talude afastado umas curtas centenas de metros da água. Carregados, descemos até à pesqueira. A calmaria do lago artificial e o borbulhar esporádico da água faziam adivinhar farta pescaria. Como de facto! Armaram-se as canas e nem foi preciso engodar com a ração de coelho que o engenheiro misturou com farelo. Mal o bitcho[xii] caía na água já estavam cravados dois escalos, taludos,[xiii] de cada vez. Foi malhar neles como em ferro frio. Entre escalos e bogas, cada um deve ter apanhado para cima de uma vintena de quilos. Descontado, bem entendido, o exagero natural do narrador, pelo facto de também ser pescador!..

 

Ao almoço fez-se uma fogueira e sobre o borralho[xiv] assaram-se as fêveras. Do garrafão ficou somente um solitário quartilho! A tarde, na companhia de muitos outros pescadores já foi menos produtiva, não sei se por o peixe já estar farto, se pelo tinto refrear os reflexos que se exigem para responder eficazmente ao sinal da bóia. Era já noite e estava na hora de regressar. Mesmo até porque as queixas de dores nas cruzes[xv] já eram muitas.

 

Quando chegámos ao carro aguardava-nos uma amarga surpresa. Um dos vidros de uma janela lateral estava partido. A mala completamente vazia de tudo. O auto-rádio Sanyo sumido. O tablier rebentado e os forros laterais traseiros rasgados para que se retirassem as duas bocas de som Pioneer que tinham sido compradas com o rádio em Andorra. Por cá ainda não se via material daquela qualidade!

 

Meu Deus, como ficou o nosso coração, descorçoado! Não restava senão a resignação. Em Chaves demos parte à Polícia Judiciária, mais não havia a fazer.

 

Passados uns dias correu pela cidade de Chaves a notícia de que no mesmo lugar um fulano havia apanhado um tiro num braço porque fizera um roubo semelhante. Detido, teria confessado outros, feitos no mesmo lugar, entre os quais o nosso. Perante o boato, a esperança acendeu-se, ténue, como a luz de um pirilampo numa noite escura de lua nova.

 

Como acontecera o disparo? Um paisano que num outro dia pescava naquele mesmo sítio, foi igualmente visitado pelo alheio. Não se fez de rogado. No dia seguinte pediu um carro emprestado e prantou-o[xvi] no lugar, com uma máquina fotográfica bem à vista no banco traseiro. Escondido entre as giestas, de trabuco aperrado, não teve de esperar muito. Uma Famel Zundapp com dois camaradas escarrapachados,[xvii] rondou o sítio. Claro está que quando os meliantes se aperceberam do maná não perderam tempo. Um deles apeou-se e com o cotovelo partiu o vidro da porta de trás. Abocanhou a dita cuja. Quando se preparava para subir para a mota o dono surpreendeu-os. Disparou, atingindo um deles no antebraço. Mesmo assim conseguiram fugir e a máquina lá se foi. Porém, o ferimento da bala fê-los recorrer ao hospital de Chaves onde foram interrogados pela Judite.[xviii] Parece que um deles confessou todos os roubos. Contudo, durante meses não houve qualquer novidade. Até que um dia...

 

Trabalhava eu na Vila do Gerês. No final do mês de Outubro, senti uma vontade estranha para passar o fim-de-semana em Chaves. Obedeci àquela força oculta. Numa Sexta-feira, pelas dezassete horas, zarpei[xix] do Gerês para Chaves. Quando passava pelos Pisões virei para a vila de Montalegre. Desviei-me do percurso normal por obra do acaso, sem perceber bem porque o fazia! Estacionei junto à Câmara Municipal. Deixei a família no carro. Passeei-me pela vila, mirando o interior dos carros estacionados. Esperava encontrar a agulha no palheiro. O meu rádio montado nalgum deles! E não é que no parque fronteiro ao tribunal, um Renault 21 exibia na consola, o meu cantante![xx] Mas porque é que haveria de ser o meu, perguntará o leitor? Primeiro porque estava mal montado, faltava uma peça importante que o ladrão se esqueceu de levar. Depois porque nunca antes se tinha visto por aqui um modelo parecido.

 

Subiu-se-me uma coisa por mim acima… Avisei a família que esperava e fui directo ao posto da gnr. Fui atendido por um agente daquela força. Uma daquelas figuras que Rafael Bordalo Pinheiro teria aproveitado… Quatro nódoas de gardura[xxi] na camisa azul clara que encapava uma barriga-d’água, estatura atarracada, quase sem cachaço, rubro das bochechas e do nariz, talvez da aguardente do mata-bicho, um bigode farto e uma cara de reco cebado[xxii] terminando numa cabeça cónica, espartilhada num barrete verde enfiado até à orelheira!

 

Antão vocemecê que deseja? — perguntou com voz de cachaça.

 

Contei parte de história, deixando a respeitante à identificação do carro para o fim.

 

— Sim senhores, antão vocemecê disse ter a impressão que viu o seu auto-rádio montado numa viatura estacionada ali ao tribunal. Mas como tem a certeza de que é mesmo o seu? E de que carro se trata?

 

Lá expliquei tudo de novo incluindo a informação que faltava.

 

— Ah!... mas essa viatura é do senhor comandante dos Bombeiros Voluntários!..

 

Fez-se luz na minha alma ingénua!.. Despachei a conversa e antes que fosse tarde parti para Chaves, pondo o caso na Judiciária, onde formalizara a queixa.

 

Passou aquela noite. No dia seguinte, pela tardinha, recebi um contacto daquela polícia para ir levantar o material que havia sido subtraído. Fiquei estupefacto com aquele desfecho inesperado. Mas a história não acaba por aqui…

 

Vim a saber meses depois, que um tal André Russo de Penedones havia sido julgado no tribunal de Montalegre, à revelia, por se encontrar fugido para França, pelos assaltos operados naquele lugar de pescaria dos Pisões. E que fora condenado a três anos de prisão por isso. Apesar de não ter sido tido nem achado, fiquei satisfeito com o desfecho e dei o caso por encerrado.

 

Não passaram dois anos sem que recebesse uma convocatória do mesmo tribunal para o julgamento de um indivíduo implicado naqueles roubos. Estranhei, mas lá fui como mandava a ordem.

 

Assisti ao espectáculo boquiaberto!

 

Trava-se de uma sessão para provar que aquele réu loiro, André Fagundes de Penedores, foi condenado injustamente, apesar de um passado de crimes idênticos, porque quem perpetrou os furtos foi um tal André Russo de Penedores que por acaso era russo, de Penedones, chamado André, mas não Fagundes…

 

Abrenúcio, figas que é agoiro!..

 

Foi ilibado o André Fagundes!

 

O que mais me custou foi ver um juiz que devendo ser o garante da justiça, se deixou enrolar, conscientemente creio, por um advogado compulsivamente aldrabão, que vendeu por duas patacas furadas a seriedade e a honra. Aliás, predicados que deveria ter fanado[xxiii] também, por deles não ser possuidor!..

 

Um espectáculo triste, digno de um circo cujos palhaços, tristes, são incapazes de fazer rir alguém.

 

Perante isto limitei-me a abanar a cabeça, incrédulo e a rumar à cidade dos arcebispos!

Gil Santos



[i] Melada, fraca

[ii] Pequenas flores rasteiras que anunciam a chegada da Primavera

[iii] 25 de Abril

[iv] Pequeno ribeiro

[v] Truta selvagem pintalgada de cor de laranja.

[vi] Raras

[vii] Ser muito esperta

[viii] Muito parada, pasmada

[ix] O dinheiro

[x] Vinho e alho

[xi] Larvas da mosca varejeira

[xii] Bicho

[xiii] Grandes

[xiv] Brasas

[xv] Costas

[xvi] Pô-lo

[xvii] Acavalo

[xviii] Polícia Judiciária

[xix] Saí

[xx] Rádio

[xxi] Gordura

[xxii] Porco gordo

[xxiii] Roubado

 

 

 

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