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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

02
Set10

O Homem Sem Memória (6) - por João Madureira

 

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O Homem Sem Memória

 

Texto de João Madureira

Blog  terçOLHO

 

 

6 – José pensava em Deus e abominava os pobres. Ou melhor, detestava a pobreza. Uma criança não consegue ter sentimentos tão cruéis para odiar pessoas apenas pela sua condição. E o que ele detestava era a condição. Apesar de a igreja apregoar para os pobres o reino dos céus e para os ricos a difícil tarefa de se defrontarem com o pavoroso dilema de arranjarem a maneira de um camelo passar pelo cu de uma agulha.


A sua ideia de Deus ficará ligada para sempre ao passarinho que alguém lhe deu já com gaiola e tudo. José gostava do passarinho, de o ter à sua disposição e a viver numa pequena prisão de arame e madeira onde o podia observar sempre que quisesse. Deleitava-se a vê-lo piar, a limpar as penas, a olhar para cá e para lá, sempre nervoso, a mexer a cabeça, a voar de poleiro em poleiro, a beber, a cantar sempre a mesma melodia, a ingurgitar a água e a comer as minúsculas esferas de cereal. Sempre que se lembra do pássaro associa-lhe pequenos raios de sol a transparecerem nas cortinas ou fixos no chão da cozinha. A sua vida de criança era preenchida entre a admiração do pássaro, a fugaz presença de um vizinho atrasado mental, uma velha rabugenta, um gato meloso e um missal que ele trazia sempre consigo. Deus possuía os olhos do pássaro, a loucura compassiva do vizinho, a velhice da velha senhora, a languidez do gato e a sabedoria monótona das orações do missal. No fundo, José vivia sozinho. A sua mãe ia trabalhar para a farmácia e o seu pai ia para o posto da guarda. E ele para ali ficava fixo à rotina entre o quarto, a sala e a varanda. Deus não falava com ele, emprestava-lhe sentimentos, fornecia-lhe indicações. Ele é que falava com Deus. Deus era rico, apesar de o seu filho ser pobre. Deus era mau, apesar de o seu filho ser bom. Deus era Deus, apesar de o seu filho ser homem. Deus ensinava-o através do missal, o seu filho brincava com ele através dos desenhos finos do livrinho das orações. Cristo foi o seu primeiro amigo. Um Cristo de papel, mas que lhe servia de companhia quando estava sozinho. E ele estava sempre sozinho. Ainda hoje é um solitário. Um guarda hermético do seu mundo feito de sombras e de medos. José tem medo de ter medo. Sempre teve. O pássaro morreu sem ele dar conta. Um dia foi dar com o pintassilgo de patas para o ar, com a cabeça virada para o lado direito e frio. Os seus olhos vítreos fizeram-no pensar em Deus. Por isso agarrou-se ao missal e vociferou de cor todas as orações que a mãe lhe tinha recitado. Depois chorou. Deus é choro. Quando a sua mãe chegou a casa e o viu a chorar chorou com ele. Chorou com força. Se a sua mãe tinha força era no momento de chorar. Chorava melhor do que ninguém. Mas o pássaro continuou morto na pedra da cozinha. Com os seus olhos vítreos, com as patas para o ar e com a cabeça virada para o lado direito. Ele disse que era preciso enterrá-lo. A mãe, prática, propôs dá-lo ao gato da vizinha, pois não havia por perto sítio com terra. O pai, quando chegou a casa fumando o seu cigarro, pegou no pintassilgo morto e atirou para o telhado da frente. Depois comeram o jantar que a sua mãe preparou no fogão a petróleo e foram deitar-se. Não ouviram rádio porque as pilhas estavam gastas e ainda não havia dinheiro para comprar umas novas. Custou-lhe a adormecer. A sua mãe perguntou-lhe várias vezes se já dormia. Ele encheu-se de responder que não. Os olhos vítreos do passarinho não lhe saíam da cabeça. Depois foi o pai quem lhe perguntou se já dormia. José não respondeu. Entretanto começou a ouvir a mãe a gemer e a agitar-se na cama. José pensou que ela tinha sentido a morte do pintassilgo da mesma forma que ele. Enquanto a sua mãe gemia ele rezava. Por fim ela deu um pequeno berro e calou-se. Ele ainda rezou durante mais algum tempo. Por fim adormeceu.


7 – José, mesmo quando adormece, fica acordado, vigilante, agitado. Sente as suas memórias como se pertencessem a outro. Ele é outro. Mas as memórias repetem-se. E os sonhos.


Desde pequeno que se lembra da morte do passarinho. E junto à primeira memória outra se lhe associa. Também ela sobre um pintassilgo morto. Será apenas a primeira uma recordação verdadeira? Será a segunda o reflexo da primeira?


Quando veio de férias, (...)


 

(Continua na próxima Quinta-Feira)

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