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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

06
Set10

Quem conta um ponto... O Maio de 68 e os Jornais de Província

 

 

 

 

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O Maio de 68 e os jornais de província


 

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO

 

 

Uma das palavras de ordem de que mais gosto vociferadas nas ruas de Paris em Maio de 68 é “Amai-vos uns por cima dos outros”, que é, para além do seu aspecto sexual, um slogan puramente “romano”. A minha educação fez-se a ouvir uma outra: “Amai-vos uns aos outros…” que é uma litania judaico-cristã que fui compelido a escutar aos domingos na missa do meio-dia. Quando se deu o Maio de 68 tinha eu 10 anos e àquela sua mensagem observava-a apenas nos animais lá de casa aquando da sua hora do recreio ou nos lameiros que circundavam a vila.


Apesar do Maio de 68, apesar da minha educação judaico-cristã, ou seja, apesar de tudo, eu lia, leio e lerei jornais regionais, mas pouco e poucos para não me inquietar por aí além. Porque eles estão mais perto da minha vida banal de todos os dias, as suas notícias recordam-me isso mesmo, a vida corriqueira de uma cidade de província: os óbitos na estrada, os assassínios passionais, as mortes dos animais por causas naturais ou obra de assassinos em série e o falecimento de conhecidos, amigos e familiares com as suas notas necrológicas pagas, que é uma forma de remuneração, digamos que é uma forma de publicidade ao contrário, mas que dá dinheiro para que o jornal continue a existir e a prestar o seu serviço público. E também me inteiro das inaugurações, dos comunicados do partido da oposição camarária a falar mal do poder instituído, que é sempre pérfido e suavemente nebuloso, e do poder instituído a falar mal da oposição, que apenas sabe denegrir a canseira do executivo camarário que abnegadamente prossegue na senda do desenvolvimento e no seu trabalho sempre com os olhos postos no progresso e no crescimento concelhio, projectando a nossa urbe nos anais da história, no tecido empresarial nacional, nas rotas do turismo e etc.


Também leio os jornais regionais porque possuem uma qualidade intrínseca, actualmente muito apreciada: a sua ligeireza, as notícias quase como legenda das fotografias impressas. Um bom jornal regional lê-se em cinco minutos. E isso é uma vantagem. Não maça, não complica, não especula, não interpreta, não incomoda (ou incomoda só um pouquinho não vão os poderes instituídos inquietar-se por aí além e dessa forma desestabilizar a eficaz concórdia social, o equilíbrio institucional, a boa paz dos lares e a Igreja, a Católica, pois as outras para este peditório não contam). Outra vantagem é serem semanais, pois se fossem diários apenas podiam repetir notícias, dado que as inaugurações na província são escassas, de pouca monta e quase todas programadas para os seis meses anteriores às eleições autárquicas, para assim parecerem muitas e darem um ar de ritmo acelerado de progresso e desenvolvimento. E não vejam nisto uma crítica, fiquem-se (como eu me fico, e de livre vontade, confesso) apenas pela verdade dos factos, pois estou em crer que se não existissem eleições, Portugal, especificamente o Portugal provinciano, era muito mais atrasado. Eleições, pelo menos na província, significam sempre, sempre, sempre, obras para serem inauguradas. E isso é bom. A democracia baseia-se precisamente no mesmo: nas eleições que nos trazem obras e na promessa de obras que nos possibilitam eleições e que, por isso mesmo, nos facilitam participar no processo democrático agitando bandeiras, colando cartazes, recebendo sacos plásticos nos dias de feira, ou lograr obter esferográficas, ioiós, isqueiros ou fitas métricas com o nome dos candidatos.


Por isso mesmo, acredito (e olhem que eu sou um homem de fé, quem me conhece é disso viva testemunha) que, mesmo assim (e a locução anterior remete o estimado leitor para a premissa de os jornais regionais serem diários [sonhem queridos leitores, sonhem, que isso é, possivelmente a conquista mais importante da nossa democracia, o sonho (ele mesmo), logo seguido de um outro que é o de termos jornais regionais diários, do Benfica ganhar a taça dos campeões europeus no século XXI e de o Engenheiro Sócrates ser demitido por Cavaco Silva até ao dia 9 de Setembro]) sempre se arranjaria um estratagema, que poderia muito bem assentar na estratégia de ir inaugurando, por exemplo, a maquete ou os caboucos de um centro cultural ou de uma ponte, as escadas e corredores, uma sala, outro compartimento e por aí adiante. Um pouco à imagem e semelhança da inauguração das auto-estradas ao quilómetro. Mas esse sonho (não o que envolve um Benfica campeão, não o que abrange o Engenheiro Sócrates e muito menos o que expõe um Cavaco Silva interventivo) não se vai concretizar por falta, não de vontade, mas de realidade. A nossa realidade é provinciana e na província lê-se pouco. Pouco e mal. É a consequência de tantos anos de falta de inaugurações, da privação de comícios, de carência de luz, de escassez de estradas, de auto-estradas sem portagem, da míngua de subsídio de desemprego, de falta de acesso às universidades, de imperfeição da assistência social, de saúde grátis (ou quase), de abstinência de tudo aquilo que Vossas Excelências sabem melhor do que eu.


Levando um pouco mais longe o raciocínio relativo às eleições e ao progresso que elas acarretam, pus-me cá a pensar e cheguei à conclusão, evidente, por certo, que no tempo do Estado Novo não havia eleições com a participação popular (por incrível que pareça isso é possível) porque não existia dinheiro para obras, ou havia pouco, por isso os que mandavam na altura não se podiam dar ao luxo de serem democratas. Se não havia dinheiro não havia vícios. E a possibilidade (única, como o União Nacional) de alguém fazer uma campanha eleitoral a prometer rigor, trabalho, disciplina, impostos, privações, etc., era um suicídio político. E os suicídios (sobretudo os políticos) estavam estritamente proibidos na altura, bem assim como as reuniões partidárias e a própria mendicidade (ver livro do autor “Crónica Triste de Névoa), pois a mendicidade pública e democrática foi uma conquista do 25 de Abril, como são disso exemplo os eufemisticamente apelidados arrumadores de carros. Não existindo dinheiro não havia obras para inaugurar e não havendo obras, ou havendo tão poucas, não era sustentável um programa político baseado na verdade e na realidade. E, convenhamos, nenhum político venceria um acto eleitoral (com a participação popular, como já atrás referi) inaugurando chafarizes nas aldeias e nelas inscrevendo a palavra de ordem “obra realizada no tempo da ditadura”, pois exactidão e crueldade não são formas que se coadunem com a democracia.

 


Apesar de, como vos disse ao princípio, ter aprendido a respeitar a premissa cristã, sempre fui mais tentado pelo slogan “romano” (de Roma, a libertina). Daí o me considerar um discípulo do Maio de 68. Mas para mal dos meus pecados, o Maio de 68 foi um acto puramente urbano, uma acção que teve apenas expressão em Paris, que era, à altura, a capital cultural do mundo Ocidental, e que ainda é o mundo para além da província, pois a província, ao nível global, é todo o espaço que fica para lá das fronteiras da Europa e da América do Norte. Então, sendo eu atraído pela mensagem do Maio de 68, sempre me vi na triste realidade de ser provinciano, de ter nascido na província, de ter vivido quase sempre na província, de ter sido educado na província, por provincianos, de conviver com gente da província, de só ter amigos provincianos, de ter gostos provincianos, com uma ou outra escapadela, de falar um português com assento irreversivelmente provinciano, etc. Ora, como a realidade molda o espírito do ser humano (especialmente do ser humano provinciano), a minha tentação saiu-me frustrada. Por isso, no tempo em que andei pelos jornais e pelas rádios regionais, quando tive a oportunidade (simbólica, claro) de praticar um jornalismo onde fosse visível a mensagem libertária do “Amai-vos uns por cima dos outros”, guardei o slogan na mesma gaveta onde o Dr. Mário Soares encafuou o socialismo e vi-me a escrever a expressão insípida, mas politicamente correcta, do “Amai-vos uns aos outros…”. Mas também aprendi que cá na província, muitos dos que proferem a primeira expressão no que estão a pensar é na segunda premissa. Por isso inclino-me para a tese de que a província ainda tem futuro. O que me leva a deduzir que os jornais locais também. Isto desde que haja sempre por perto um poder local atento, empreendedor, arrojado, dedicado, verdadeiro, autêntico, transparente, solidário, responsável, empreendedor, atento… acho que já me estou a repetir, por isso, com a vossa permissão, vou dar por terminado este meu escrito.

 

 

PS – Uma das coisas que a província tinha de bom é que as mulheres usavam saia. Quando a província era demasiado conservadora, elas, as saias, eram muito compridas, por isso nada possuíam de higiénico. Apenas no Inverno eram de alguma utilidade, dado que protegiam as pernocas das fidalgas do frio. Depois a província foi-se modernizando e as saias encurtando. Chegaram mesmo a usar-se por aí minissaias, possivelmente numa imitação um pouco exígua da moda da capital que, também ela um pouco provinciana em relação a Paris (e ao seu famoso e celebrado Maio de 68), induzia as raparigas a pouparem no pano para investirem algum dinheiro na depilação e nas meias. Mas até essa moda se perdeu. Actualmente as raparigas usam preferencialmente, ou quase exclusivamente, calças. E rasgadas.

Por isso aqui fica o apelo: Meninas, por favor, usem saias. Assumam a vossa beleza, libertem as vossas pernas, arejem a vossa epiderme. Olhem que Maio de 68 é, ainda, uma convocação à modernidade, à beleza e à verdade. E se existem coisas modernas, belas e verdadeiras, são as pernas das raparigas. E o Maio de 68, evidentemente.

 

06
Set10

Repórter de Serviço - A Piscina do Jardim Público

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Há jardins que fazem parte do meu imaginário de criança. O Jardim Público é um deles. Embora ignorado e até maltratado durante anos, nunca perdeu o seu encanto de local aprazível de estar, caracterizado que era pelas suas sombras frescas que fazia as delícias dos verões quentes. Mas isto já é história, pois há poucos anos atrás as sombras deram lugar a clareiras e o chão, tornou-se poeirento e árido e, até a velha taça, que sempre teve água, mijaretas  e peixes, deu lugar a uma “piscina” (a julgar pela cor azul com que foi pintada) mas sem água. Claro que a crise recomenda a poupança e a água é um bem precioso (todos entendemos isso) mas se a “piscina” está seca e não funciona, mais vale requalifica-la, atulhá-la de terra e botar por lá uns manjericos, pelo menos sempre cheiram bem e depois, a “piscina” sem água e cheia de lixo, dá ar de desmazelo, desinteresse pela coisa pública, um deixa andar… e isso parece mal.

 

 


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