Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

09
Set10

O Homem Sem Memória (7) - por João Madureira

 

 

 

 

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO

 

7 – José, mesmo quando adormece, fica acordado, vigilante, agitado. Sente as suas memórias como se pertencessem a outro. Ele é outro. Mas as memórias repetem-se. E os sonhos.


Desde pequeno que se lembra da morte do passarinho. E junto à primeira memória outra se lhe associa. Também ela sobre um pintassilgo morto. Será apenas a primeira uma recordação verdadeira? Será a segunda o reflexo da primeira?


Quando veio de férias, no seu segundo ano de seminário, decidiu trabalhar durante dois meses na construção civil. Precisava de ganhar algum dinheiro. Necessitava de comprar livros. Desde pequeno que não sabia viver sem livros. Era nos livros que construía a sua realidade. Mas para adquirir os que pretendia tinha de ganhar dinheiro e o ordenado da família mal chegava para o sustento do dia-a-dia. Os livros eram um luxo.


Um vizinho, um pouco mais velho do que ele, convidou-o a trabalhar por empreitada numa casa que se estava a construir num bairro próximo. Ele aceitou. Do trabalho mal se lembra. Recorda, no entanto, que o vizinho lhe ofereceu um pintassilgo dentro de uma gaiola. O pássaro era em tudo igual ao primeiro. A gaiola também. Mesmo as penas das asas e as do pescoço da ave eram semelhantes às do pássaro morto que o seu pai lançou sobre o telhado da casa em frente.


Pregou um prego na parede no sítio onde batia o sol logo pela manhã. Foi lá que pendurou a gaiola. No início do Verão regalava-se a ouvir os trinados da ave enquanto ela debicava as sementes, beberricava a água de um copo de plástico ou tomava banho. Todos os dias, antes de ir para o trabalho, o pássaro fazia as vezes de galo, ou de relógio, despertando-o aos poucos. Enquanto comia o queijo de cabra com pão e bebia o café com leite do pequeno-almoço, José assobiava imitando com mestria os cânticos do pintassilgo. Aos fins-de-semana, a sua distracção consistia em acordar cedo com o cantar do pássaro e pôr-se imediatamente a ler os livros que comprara ou que tinha requisitado na Biblioteca Gulbenkian. Claro que também lhe apetecia namorar. Mas a sua timidez ganhava-lhe sempre a partida. E ele, como se fosse um eunuco, enquanto tentava evitar pensar nas raparigas, demorava-se a ler e a assobiar como um pintassilgo. Por vezes também ia ao cinema com o amigo ver filmes do velho oeste onde os índios eram sempre derrotados. E lia nos intervalos das sessões. E quando o amigo jogava ao sapo, às cartas ou ao dominó ele entretinha-se a ler. Para ele, a realidade era o que vinha nos livros. A sua vida cinzenta e monótona é que era ficção. Mesmo o seu amigo era ficção. E o seminário. E os seus pais e os irmãos. Ele era diferente.


Aprendeu a masturbar-se muito quieto como se estivesse morto enquanto um líquido peganhoso lhe saia pelo pequeno orifício da glande. Masturbava-se a rezar. Os rapazes que trabalhavam nas obras percorriam as festas em busca de bailarico. Ele e o amigo seguiam-nos na ânsia da laranjada, da cerveja e dos cigarros. Noite alta, num recanto do monte perto do recinto do arraial, a malta fornicava as prostitutas já maduras que por ali ganhavam a vida. Um dia o amigo incentivou-o a ir experimentar fêmea. Quando olhou para o traseiro branco do rapaz que o precedeu, e que se agitava à sua frente, começou a suar e a desculpar-se dizendo que não conseguia. Quando a mulher, de pernas abertas e com o sexo peludo à mostra, lhe disse para avançar, correu para o monte e vomitou tudo o que tinha no estômago. Chamaram-lhe maricas e padreco Ele chorou. Depois deixou de ir às festas e evitava estar ao pé do vizinho quando este se encontrava com os rapazes das obras.


Um dia triste de Julho, numa tarde que teimava em não arrefecer, os homens das obras disseram-lhe para ir comprar uma dúzia de cervejas frescas à taberna. Foi de repente que as beberam. Ordenaram-lhe novamente que fosse buscar outra remessa. Ele assim fez. Um pouco mais tarde, já saciados, convidaram-no a beber um pouco de uma garrafa de cerveja que deixaram aberta em cima de um balde num andaime ao nível do segundo andar. A princípio recusou, pois não gostava do sabor amargo da cerveja. Gozaram-no. Chamaram-lhe novamente maricas e padreco. Ele então fez-se valente, pegou na garrafa e deu uma grande golada. Depois de engolir o líquido dourado, sentiu que o sabor da bebida era estranho, sabia a sal. Todos se riram. Disseram-lhe que tinha acabado de beber urina misturada com água. Apesar do esforço, não consegui vomitar o líquido. Olhou fixamente para os alarves que se continuavam a rir, virou-lhes as costas, chamou-lhes filhos da puta e deu um passo em frente na direcção do vazio. O voo durou um segundo. Acordou passado vários dias na cama do hospital todo engessado. Nunca mais se meteram com ele. Quando regressou a casa pediu a um dos irmãos que lhe lesse o conto de Miguel Torga que fala de um pássaro que aprendeu a voar quando a mãe o lançou do ninho para fora. Foi nele que pensou quando se atirou do andaime abaixo. José para voar ainda tinha muito que aprender, mas vontade e determinação não lhe faltavam. Isso todos aprenderam lá em casa. Os vizinhos passaram a olhá-lo com respeito.


Já no fim do Verão, numa manhã cheia de sol, acordou tarde. A família tinha ido passar o domingo ao rio. Sem mais nada para fazer, pôs-se a ler um livro. Lembrou-se então do pintassilgo. Levantou-se e foi a correr ver a gaiola. O pássaro estava morto. Ali estava ele, com os olhos vítreos, com as patas esticadas no ar e com a cabeça virada para o lado direito.


Quando os familiares chegaram a casa, encontraram-no a chorar e a olhar fixamente para a gaiola. Desta vez ninguém chorou com ele. Os irmãos riram-se O pai aproveitou o momento para ir à taberna beber com os amigos e fumar vários cigarros sem filtro. A mãe, desta vez, não chorou. A sua mãe tinha deixado de chorar por estas minudências. Desta vez limitou-se a agarrar na ave morta e a dá-la ao gato.


8 – José esteve sempre à janela. A sua relação com o mundo foi permanentemente feita através de uma janela. Mesmo neste momento em que escrevo, imagino-o sentado à janela da sua pequena sala que dá para o Brunheiro vendo cair a chuva e observando o vento a abanar as árvores da avenida.


Talvez este livro se deva intitular (...)

 

 

(continua)

 


Sobre mim

foto do autor

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

 

 

15-anos

Links

As minhas páginas e blogs

  •  
  • FOTOGRAFIA

  •  
  • Flavienses Ilustres

  •  
  • Animação Sociocultural

  •  
  • Cidade de Chaves

  •  
  • De interesse

  •  
  • GALEGOS

  •  
  • Imprensa

  •  
  • Aldeias de Barroso

  •  
  • Páginas e Blogs

    A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    X

    Z

    capa-livro-p-blog blog-logo

    Comentários recentes

    FB