Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

10
Set10

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

 

 

.

 

O sonho

 

Batiam as oito da matina na torre da Câmara Municipal. Ao lado, no quartel do Regimento de Infantaria Dezanove, era o render da parada. O pessoal que ia entrar de serviço, apresentava-se ao Oficial de Dia, o Aspirante a Oficial Miliciano Riconcas.

 

Riconcas, de nome próprio Raimundo Fogaça, era oriundo de uma família humilde dos lados de Boticas. Como era sobrinho de abade, foi este que suportou os seus estudos no seminário de Vila Real. Não deu padre por ser traído, na sua já frouxa convicção clerical, por um dos muitos passeios à Timpeira. Enrabichou-se pela Zélia, uma mocinha estudante do Colégio Moderno de S. José. A paixão bateu tão forte que, para além de acabarem ambos expulsos, casaram aos dezoito anos.

 

A disciplina nos seminários e nos colégios de freiras era severa. Eu que o diga! Cheguei a não me poder sentar por tão negro ter o rabo, da pancada da vara do padre Maximino nas sabatinas do latinório! Padres e freiras eram das felpas do dianho! Não podiam sonhar, sequer, que algum dos seus pupilos saltava a cerca.[i] Queriam-nos ao redor dos seus saiotes como os pitos ao redor da mãe galinha!

 

Então, como é que o Fogaça e a Zélia namoravam, ao ponto de estreitarem tanto os laços que Cupido abençoou? De uma forma assaz engenhosa: O padre Filinto Osório, aos dias soltos, dizia missa no seminário e, de seguida, no colégio. Quando chegava ao primeiro, colocava o seu chapéu de abas largas num bengaleiro que se encontrava ao fundo do corredor que dava para a capela. Ora, o Raimundo, aproveitando a deixa, enfiava entre a larga fita do garruço e o respectivo feltro, extensas cartas de amor escritas em papel de avião, fino, que dobrava escrupulosamente. Acabada a missinha, o senhor abade enfiava o dito cujo e seguia para o colégio. Aí dependurava-o num outro bengaleiro à entrada. Zélia fazia o mesmo. Recolhia a carta do bem amado e colocava a sua. Assim, o abade fazia de correio sentimental sem que desconfiasse. Desta forma, rebuçada, iam fortalecendo o sentimento, até que um dia foram apanhados. Tudo descoberto foram ambos de requitó para a rua. Casaram. Ela, já com o sétimo ano completo, ganhava o pão nas aulas que ministrava no Liceu de Chaves; ele, cumprindo tropa no Dezanove. Moravam com os sogros dela.

 

 

Riconcas passava as noites de serviço quase em branco. Não só porque o trabalho era de responsabilidade, mas também porque gostava muito de ouvir as estórias que os militares contavam na sala do soldado. Passava horas a escutá-las. Não se pense, contudo, que por causa disso alguém faltava ao respeito que se exigia a um oficial. Muito pelo contrário. O Aspirante era muito respeitado porque se enchia de fazer bem a todos. Se algum dos seus soldados lhe confidenciasse uma necessidade, desfazia-se em boas vontades. Convencia o comandante a assinar o passaporte e, evitando que se desenfiasse, permitia que fosse ajudar a família no arranque das batatas, na ceifa do centeio ou na apanha do feno.

 

Fogaça folgava muito em escutar aquelas estórias! Dizia ele que era para um dia escrever um livro. Muitas delas eram até bárbaras, contadas por gente grossa, como a casca do carvalho negral, habituada à terra e ao uivo dos lobos nas noites de lua cheia. A mesma estória, com moral idêntica, era contada de forma muito diferente por um barrosão ou por um homem da Terra Quente. Esta idiossincrasia atraia-o e deliciava-o.

 

O 101 de Fafião contava, numa dessas noites, que na sua aldeia havia um homem rico que tinha muitos serviçais. Um deles, muito atrevido mas de boa estampa, ia atraindo, aos poucos, os favores da patroa. Diga-se, em abono da verdade, uma traça de mulher! Ele era vaidoso e quando se deu conta que lhe podia cantar o fado, aprumava-se como um fidalgo. Tinha um cabelo louro encaracolado que brilhava como o sol, sobretudo quando o untava com um cibito de azeite. Sonhava fazer perder a amada nas ondas de oiro do seu cabelo! Dono de um corpo espadaúdo e um olhar petulante, quando, à revelia do patrão, fitava a patroa e esta topava ficava em brasa. Bem se adivinha que aquele amor, proibido, era perigoso. Ainda por cima acontecendo no Barroso, onde se marca o terreno como o Boi do Povo que escorna[ii] sem dó nem piedade! Mas também se diz que o fruto proibido é o mais apetecido e o romance, aos poucos, tomava forma. Claro está, sempre por entre poulas[iii] na Primavera e palheiros no Inverno.

 

Um dia, por desgraça, a patroa emprenhou. Quando o amante soube da novidade, tentou que ela aceitasse um desmancho. Não o conseguindo, pelo menos que o ónus do crime caísse sobre o patrão. Ela lá montou a estrangeirinha[iv] e o pai seria o companheiro do altar. Durante a gravidez, a patroa estando muito menos disponível para as facadas no matrimónio,[v] desprezava o amante. Isso provocava-lhe grandes ânsias, angústias mesmo. Ela, raposa, explorava o sentimento com sarcasmo.

 

Uma noite invernosa de Janeiro, depois da ceia, o patrão recolheu à alcova com as galinhas. O criado ficou a turrar[vi] sobre o borralho, ao redor de dois potes que ainda apuravam os rojões do redanho[vii] da matança da véspera. Aguardava que tudo acalmasse para, depois da cozinha arrumada, poder aproveitar um rojãozito e, quem sabe, uma beijoca da amada. Mas cais quê! A patroa apanhando-o a dormitar, embrasou a ponta da tenaz e queimou-lhe os caracóis, seu único tesoiro. Acordou sarapantado com o cheiro a lã estonada.[viii] Teve tal desgosto que durante algumas semanas nem para as fuças lhe olhou. Contudo, aos domingos não deixava de se aperaltar para a missa e fazia questão que a patroa o mirasse. Usava a fatiota da moda que havia comprado no Cardoso da Saudade, em Braga, num qualquer S. João. Um rico fato preto de risca cinzenta. A amante, quando o fitava, sentia enrubescer-lhe o tição do desejo até à chama, mas continha-se. Então, para espantar os espíritos daquele desejo mal contido, xingava-o cantando:

 

Ai, ai, ai que se acaba o mundo, calça preta e risca ao fundo!!!


Ele ficava puto, mas tinha de aguentar, esperançado na oportunidade de se vingar numa qualquer cama de giestal.

 

Largos dias tem cem anos. Hás-de pagá-las todas juntas — pensava ele.

 

Apanhá-la-ia a descer [ix]num qualquer dia na touça do Pópulo e, isolada do mundo, pagá-las-ia todas juntas. Havia de a fazer arder nas parafundas da paixão!

 

A hora do parto chegou. Pariu um rapagão! Qual toirinho, o rapaz não renegava as origens. Era a cara chapada do pai de sangue!

 

— O alma do diabo vai-me denunciar.— pensava o criado quando o viu pela primeira vez.

 

O pai, oficial, andava todo croncho[x] com o rebento. Contudo, desconfiado, por mor dos rumores e dos olhares intrigantes do vizinhos.

 

Os meses foram passando e a mulher, refeita do parto, continuava, como as pitas infiéis, a pôr fora. Agora, a febre era tanta que tinha ninho por todos os cantos do ermo. Ele era cada ninhada!...

 

O rapazinho já dava os primeiros passos, quando o patrão, não aguentando mais a quase certeza de que andava a ser enganado, se pôs à coca.[xi]

 

Numa tarde quente de um sábado de finais de Julho, com a desculpa de ir ao rebusco das espigas de trigo que, esbanjadas pela ceifa, pudessem ser aproveitadas, ausentou-se, lampeira, para o restolho da courela do Belão. Para poder justificar a saída, teria de chegar a casa com o saco de serapilheira cheio para as galinhas. Contando com a ajuda do criado, seu amado, rapidamente conseguiu atestá-lo, ganhando tempo para escrevinhar mais uma página do seu romance. Ao lado da leira do Belão, havia uma touça ajeitadinha. A sombra das carvalhas e o fanenco constituíam o cenário perfeito. Pousaram. Começaram a estender a merenda.

 

Preliminares!

 

Por trás de uma parede de pedra solta, estava amarrucado[xii]o patrão. Armara-se de um estadulho da acarreta para o que desse e viesse: um fueiro de carvalho, muito aguçado numa das pontas, onde se espetavam os molhos da palha que se acarretavam nos carros de bois para as eiras. Mal deu conta de que os acepipes finavam e a refeição principal ia ser servida, saltou a parede de estadulho em riste, cego de raiva. Surpreendendo os pombinhos em tão inusitados propósitos, não lhes deu tempo de reacção. Nem sequer para um ai Jasus. Vazou-os mesmo ali pelo lombo como quem fura nacos de carne numa espetada. Ficariam unidos para a eternidade! Empalados naquela figura escontra[xiii] o chão da touça, não restariam dúvidas quanto à razão que justificava tal acto. Acabado o serviço e sem pinga de remorso, deu a notícia na aldeia, aparelhou a égua e apresentou-se à Guarda de Ruivães. Apodreceu na prisão. O rebento, órfão, foi entregue a um tio padre que o fez ordenar em Braga.

 

 

Doutra vez, um militar, já com um grãozinho na asa, contava, entre copos de tinto, uma outra estória que teria acontecido lá para as Terras de Basto. Assim rezava:

 

Há muitos, muitos anos, vivia na minha terra um homem chamado Albano Toca na Gaita. Casado há anos com a Maria da Cóniga, era pai do Paixão Toca na Gaita e da Alegria na Gaita Toca. A nomeada da família, está bom de ver, provinha do gosto e do jeito que tinham para os instrumentos musicais. Neste caso, os de cordas. Tocavam cavaquinho, braguesa, violão, guitarra portuguesa ou bandolim, como verdadeiros artistas. Até ganhavam alguns patacos com a arte. Evidentemente que os serões eram uma alegria quando se davam aos ensaios. O que acontecia amiúde.

 

Ora, como não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe, um certo dia, ainda em idade serôdia, o Albano adoeceu de morte. Com um mal ruim e desenganado pelos médicos, aguardava, resignado, que a morte o ceifasse. Aos filhos, ainda menores, e à mulher, deixou de herança uma última vontade: que antre as suas pernas, no caixão, levasse o cavaquinho com que aprendera as primeiras notas. Queria que a terra o comesse ao som de uns acordes em lá maior. Assim se fez.

 

Para o funeral, apesar de se tratar de uma família de parcos recursos, foram contratadas, a soldo de géneros, duas carpideiras de Ribeira de Pena. No final das exéquias fúnebres e quando o mortório dava entrada no terreno santo para a derradeira encomenda ao criador, a Cóniga saltou num pranto sem proparos:

 

— Adeus, meu home querido. Tu lá vais e eu cá fico com Paixão e Alegria e levas antre[xiv] pernas com que eu me advertia!..[xv]

 

A soldadesca mailo o Aspirante riam-se com os dentes todos e escorropichavam mais um caneco. Que fosse pela alma do músico e pela veia poética da sua madama!

 

O cabo Fernando Moreiras, não querendo ficar atrás, também botou a sua:

 

Na minha terra, ali para o Brunheiro, havia um lavrador rico, o Inocêncio, que colhia toneladas de batata de semente que vendia por essa Terra Quente. Rendiam bom dinheiro. Só que o bárbaro torrava toda a fortuna no jogo. Logo que pudesse, escapava-se para a cidade com a carteira recheada. Arreava o seu cavalo russo e descia a encosta até à veiga, embalado pela esperança, quase sempre frustrada, de regressar mais rico do que descia.

 

Só que aquele dia havia de ser especial.

 

Era Sábado de Aleluia. Pela manhã, meteu quinze notas à carteira. Montou a pileca e fez-se à cidade. O plano era ir almoçar ao Ti Horácio, onde deixaria o cavalo estacionado. Depois rumaria à Sociedade para as bater[xvi] toda a tarde. Assim foi. Pelo meio-dia estava a enfardar[xvii]um bacalhau com erbanços, regado com um azeite de Brunhais e um vinho do Faustino, colhido nas encosta de Anelhe. O cavalo ficou preso nas traseiras da taberna junto ao rio. A janta do solípede: um coleiro[xviii] de cevada. A merenda: quatro bôlas de trigo de canto, afogadas num gamelão[xix] em três litros de vinho tinto e meio quilo de açúcar. Estas sopas de burro cansado ajudariam o corcel a subir a serra a galope. Tudo tratado e a refeição deglutida, era hora da batota.

 

Na Sociedade, ali à esquina da Rua Direita com a Praça de Camões, lá encontrou os amigos do costume. Todos alimentavam, de vaquinha, a esperança de depenar o velhote, como tantas vezes o haviam feito. Mas qual quê, parece que naquela tarde os santinhos estavam todos com o Inocêncio. Fosse qual fosse o trunfo, ganhava sempre. Tanto dava dar-lhe pela cabeça como pela cabeça lhe dar! As quinze notas que levara multiplicaram-se por três, quando, pelas dezassete horas, levantou ferro com os parceiros depenados.

 

— Era milagre — pensava ele.

 

Regressou ao Horácio. Botou dois canecos para o caminho. Montou o alazão para regressar. O quadrúpede estava ao rubro. Eléctrico, espumava enquanto roía o freio ansioso pelo trote. Fez-se à estrada, proporcionando ao cavaleiro a mesma sensação que alguém teria a guiar um Ferrari! Dali a Izei demorou pouco mais de meia hora e noutra meia estava nas voltas das Cabeceiras, pouco antes de France. Corria o mês de Outubro, o tempo estava farrusco e a noite caia sobre os talefes. O Inocêncio vestia uma samarra com gola de raposa, em cujo bolso interior repousava o tesouro da jogatina. Quando se preparava para desfazer a segunda curva, saltou-lhe à estrada um encapuçado com um trabuco apontado à montada.

 

— Ó amigo, desapei-se[xx] do cabalo!

 

— Vossemecê que quer dum pobre diabo que regressa do trabalho?

 

— Cale o cu e desapeie-se ou leba[xxi] um estouro nos cornos!

 

Perante tais palavras, não teve alternativa senão obedecer e descer do cavalo.

 

— Dispa a samarra.

 

Despiu-a e entregou-lha.

 

O gatuno disparou um tiro de caçadeira na pata dianteira do bicho e pôs-se ao fresco.

 

— Seria o excomungado do Pita?!

 

O Inocêncio ficou descorçoado. Sem cavalo, sem samarra e sem dinheiro.

Afinal, não era mesmo um homem de sorte. Caraito!

 

— Ora essa, isto é alguma estória que se conte aqui, ó Fernandinho? Atão[xxii] ouve lá esta — dizia o Arrebunha, um soldado zarolho ali dos lados do S. Caetano.

 

Lá na minha terra vivia uma casal de brasileiros ao qual todos achavam muita graça pelos modos de falar. Masturavam[xxiii] dezeres[xxiv] brasileiros com os modos de ladruzir[xxv] cá da terra. Ele chamava-se Vicente Mais ou Menos e era magro como uma argana.[xxvi] Andava quase sempre embloutado[xxvii] pela lavadura que recolhia nos arrabaldes da cidade. A mulher, Maria Passa Cantando, era roliça e dura como a carabunha[xxviii] da azeitona.

 

— Olha que nomes do catano! Bem m’ou finto que se chamassem assim! — dizia o 101 de Fafião.

 

— Era assim mesmo que se chamavam. No Brasil, têm a mania de pôr nomes esquisitos às pessoas, sabias?

 

.

Imagem para blog Chaves em http://chaves.blogs.sapo.pt

.

 

Continuando…

 

Albidou-se-me[xxix]se teriam tido filhos, mas estou que não, por mor[xxx] do Vicente não se astreber[xxxi] com a mulher! Que lhe doíam muitas vezes os rinzes![xxxii]

 

Ora, uma noite de Inverno, estavam ambos sentados ao borralho. Dois gatitos morrinhentos[xxxiii] dormitavam no escano. Andavam há dias emonados[xxxiv] um com o outro e acaijo[xxxv] não se falavam por causa de uma noite mal dormida! O Mais ou Menos turrava escarrapachado numa banca de três pés. Poisava a cabeça sobre os braços que cruzava apoiados nos joelhos. A Maria observava o comportamento estranho de um dos gatitos que, entretanto, saltou para a cinza. Reparava ainda que o calor do borralho levedava o zericotá do marido, como ela dizia. À medida que o coiso ia crescendo, botava a cabecita de fora pela braguilha desapertada. Um dos gatinhos tentava, com a patita, de cima da cortiça onde repousavam os pés do amo, envoltos nuns carpins[xxxvi] de merino,[xxxvii] desafiar aquela esquisita proeminência que despontava pelo negrume do boeiro.

 

A Maria, quando se apercebeu do que sucedia, gritou para o animal:

 

Sapi gato, não bula lá!

 

O marido, entretanto acordado e apercebendo-se do que se passava, respondeu:

 

— Bula qui bula a si que lhe dá?

 

— Dá!... Posso estar zangada consigo mas não estou com o zericotá!

 

 

— Pois, pois, está boa, Arrebunha! Só mesmo de ti podia sair uma coisa assim — dizia o Aspirante botando mais meio caneco. E continuou.

 

— Oiçam agora esta que é verdadeira e se passou cá comigo.

 

Claro está que, mesmo não valendo um chavelho o que o Aspirante ia contar, todos afinaram o ouvido, dando-lhe o máximo de atenção.

 

Ora, estava eu a largar o serviço pelas cinco da tarde de um dia de Agosto, quando me deu para ir até ao Tabolado gozar o final desse dia de Verão. Alapei-me, à paisana, num dos bancos à beira Tâmega. Fumava um pensativo cigarro, como diz o poeta, quando vi aproximar um ancião muito bem posto. Apoiado numa elegante bengala de cabo de prata, exibia um rico cachimbo pendurado na queixada. Chegou ao pé de mim e com bons modos perguntou se tinha lumes. Respondi que sim. O velhinho debruçou-se para que o cachimbo fosse aceso. Quando o tabaco, aromático, pegou, puxou duas fumaças. Agradecendo, continuou o seu caminho. Eu fiquei por ali, deliciando os olhos com as moças que iam passando e o espírito com a corrente límpida do rio. Daí a pouco observei que o dito regressava acompanhado, agora, por dois polícias de Segurança Pública. À minha beira, indicou-me como sendo o responsável pelo furto de um alfinete que usava na gravata e que dizia ser uma antiga e preciosa jóia de família herdada de seu avô. Que me teria aproveitado do facto de ele se ter debruçado para que lhe acendesse o cachimbo!

 

É claro que me desfiz em mil desculpas, mas que nada. Teria de seguir para a esquadra. Que não ia. Sendo oficial do exército só obedeceria à polícia militar. Que fossem chamá-la. Pensei melhor e para não prolongar o martírio, acedi. Como um vulgar cidadão, acompanhei a autoridade civil e o queixoso até à esquadra, onde esperava que tudo fosse esclarecido. A tarde aproximava-se rapidamente do fim. A hora da última camioneta de carreira estava a chegar. O tempo apertava. Se não conseguisse apanhar esse transporte, teria de dormir no quartel, o que não era nada agradável.

 

Pelo caminho até à esquadra da Rua da Cadeia, fui-me apercebendo que o velhote deveria ser uma ilustre personagem da cidade, pela deferência com que os polícias o tratavam. Eu, um reles desconhecido! Ainda assim, fui insistindo que a jóia, porventura, poderia ter ficado esquecida em casa. Que não, que era impossível. Que não havia dia algum que não fosse colocada, religiosamente, sobre a gravata. Era uma recordação do seu avô, insistia.

 

Na esquadra, o facto de sermos recebidos pelo comandante, com todas as exéquias, confirmava a minha desconfiança. Devia tratar-se mesmo de uma pessoa conceituada.

 

Lá tive de repetir toda a história. O tempo passava e a hora da camioneta era chegada sem que me despachasse para a apanhar à rua do Olival. Depois da minha insistência de que poderia ter-se esquecido, naquele dia, de a colocar na gravata, o velhote lá condescendeu em telefonar confirmando a minha suspeita. Como de facto… A jóia repousava sobre a cómoda do seu quarto de dormir!

 

Fiquei possesso!

 

Convicto, desde início, da justa inocência, teria agora de pernoitar no quartel com os pés frios e sem jeito de avisar a minha cara metade.[xxxviii]

 

Lá me despedi dos policias. O velhote, fazendo questão de me acompanhar, desfazia-se em desculpas. Pediu-me que esperasse. Fez outro telefonema para casa. Pediu que o chauffer nos recolhesse. Convidou-me para a ceia em jeito de compensação. Que não aceitava, que bondava de estorvo. Descíamos a ladeira para as Freiras e o ancião não se calava. Insistia que o acompanhasse e que fazia questão que o seu chauffer, no final do repasto, me transportasse a casa. Bem, quando esta hipótese se pôs, acedi a acompanhá-lo. Sempre me safava das pulgas e dos percevejos do quartel. Seguimos até à rua de Santo António onde o seu automóvel já nos esperava.

 

Antes que a ladeira tivesse finado, apoiou-se sobre a sua bengala de punho de prata, meteu a mão ao bolso interior do sobretudo e retirou uma carteira de couro que tremulamente entreabriu. Do seu interior, repleto de notas, retirou duas de conto, insistindo que as aceitasse. Que comprasse uma recordação para a esposa. Luziram-me os olhos! Igual quantia não avezava no soldo mensal. Que não podia aceitar. Que guardasse a carteira. Que bem chegava já o incómodo que me havia causado. Pois se não aceitava duas notas, tomasse quatro. Meus Deus, como medrava o meu sonho! Uma parte de mim dizia que não, que não era justo. A outra que aceitasse e não me fizesse de burro!

 

Que não podia, que era demais…

 

Pois então que pegasse em cinco notas de mil e que não se falasse mais no assunto!

 

— Eu quero que o senhor Aspirante me perdoe. Só desta forma vejo jeito — insistia.

 

Recusei de novo, lutando, ferozmente, contra a minha própria vontade. Engolia em seco, só de pensar o que poderia fazer com tanto dinheiro no início de uma vida de casado sempre tão difícil. Continuou.

 

— Bem, então já que não aceita...

 

Meteu a carteira ao bolso e seguimos caminho. Fiquei triste como a noite!

 

Raispartam as regras da boa educação e mais quem as pariu — pensava eu!

 

É claro que a soldadesca estava parva. Alguns tinham mesmo alguma dificuldade em fechar o espanto das bocas semiabertas. Muitos não conseguiam sequer suster comentários curtos e grossos:

 

— Estúpido! Ai se fora comigo!...

 

Continuando…

 

Chegados à Rua de Santo António, mesmo em frente ao Maximino Vila Nova esperava-nos um lindíssimo Cadillac La Salle de 1940. O chauffer, fardado, apressou-se a abrir-nos as portas traseiras para que entrássemos. Já ao volante questionava:

 

— Para casa, Senhor Conde?

 

— Sim, Pancrácio, se fizeres o favor!

 

Se já estava admirado… Conde?

 

Seguimos até ao Largo do Arrabalde, subimos a Rua Direita até às portas do Anjo e descemos a Santo Amaro. Daí tomámos a estrada de Braga até à Fonte Nova, onde parámos em frente a uma lindíssima mansão. O condutor apeou-se, abriu um grande portão em ferro lavrado que dava para um jardim fronteiro a uma escadaria dupla de acesso à entrada principal. O veículo manobrou, penetrou no jardim e de redacu[xxxix] estacou em frente às escadas. A porta principal foi aberta por um mordomo fardado. Desfazia-se em mesuras.

 

— Ó Albuquerque, diz à senhora que mande pôr mais um prato na mesa que este senhor vai cear comigo. Interim, estando pronto o jantar, chama-nos. Vamos estar no escritório. Providencia que nos sirvam dois courvoasier.

 

— Assim farei, senhor — respondeu o mordomo.

 

Escusado será dizer que acabava de penetrar numa mansão cuja beleza nada ficava a dever à mais pintada da Avenida da Boavista no Porto.

 

Chegados ao escritório, um belíssimo compartimento mobilado ao estilo rococó, fui convidado a sentar-me em frente a uma larga secretária onde também se alapou o nobre Conde. Não demorou que um criado, devidamente arreado, nos servisse o conhaque francês em dois balões de cristal da Boémia!

 

Numa calma surpreendente, o ilustre anfitrião abriu a gaveta da secretária e retirou do seu interior um livro que me parecia ser de cheques. Pegou numa Mont Blanc.

 

Enquanto se preparava para escrevinhar, foi dizendo:

 

— Meu caro Aspirante, já que não aceitou os cinco contos de reis que lhe quis oferecer, de certo porque achou pouco, para além da ceia na minha companhia e do transporte até sua casa, quero que aceite este cheque. Gostaria que fosse aplicado em património que possa aproveitar com a família. Estendeu-me a mão com a oferta do papel.

 

— Por amor de Deus, senhor Conde, eu não posso aceitar tanta gentileza — mas já negava com frouxidão. Já não convencia ninguém.

 

— Pronto, já que tanto insiste… — pelo canto do olho catrapiscava vinte contos de réis!...

 

A cabeça estalava-me de emoção só de imaginar o que poderia fazer com tanta massa!

 

— Aceito!

 

Estiquei a direita.

 

Quando me preparava para abarbatar o dito cujo, bati com a mão na mesinha de cabeceira e acordei.................

 

As bocas semiabertas dos soldados ouvintes fecharam-se como ostras. Nem para um último trago de tinto se franquearam!

 

Contudo, à saída, ainda sobrou força para alguém vociferar:


 

Filho da puta do Aspirante, com esta é que ele nos fodeu!..

 



[i] Se dava a práticas indevidas

[ii] Marra como o boi

[iii] Terreno inculto de mato rasteiro

[iv] O engano

[v] Relação extra conjugal

[vi] Dormitarm, deixando a cabeça cair de vez em quando.

[vii] Gordura à volta das tripas do porco

[viii] Queimada

[ix] Apanhá-la a jeito

[x] Vaidoso

[xi] De atalaia

[xii] De cócoras

[xiii] Contra

[xiv] Entre

[xv] Divertia

[xvi] Jogar à batota, normalmente a lerpa.

[xvii] Comer

[xviii] Saco de serapilheira menos de meado

[xix] Gamela grande

[xx] Desça

[xxi] Leva

[xxii] Então

[xxiii] Misturavam

[xxiv] Dizeres

[xxv] Falar

[xxvi] Espinha de peixe

[xxvii] Muito sujo

[xxviii] Caroço

[xxix] Esqueci-me

[xxx] Por causa

[xxxi] Atrever

[xxxii] Rins

[xxxiii] Dorminhocos

[xxxiv] Zangados

[xxxv] Quase

[xxxvi] Meias

[xxxvii] Lã fofa

[xxxviii] Esposa

[xxxix] Marcha atrás

Sobre mim

foto do autor

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

 

 

15-anos

Links

As minhas páginas e blogs

  •  
  • FOTOGRAFIA

  •  
  • Flavienses Ilustres

  •  
  • Animação Sociocultural

  •  
  • Cidade de Chaves

  •  
  • De interesse

  •  
  • GALEGOS

  •  
  • Imprensa

  •  
  • Aldeias de Barroso

  •  
  • Páginas e Blogs

    A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    X

    Z

    capa-livro-p-blog blog-logo

    Comentários recentes

    FB