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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

16
Set10

O Homem sem Memória (8) - Por João Madureira

 

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO

 

 

 

8 – José esteve sempre à janela. A sua relação com o mundo foi permanentemente feita através de uma janela. Mesmo neste momento em que escrevo, imagino-o sentado à janela da sua pequena sala que dá para o Brunheiro vendo cair a chuva e observando o vento a abanar as árvores da avenida.


Talvez este livro se deva intitular ”O Homem à Janela”e não “O Homem Sem Memória”. O Partido e a Igreja consumiram-lhe a memória. E a prisão multiplicou-lhe as imagens e arruinou-lhe o ideário. Ninguém consegue passar pelo cárcere como preso político sem ficar com uma memória dupla ou tripla. Uma memória para os dias bons, outra para os dias maus e ainda outra para os restantes.


Para chamarmos a este seu livro ”O Homem à Janela” teríamos de prestar muita atenção à sua hipersensibilidade suicida relativamente às palavras ofensivas. Um homem à janela remete-nos para um voyeur, para uma sensibilidade delicada, feminina, ou até para um inválido que se deleita a observar o mundo através de uma lente fotográfica. E toda esta construção ficcional pode despoletar a sua paranóia e fazer com que se atire da janela abaixo sem pensar nas consequências. José foi constantemente um homem de causas e não de consequências. Daí o seu ar de herói romântico sempre pronto a defender a sua dama, quer ela se chame Maria, Liberdade, Coerência ou Esquecimento.


Foi em Lisboa que aprendeu a observar a rua como se fosse um pequeno deus analista impotente, como todos os analistas, como todos os deuses. Mesmo de noite, quando os seus pais dormiam, o gato da vizinha ronronava e um que outro carro cruzava a estrada, José observava a escuridão através da enorme janela da sala, em cima de uma cadeira, roendo o pequeno anel de oiro, com o seu nome gravado, que a madrinha lhe tinha oferecido nos anos.


Por ali passavam, sobretudo, marinheiros enfiados nos seus fatos brancos de criança, em tudo idênticos ao seu, que costumava usar no Verão para ir passear junto ao Tejo, ou então para ir à missa aos domingos. Os marinheiros embebedavam-se todas as noites com anis. Não eram sempre os mesmos que por ali passavam, mas pareciam. Os marinheiros agarravam-se aos postes da iluminação pública e punham-se a rodar como tontos. Depois riam-se e caiam ao chão como sacos. Seguidamente vomitavam, tornavam a beber, riam-se, tornavam a rodar, vomitavam, tornavam a beber e, agarrados uns aos outros, cantavam canções estranhas em línguas estranhas e iam-se embora.


Uma noite contou doze marinheiros que se encontraram junto ao poste que iluminava o passeio em frente à sua janela. Nesse dia, além das garrafas de anis, transportavam consigo uma mulher. Ela ria-se muito, dava gritinhos e exibia as coxas. Eles agiram como sempre: beberam, rodopiaram em redor do poste de iluminação pública, cantaram, vomitaram e, no meio do entusiasmo, começaram a despir a mulher.


Ela não se apercebeu logo do propósito dos marinheiros. É bem possível que os homens do mar não tivessem a intenção do que a seguir fizeram. Mas a ocasião faz o ladrão. E eles, míopes com a bebida, começaram a urrar e a rir-se como o fazem os loucos em fúria perante a sua obsessão. E começaram a esbofetear a mulher, como se estivessem a jogar a um jogo infantil de roda. Ela corria de um lado para o outro, tentando fugir por debaixo dos braços dos marinheiros. Eles tanto levantavam os braços, como os baixavam, ao jeito das crianças quando brincam ao gato e ao rato. E riam-se. A mulher, quase nua e com a cara ensanguentada, clamava alto por socorro. Eles davam-lhe mais bofetadas e, agora, pontapés. Finalmente, a mulher caiu ao chão. Um dos marinheiros avançou para o centro da roda baixou as calças e violou-a. Depois outro e outro. Assim sucessivamente, até doze. José contou as violações. Observou bem cada penetração agitada, como se os homens estivessem a abater uma galinha ou um porco. Ululavam. A cada nova violação, enquanto o parceiro imitava o movimento das marés, os restantes marinheiros bebiam, cantavam, berravam alto, esbugalhando os olhos, ficando vermelhos de raiva, quedando possessos, como se cada um tivesse um diabo dentro de si à espera de praticar o mal.


No final do rodízio, a mulher ficou inanimada no chão. Mas os demónios não se imobilizaram. Continuaram na violação, um atrás de outro e atrás de outro e atrás e de outro… e assim ainda muitas mais vezes, em levas sucessivas, tantas que o José lhe perdeu a conta.


Só depois de passado muito tempo é que ao fundo da rua surgiram as luzes intermitentes do carro da polícia. Os marinheiros, então, abandonaram a presa e abalaram dali, a passo lento, como se nada tivesse acontecido. Os agentes da autoridade nem sequer esboçaram a mais tímida intenção de perseguir os violadores. Limitaram-se a solicitar uma ambulância e depois foram-se embora.


José passou estas imagens para a câmara escura do seu cérebro. Um dia haveria de matar marinheiros e fazer renascer aquela mulher violada e dá-la em casamento ao seu irmão mais novo. Para si, estava resolvido a rogar ao Gepeto para lhe construir uma de madeira e solicitar à fada madrinha para lhe dar vida e nunca a deixar envelhecer.


Durante toda a noite entreteve-se a retalhar em tiras muito finas todo o seu fato de marujo. A partir daí nunca mais vestiu fatos domingueiros e passou a ficar de castigo preso a uma cadeira ou às pernas da mesa da sala com uma linha. A sua mãe administrava a educação com um rigor admirável para uma criada de servir.


Tanto o ódio como as lágrimas guardou-os numa caixa de cristal junto ao seu pequeno coração.

 

 

 

 

9 – Foi através dos vidros do Volkswagen do Marcelino que assistiu a muitas das rusgas realizadas pelas brigadas do partido perto da fronteira do concelho de Névoa com a Galiza. Quando se dava uma intentona da reacção em Lisboa, era certo e sabido que alguns dos implicados subiam até à fronteira norte do país para irem abrigar-se a Espanha. Meia dúzia de comunistas dedicados à causa de acossar reaccionários lançava-se no seu encalço e batiam muitas das estradas e caminhos que ligavam Portugal a Espanha. E por ali andavam, de carro ou a pé, com uma faca de matar porcos, uma pistola Mauser e uma caçadeira com cartuchos de chumbo, para caça grossa. Felizmente que nunca encontraram nenhum desses perigosos reaccionários (...).

 

(continua)

 

 


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