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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

24
Set10

...

.

As Casas da Várzea

 

 

poema de José Carlos Barros

 

http://casa-de-cacela.blogspot.com

 

 

 

há muito tempo que tenho uma história para contar

e tenho vergonha de contá-la por ser verdadeira

tão verdadeira como eu estar aqui

e saber que as pessoas em regra

não acreditam em histórias verdadeiras.

as pessoas em regra acreditam

na prosa das mentiras.

 

eu era então uma criança.

e é claro que quase todos nós tão rapidamente

começamos a aprender a deixar de ser

aquilo que somos

para passarmos a ser

aquilo que julgamos que os outros

a um espelho poliédrico

julgam que somos.

não admira por isso mesmo

que não acreditemos nas histórias das crianças

e não admira que quase sempre seja necessário

colocarmos máscaras no rosto

para regressarmos à identidade

que ao longo do tempo perdemos.

e está portanto explicada a razão

de ter uma história verdadeira para contar

e temer que ninguém acredite

na minha história verdadeira.

 

pois é dar-se o caso de eu em criança

apanhar a camioneta da carreira

no largo do toural das boticas

a caminho de chaves.

mas os milagres precisam de tempo

e deslocamento do fulcro onde se sustenta

o quotidiano concreto das coisas.

e talvez por isso mesmo

só na viagem de regresso

esse já entretanto pressentido mistério

começasse em rigor os trabalhos

fabulosos da revelação.

 

na garagem da auto viação do tâmega

onde funcionavam também os escritórios subindo-se

uma escaleira sem guarda

havia um cheiro permanente a gasóleo

e uma bruma que vinha dos filmes a preto e branco

e um ruído de fundo de motores

que só muitos anos mais tarde viria a saber

que revertia da insânia do levante.

 

e logo começavam os milagres

em saindo a camioneta da carreira dos largos portões

da garagem do canto do rio

com esse rumor contínuo

a acompanhar-nos a viagem toda

e a ficar nos ouvidos durante a noite

até se desvanecer enfim às primeiras horas da manhã

e ser apenas já um murmúrio ou a sua reminiscência

o que vibrava ainda nos vidros

das janelas do quarto.

 

mas saindo da cidade

e abrindo as curvas muito fechadas até

à tipografia gutenberg

que nesse tempo ficava do outro lado da estrada

num pequeno anfiteatro virado às águas do tâmega

 

eu via que os homens

de súbito

voavam.

 

os homens que voavam

pareciam vir do lado das casas da várzea.

voavam numa lentidão inverosímil

os braços muito abertos e as pernas a quarenta e cinco graus

como naves alienígenas

suspensas da rarefacção dos fins de tarde

dos meses de junho.

 

o meu pai nunca compreendia

a razão de eu querer ficar no banco corrido de trás

o mais desconfortável

e sujeito à oscilação de enjoo das molas oscilatórias

da camioneta da carreira:

mas só assim podia ainda quedar-me

de olhos colados ao imenso vidro traseiro

a ver os homens da várzea

a desaparecer na distância

voando sobre a veiga de chaves

tocando com as mãos na copa dos salgueiros

e dos amieiros

incendiados pela reverberação

das seis e meia.

 

eu próprio cheguei a duvidar

das imagens antigas da infância

e dessa memória que ao longo dos anos

repercutiu nos meus sonhos.

 

a verdade é que no passado dia vinte e três de agosto

numa segunda feira do ano de dois mil e dez

ao fim da tarde

quase quarenta anos depois do

episódio a que faço ingloriamente referência

por saber que ninguém no mundo em que vivemos

acredita em histórias verdadeiras

 

ia eu de carro a caminho de chaves

e vi claramente visto

com estes dois que só a terra haverá de comer

um homem e uma mulher

suspensos à luz rasa do crepúsculo

voando sobre os campos da veiga.

 

vinham ambos do lado das casas da várzea

e a mulher tinha um vestido de um amarelo tão intenso

que eu estou que o resto da minha vida

não será bastante

por longa que seja

para ofuscar na memória

o halo dessa tão intensa e concreta

revelação dos milagres.

 

 

 

 


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