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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

07
Out10

O Homem sem Memória (11) - Por João Madureira

 

Texto de João Madureira


Blog terçOLHO

 

 

11 – Todos olharam na direcção da estrada que conduzia à escola. Marcelino e os seus camaradas travaram de repente. O chefe da Brigada Brejnev virou-se para o segundo da fila e passou-lhe o revólver que transportava no bolso do casaco. “Sou muito nervoso”, sussurrou. O UEC pegou na arma a medo e passou-a ao terceiro da fila, dando a mesma desculpa.


Era este UEC, também ele, à sua maneira, um frouxo armado em revolucionário. O seu conceito de estudante comunista residia na ideia de que estudar era uma cedência vergonhosa ao capitalismo e à ideologia burguesa. Era dirigente da associação de estudantes e um dos mais velhos alunos do seu curso. Os anos de repetência usava-os como insígnias revolucionárias. Insultava os professores não comunistas e criticava os que eram seus camaradas de pactuarem com os reaccionários. Espalhava o terror revolucionário com o orgulho de um perfeito idiota. Todas as pessoas de bem o evitavam, pois a sua capacidade de insulto era muito temida. Possuía um duplicado de todas as chaves da escola, orgulhava-se de andar de bicicleta, durante a noite, por cima do chão encerado disparando com uma espingarda de pressão de ar sobre os cristos crucificados que existiam espalhados por todas as salas do estabelecimento.


O outro UEC, surpreendido pelo facto do auto-intitulado líder da Brigada Brejnev se ter despachado da pistola invocando nervos e do seu superior na célula da organização ter seguido o mesmo argumento revolucionário, nem pensou dois segundos, aproveitou o embalo e passou-a ao José como se ela queimasse.


José não deitou fora o revólver, que foi aquilo em que primeiro pensou. O seu estado de indignação aconselhou-o a metê-la no bolso do casaco e avançar. A sua cara de menino Jesus crescidinho ajudou-o a desviar as atenções.


“Ai Jesus, vem aí os guerrilheiros!”, tornou a gritar aflita a beata mais beata das beatas da aldeia. Uma das raparigas que estava à sua beira, desfez o equívoco. “Olha, mas é o senhor Marcelino! Ó mãe, o senhor Marcelino não é guerrilheiro nenhum. Pode ser comunista, mas não é guerrilheiro. O seu pai era muito rico e ele também tem muito dinheiro. Ele gosta é da brincadeira. É um pândego.”


“Olá Dona Isabel, então não me conhece? Olhe que eu conheço-a muito bem. O meu pai vendeu-lhe muita mercadoria a prestações.”


Entretanto os UEC pegaram no material de propaganda, enfiaram tudo nos carros e abandonaram a aldeia com muita subtileza revolucionária. Marcelino disse que ia ficar mais um pouco, aproveitando o bom nome do seu pai para comer presunto e beber uns copos de tinto.


“A única coisa que os comunistas têm de bom é o seu apetite”, comentou a certa altura a mulher que tinha reconhecido o camarada Marcelino.


Marcelino, naquela noite, fez-se convidado em casa do único camarada da aldeia e, por artes do diabo, arranjou forma de ir dormir a casa da mulher que o tinha reconhecido. Era ela uma viúva que não desdenhava de uma noite bem passada com um homem que lhe desse conforto e também algum dinheiro para botar cordão de ouro com que gostava de fazer inveja às mulheres casadas da aldeia.


12 – Foi através de um buraco existente entre os vários blocos de jornais (“A Verdade” atada com corda de sisal) que faziam de barreira contra uma possível saraivada de tiros ou pedradas da reacção contra as janelas de vidro do centro de trabalho, que José viu o povo a invadir a praça. E pela primeira vez, desde que era comunista (e já lá iam cerca de seis longos meses após a sua conversão) sentiu medo.


(...)

 

(continua)

 

 


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