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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

08
Out10

Discursos Sobre a Cidade - Por António de Sousa e Silva

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Não podia recusar o convite de Fernando Ribeiro para colaborar nesta rubrica.


Porque aos verdadeiros amigos só, por circunstâncias excepcionais e atendíveis, se deve recusar um favor. Para além de, na actual fase da minha vida, ter uma intervenção, embora que modesta e muito singela, num blog que muitos flavienses, e não só, consultam, lêem e participam, é uma outra forma de me manter activo.


A minha participação nesta rubrica será pautada por cinco vectores:


1.- Falarei essencialmente sobre a problemática do desenvolvimento (local) da cidade de Chaves e do seu território de amarração – o concelho. Por isso, temas como cidadania, participação (cidadã e institucional), animação, identidade e património, entre outros, serão recorrentes ao longo desta minha intervenção.


2.- Assumo-me como oriundo e herdeiro da tradição e do pensamento republicano, socialista e laico. Mas não confino o meu pensamento e as minhas posições a qualquer catecismo que conjunturalmente esteja em vigor. O espírito republicano é, por natureza, livre. Não aceito, pois, a atitude subjacente ao espírito do «nihil obstat», não recusando, assim, a bondade de outros pontos de vista quando os mesmos vencem e se impõem na sã dialéctica da discussão no seio de uma sociedade livre, plural e democrática.


3.- Orgulho-me de ter pertencido a uma equipa que esteve à frente dos destinos da cidade de Chaves e do seu concelho na década de 90. Inaugurou-se naquela data uma nova forma de estar na política, de fazer política e de encarar a causa pública no concelho de Chaves, depois do 25 de Abril. O mérito foi da visão, do projecto e da postura perante o interesse público que aquele grupo trazia. Não pertenceu a ninguém em especial. Tratava-se de uma nova mentalidade de um colectivo que, embora tivesse um líder, o mesmo sabia que a qualidade e a força da sua liderança não residia apenas nele mas essencialmente na nova base de apoio e naqueles que directamente o assessoravam. Contudo, como tudo na vida, teve o seu tempo e, consequentemente, o seu término. Estou certo, e creio não estar enganado, que, da semente entretanto lançada para os lados do casarão da Praça de Camões, ficou e frutificaram algumas das boas práticas na gestão da coisa pública autárquica. É dessa experiência e dessa postura de que aqui farei eco, quando tal for necessário.


4.- Mas, mais do que político, assumo-me verdadeiramente como pedagogo. Foi sempre essa a minha verdadeira vocação. Muito mais até do que advogado ou gestor. Mais de dois terços da minha vida activa profissional foram passados dentro de uma sala de aulas e no contexto institucional do ensino. Foi sempre esse o terreno onde melhor me movimentava e melhor me sentia. Por isso, a minha intervenção aqui nesta rubrica terá, assim, o peso e o selo daquilo que sempre na realidade fui – professor.


5.- Celebrou-se esta semana, no dia 5 de Outubro, os 100 anos da implantação da República em Portugal. Simbolicamente o actual governo fez da inauguração de 100 novas e remodeladas escolas um dos pontos altos das comemorações. Para significar que o ideal republicano de cidadãos livres só faz sentido quando os mesmos são instruídos. Só com e pela instrução é que verdadeiramente se podem fazer verdadeiras escolhas. Há 100 anos, 75% da população portuguesa era analfabeta. 100 anos volvidos o panorama é na realidade bem diverso mas não menos desafiador. Não só para os cidadãos em geral como para os educadores e para a política em especial.


Sempre o homem, ao longo da história, teve necessidade de entender o seu tempo presente.


Mas o presente em que vivemos já não é algo que simplesmente se ofereça ao nosso olhar sem empenhamento da compreensão, interpretativa e antecipatória.


A análise da sociedade em que hoje nos é dado viver dá-nos a imagem de um campo desestruturado e não de um objecto iluminado pelo saber cujos elementos se insiram num todo coerente. É a sociedade pós-moderna, dita em mosaico, de que alguns autores falam, ou invisível, nas palavras de Daniel Innnerarity, na sua obra «A sociedade invisível», quando afirma que assistimos hoje ao “desmoronamento do mundo territorialmente delimitado, ideologicamente polarizado e administrado por uma burocracia exacta”, que acabou por nos destruir “determinadas esperanças e também levou consigo as piores ilusões ao revelar a realidade complexa da sociedade(…)”. Sociedade “complexa pelo aspecto que nos oferece (heterogeneidade, dissensão, caos, desordem, diferença, ambivalência, fragmentação, dispersão), pela sensação que produz (intransparência, incerteza, insegurança), pelo que se pode ou não fazer com ela (ingovernabilidade, inacessibilidade)”.


A concorrência entre imagens do mundo, ideologias e estilos de vida produz a impressão de um mundo menos claro e, consequentemente, invisível. Significando que nele a sociedade opera cada vez menos com variáveis objectivas e cada vez mais com possibilidades e sentidos.

É tendo como pano de fundo, e no contexto de uma sociedade globalizada, em mosaico, e invisível, que a rubrica se constrói e desenvolve.


Cientes de que esta invisibilidade do mundo em que vivemos toca especialmente o futuro.


Futuro que é simultaneamente menos adivinhável e menos prescindível.


Mas é aqui, neste estado de impasse e de inquietação dos espíritos, quer particularmente para a função política, quer para a função docente, que vem a propósito, e com pertinência, a necessidade de revisitarmos a utopia.


Utopia que consiste exactamente em ajudar a dramatizar a imperfeição do presente, a produzir a sensação e a cultivar o pressentimento de que, na expressão de Adorno, «falta qualquer coisa».


Que nos possibilita observar e agudizar o engenho de construir o possível no contexto do actual e o actual no contexto do possível.


Porque o aspecto distintivo do ser humano é a capacidade de procurar e inventar alternativas, de usar atalhos.


Porque a convicção de ser possível organizar a sociedade de uma outra maneira faz parte das condições de uma sociedade democrática.


Porque com a utopia impregnamos o nosso pensamento que nos conduzirá à acção.


Fortalecendo a nossa consciência do carácter perene, da educação, e contingente, das políticas.


Tendo como principal objectivo aumentar a precisão daquilo que estamos em condições de pretender.


Daquilo que, razoavelmente, podemos esperar.


Ajudando-nos a clarificar o que podemos exigir uns aos outros como membros das comunidades locais e globais.


Fazendo opções pelas situações em que vale a pena pôr tudo em jogo.


Representando, em suma, esta postura, o exercício pleno da cidadania que a República teve e continua a ter como ideário.


 

Outubro de 2010

António de Sousa e Silva

 

 

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