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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

14
Out10

O Homem sem Memória (12-13) - Por João Madureira

 

 

 

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO

 

 

12 – Foi através de um buraco existente entre os vários blocos de jornais (“A Verdade” atada com corda de sisal) que faziam de barreira contra uma possível saraivada de tiros ou pedradas da reacção contra as janelas de vidro do centro de trabalho, que José viu o povo a invadir a praça. E pela primeira vez, desde que era comunista (e já lá iam cerca de seis longos meses após a sua conversão) sentiu medo.


A sua adesão ao comunismo deu-se nos “Canários”, na primeira sessão de esclarecimento que o Partido deu em terras de Névoa. Logo após o 25 de Abril, e em apenas dois meses, evoluiu da Democracia Cristã, para o Partido Socialista e deste acelerou a sua formação e deu de caras com os estatutos do Partido Comunista, um opúsculo fininho de letra miúda e com a capa mais vermelha do que o sangue dos recos que se matavam lá em casa pelo Inverno. A foice e o martelo em amarelo pareciam-lhe o sagrado coração de Jesus na forma humana. Mas a salvação parecia vir da mesma vontade de transcendência.

 


13 – Foi através de vários outros buracos deixados de propósito no muro feito com os tijolos elaborados com “A verdade “ que José fez as suas noites de vigilância revolucionária na sede do partido – a casa de todos os comunistas. Foi através deles que observou as noites a passar sem que nada de extraordinário acontecesse: nem os reaccionários davam sinais de si, nem os revolucionários davam indícios claros de investirem todas as suas forças na revolução.


De facto, os marxistas-leninistas em Névoa eram poucos, mas tamanho nunca foi qualidade e nisso os comunistas batiam aos pontos todas as outras organizações políticas. Eram os que pintavam mais paredes, os que colavam mais cartazes, os que faziam mais comunicados, os que vendiam mais jornais, autocolantes e emblemas, os que organizavam mais comícios e manifestações, os que reuniam mais vezes e os que mais criticavam os erros da nossa sociedade. E ela tinha tantos.


Durante as noites de vigilância, José congeminava no que faria se os reaccionários resolvessem atacar a sede do Partido. E quase sempre se ficava pelo exercício heróico da morte exemplar. Durante o período mais quente da revolução, os comunistas mais avisados visitavam o centro de trabalho logo após o almoço e ao fim da tarde, “pois pernoitar nele era um autêntico suicídio”, explicavam eles em justificação da sua avisada cobardia. E como quase todos faziam parte das estruturas dirigentes, era um erro crasso deixarem-se apanhar desprevenidos no meio da balbúrdia subversiva. Muitos eram profissionais prestigiados (pequeno-burgueses, nas palavras inquinadas da minoritária célula proletária) que quase sempre acumulavam com a condição de pais responsáveis. A tarefa tinha de ficar com os camaradas que não tinham compromissos assumidos: os solteiros, os desempregados e os jovens estudantes. Ou seja, a missão da defesa interior do edifício e vigilância de proximidade ficava a cargo de um SUV (Soldados Unidos Vencerão) nervoso e pouco responsável, pois tinha ordens expressas do partido para não aparecer na sede, e dos três UEC (incluído o ciclista e caçador de Cristos com espingarda de chumbo). Marcelino, o chefe da Brigada Brejnev, defendia o flanco esquerdo, a partir da janela da sua casa; e mais três companheiros da brigada Camarada Vasco (um filho de um comerciante abastado, um proprietário de um restaurante e um desempregado de longa duração) estavam incumbidos de activarem o “triângulo das bermudas”, que consistia na produção e comunicação de sinais luminosos entre as janelas do quarto onde dormia o funcionário do Partido, o automóvel do filho do comerciante e a lanterna do revolucionário desempregado de longa duração, que se empoleirava no cimo de um dos muitos plátanos que existiam disseminados pela Praça. O triângulo era activado sempre que se aproximava um carro suspeito a altas horas da madrugada, pois existia a forte desconfiança que essa poderia ser a maneira de alguma brigada reaccionária colocar uma bomba na casa do Partido.


14 – Enquanto José vigiava a praça através dos buracos da muralha de jornais, os outros dois UEC entretinham-se a escavar um buraco na sala do bar, que ficava nas traseiras do apartamento térreo. Numa divisão encontrava-se a caçadeira com cartuchos de chumbo para caça grossa, numa outra repousava o revólver prateado junto à telefonia e na terceira descansavam as facas de matar recos. A Mauser estava com o Marcelino, pois em sua casa passavam-lhe os nervos no momento de a empunhar. Já o material bélico da Brigada Camarada Vasco era constituído por uma carabina de cinco tiros com mira telescópica, que pernoitava no quarto do funcionário do Partido, por duas navalhas de ponta e mola compradas em Feces e por duas pistolas de alarme transformadas em armas de defesa pessoal.

 

(...)

 

(continua)

 


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