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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

15
Out10

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

 

 

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MEIA SARDINHA

 

Anos cinquenta, auge do Estado Novo, tempo difícil. O país rural e analfabeto tardava em recuperar das mazelas da Grande Guerra. A mais pequena courela era explorada ao máximo para matar a fome aos ranchos de filhos do povo que penavam descalços, rotos e enfezados pelas aldeias miseráveis. Desde tenra idade, os rapazotes botavam a cria ao monte, aprendendo somente as letras das músicas que os rouxinóis lhes ensinavam. De que valia afinal perder tempo com o bê-á-bá se as cabras e as ovelhas não sabiam ler?

 

Morria-se a meia dúzia de léguas do oceano, sem nunca ouvir o murmúrio das ondas ou o doce trinar das sereias. Nascia-se puro e inocente, perecendo-se duro e embrutecido. O mundo tinha início e termo nos arredores do lugar e, tirando a missa do Domingo, único divertimento, o universo reduzia-se a pouco mais do que nada. Entre o bicho homem e o animal propriamente dito — com licença de quem me lê — havia uma fronteira ténue que o mais das vezes se confundia até na própria forma de viver de cada um. E, se o coelho e a raposa dormiam na lura térrea e húmida, o bicho homem apodrecia no pardieiro de colmo enegrecido.

 

Uma vida muito triste!

 

Não fugia muito deste contexto a família do Ti Zé Porto do Carregal. O pai vivia derreado pelos anos, pela vida difícil e pela tuberculose. A mãe, a Ti Cândida, cusca da aldeia, era seca como o colmo da palha centeia. Os seis filhos, magros como cancelas e de olhos esbugalhados com a fome, eram finos como alhos. O mais velho, com uns catorze anos, começava a vestir a penugem das aves que querem desaninhar. O mais novo, com uns cinco, andava sempre descalço, as calças abertas no traseiro para satisfação das necessidades fisiológicas, a barriga à mostra e o monco no nariz. A Ti Cândida quase não tinha tempo de parir um e já inchava doutro. Pudera, era ela a parteira da aldeia e pelo menos não tinha de pagar maquia. Paria ao pé da lareira, onde já fervia um pote de água para as lavagens. Abafava os gemidos quanto podia, botava o crianço ao mundo, passava-o por água, envolvia-o num qualquer trapo, deitava-o ao pé do Ti Zé e só depois tratava dela. Normalmente, bastava uma canja de galinha para a pôr fina. No dia seguinte, já lavava no tanque do Prado mesmo que para isso tivesse de partir o carambelo de Janeiro.

 

Matava-se o reco pelo Natal, mas a carne, o mais das vezes, estava acabada no Entrudo. O resto do ano alimentava-se com fome de batatas, de couves e de caldo. Um naco de boroa de centeio, propositadamente duro para que durasse mais, rilhava-se nas horas difíceis para enganar o estômago pois só se cozia de quinze em quinze dias e quando havia farinha. Galinha, era um luxo para doentes e para pôr os ovos que a feira dos quinze haveria de transformar em trapos. Fruta, só no tempo dela e a que se subtraía aos vizinhos. Peixe, somente de mês a mês quando o sardinheiro passava com a mula carregada de caixas que recolhia na estação de comboio do Vidago. Mas só quando o rei fazia anos é que havia dois tostões para meia dúzia!

 

Que tempo miserável!

 

Ora, um dia, o Ti Zé Porto abriu os cordões à magra bolsa e quis fazer um bonito. Ao ouvir a corneta rouca do sardinheiro anunciando a sua chegada à eira, pegou na carteira e foi ter com ele. Era São João e quis experimentar a sardinha a pingar no pão!

 

— Ó Ti João, as sardinha são boas?

Atão não hadem ser Ti Zé, inda as fui buscar tresontonte ó Bidago!... Quantas le boto?

— A como são?

— A dois testões cada.

— São caras, porra, mas bote lá meia dúzia se diz que são boas!

 

Embrulhadas em meia folha de papel de jornal, lá levou o petisco para a ceia.

 

À lareira, botou-as na grelha sobre as brasas e era ver os filhos à volta do braseiro ougadinhos!

 

Ora seis sardinhas para oito bocas dava a divisão natural de duas para o pai, uma para a mãe e meia para cada cria. Estavam feitas as partilhas e bem feitas!

 

Claro está que, mal a meia sardinha caiu no pão de cada canalho, foi com tal velocidade lambida que nem as arganas se lhe aproveitaram.

No prato ainda restava meia sardinha da ração do pai.

 

O mais novo da criação, não resistindo à tentação da sobra, saltou a berrar agarrado à saia da mãe pela meia sardinha do pai!

 

— Ó Cândida, o que é que o rapaz quer?

— Parece que é burro, já comeu a meia sardinha dele e agora quer a tua meia.

 

O Ti Zé matutou, matutou e contrafeito rematou:

 

— Ó mulher, dá-lhe lá a meia sardinha, se rebentar que se foda!...

 

Não sei se rebentou ou não, sei é que os irmãos nunca perdoaram aquela ousadia ao pimpolho!...

 

Gil Santos

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