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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

21
Out10

O Homem sem Memória (14) e (15) - Por João Madureira

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Texto de João Madureira

Blog terçOLHO



14Enquanto José vigiava a praça através dos buracos da muralha de jornais, os outros dois UEC entretinham-se a escavar um buraco na sala do bar, que ficava nas traseiras do apartamento térreo. Numa divisão encontrava-se a caçadeira com cartuchos de chumbo para caça grossa, numa outra repousava o revólver prateado junto à telefonia e na terceira descansavam as facas de matar recos. A Mauser estava com o Marcelino, pois em sua casa passavam-lhe os nervos no momento de a empunhar. Já o material bélico da Brigada Camarada Vasco era constituído por uma carabina de cinco tiros com mira telescópica, que pernoitava no quarto do funcionário do Partido, por duas navalhas de ponta e mola compradas em Feces e por duas pistolas de alarme transformadas em armas de defesa pessoal.


José vigiava a praça porque se recusou terminantemente a participar na abertura do buraco que os dois camaradas da UEC continuavam a escavar no chão do bar do Partido. O UEC ciclista, e alvejador de Cristos, com o apoio do outro, haviam decidido quase por unanimidade ir em frente com o furo que iria servir para guardar as várias bombas de fabrico artesanal que um camarada pirotécnico das bandas de Valpaços tinha fabricado para ajudarem na defesa do Centro de Trabalho de Névoa. Havia-as confeccionadas dentro de uma lata redonda com pólvora e cabeças de pregos caibrais e outras em forma de gordas espigas revestidas com pedaços de ferro de pote. A muitos dos camaradas curiosos que por lá passavam nas horas de expediente era-lhes dito que o buraco se destinava a guardar garrafas de vinho tinto para abrir no dia do triunfo da revolução, que estava para breve. Por isso muitos deles bebiam o café e o bagaço em cima de um barril de pólvora atulhado de pedaços de ferro fundido.

 


15Nas longas noites de vigília, como se estivesse na tropa ou no seminário, José, o SUV e os outros dois UEC dormiam no bar em cima de colchões de palha tapados com cobertores que mal os agasalhavam. Era normal José ter frio e comichão e desconforto e insónias e arrependimento e medo e dúvidas e saudades da família e dos amigos e de brincar e até, espantemo-nos, sentir falta dos dias da catequese, da voz doce da catequista, das melífluas imagens dos santinhos, da salvação, do céu, dos anjos e da bondade.


Dias e dias seguidos de vigília tinham posto os nervos daquelas sentinelas da revolução democrática e nacional à flor da pele. Discutiam por tudo e por nada. Nos intervalos das discussões, o SUV folheava revistas pornográficas e ia masturbar-se para a casa de banho, o UEC subalterno lia o Tio Patinhas e ria-se muito, o UEC caçador de cristos decifrava O Caminho do Triunfo, do Camarada Punhal, sublinhando-o e fazendo anotações do seu conteúdo num pequeno caderno de capa vermelha, enquanto fumava cigarros sem filtro e bebia copos de leite. José tentava em vão ler A Verdade. O jornal contava sempre o mesmo, dando conselhos e ordens aos militantes, como se eles fossem homens e mulheres sem vontade própria, constantemente a necessitar de auxílio e de orientação. Por vezes tentava ler algumas das obras de Marx ou Lenine, mas era como experimentar decifrar os Evangelhos. A mensagem enublava-se num emaranhado de palavras sem sentido.


José procurava afincadamente a bondade: a bondade de Deus, a bondade dos homens, a bondade dos proletários. Mas apenas se deparava com problemas. Ele buscava respostas para as suas inquietações, mas cada vez as perguntas eram maiores e mais complicadas.


Noite alta, enquanto olhava a rua deserta pelos buracos do muro de jornais, apetecia-lhe chorar. Mas um homem não chora, um revolucionário não chora. Apenas choram os covardes e os medrosos. Por vezes corriam-lhe dos olhos grossas lágrimas de desalento que desculpava por se tratar de reacções alérgicas ao pó ou às noites sem dormir.


O caminho da revolução, tal como o da redenção, é difícil de percorrer. “Temos de ser fortes para conseguirmos vencer as adversidades”, pensava ele, tentando iludir a sua fraca fé no mundo e nos seus protagonistas, porque se Deus não existe qual é o sentido da vida? E se Deus existe para que serve se não consegue aliviar a dor aos que sofrem, a lazeira aos famélicos e afastar as dúvidas a quem se encontra submergido por elas?

 


16Uma noite, enquanto os outros seus camaradas vigilantes dormiam o sono dos néscios, naquele engano de alma subversivo e vesgo que a realidade não deixa durar muito, José sentiu que alguém mexia na porta do Centro de Trabalho.(...)

 

(continua)

 

 


 

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