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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

29
Out10

Discursos Sobre a Cidade - Por José Carlos Barros

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Santos & Pecadores


um texto de José Carlos Barros

 

 

A questão não é a das memórias que tenho ou deixo de ter da Feira dos Santos. Porque a minha memória da Feira dos Santos vem da infância e da juventude, e a memória desses tempos não foi ainda capaz ao longo dos anos de trazer-me nada de que pudesse arrepender-me – incluindo os erros e os perigos, ou sobretudo isso. A questão, portanto, não é a da memória da Feira dos Santos: a dos carrosséis e das pistas de carrinhos de choque onde cheguei a fazer ultrapassagens de milagre nas curvas em U; a do fascínio das barracas, essa geometria entre a matemática dos quadros do Nadir e a perfeição abstracta dos fractais e da teoria do caos; a da gente tão diversa circulando nas ruas e nos terrados com sobretudos, mini-saias e legs ou samarras, e sacos de compras pendendo enquanto se dão boas-horas a esmo a olhar cores e padrões, a apreçar socos e cuecas, a comprar pijamas e capotes alentejanos; a do gado vagaroso, com esses olhos grandes a olhar-nos como se transportassem neles o tempo imemorial; e a dos bailes, como esse em que uma música me lembra ainda de não haver outra que se lhe possa sobrepor porque só eu, de um dos dois lados, a dançava; e a do polvo miúdo, e a do barulho das bolas dos matraquilhos contra a parede da linha de fundo, e a das cassetes piratas com a música pimba que calha tão bem, como nenhuma outra, com esta alegria e esta nostalgia de ser de novo a data de calendário da Feira dos Santos.


A questão, pois, não é a das memórias que tenho da Feira ou deixo de ter. A questão é que o mundo mudou. E a Feira mudou, ou está a mudar, ou vai mudar irreversivelmente, ou vai regressar a um pouco do que já foi não deixando de ser o que é. E essa, mais que a questão das memórias que temos dela, é que é a questão.


Nada sei, nada sabemos. O mundo vai mudando contra o nosso entendimento dos carretos que o movem. Nós assistimos às mudanças do mundo sem compreender que fios vinham de trás a ligar os fios que puxamos hoje.

Mudaram, além do mundo inteiro, e do entendimento que temos dele, as razões que justificavam a Feira dos Santos tal como cheguei a supor entendê-la: um mundo de gente vinculada à ruralidade, aos campos, à terra de aluvião ou das pastagens de gado, aos matos rasteiros ou aos mosaicos de hortas e nabais e bosques e agras de poila, à transformação dos produtos dos campos, às vinhas e aos pomares, ao comércio das panelas e dos tachos e da roupa de vestir – um mundo de gente que comprava e vendia, mercava, e se encontrava e se perdia numa prancha de pinho sob uma tenda de petiscos e vinho, e fazia os preços, e recomeçava, e se misturava às pessoas da urbe nessa complementaridade que separava as fronteiras para que elas se pudessem aproximar.

 

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Veio depois um tempo de diluição. Um tempo em que a urbe e a ruralidade se juntaram, aos sábados, nos mesmos espaços de shopping; um tempo em que os empréstimos e o consumo e os juros nos aproximaram a todos na mesma impossibilidade de futuro. Chamam-lhe crise. Podíamos chamar-lhe outra coisa.


Um país evoluiu do sector primário para o terciário sem passar pelo secundário. Chamaram-lhe sucesso. Em menos de uma geração, num ápice, eliminou-se a ruralidade sem transições, sem continuidades, sem contiguidades: e aos afastados deste movimento de modernidade acolheu-os a segurança social, o subsidiozinho insustentável, a inserção – o desaparecimento, a invisibilidade, o desperdício.


A Feira dos Santos, hoje, inscreve-se num tempo de contradições e rupturas. Entre um tempo que era e deixou de ser e deixámos de saber o que é. Os matraquilhos não fazem sentido no tempo da internet, o polvo cozido não faz sentido no tempo dos hambúrgueres, os socos não fazem sentido no tempo do asfalto nos caminhos de saibro que não há, os produtos agrícolas não fazem sentido num tempo em que vamos durante o ano aos hipermercados comprar ervilhas congeladas da maggi.


Ou voltará, tudo isto, a fazer sentido. Se a realidade concreta nos demonstrar que estávamos errados e que é preciso regressar a um modo diferente de compreender o mundo, além da abstracção dos títulos da bolsa, das taxas de juro, dos empréstimos de longo prazo e do pib. E tudo, então, provavelmente, voltará a fazer sentido, e a Feira dos Santos voltará a ser a Feira dos Santos que a memória guarda.


Sei lá. Sabemos sempre tão pouco. E talvez esta confusa crónica, de alguém afastado e dividido, seja a única coisa a não fazer sentido num tempo que foi e deverá ser sempre de exaltação, nostalgia e encontro, porque o tempo é novamente, mais uma vez, o tempo de ser a Feira dos Santos.

 

 

 

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