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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

11
Nov10

O Homem sem Memória (18) e (19) - Por João Madureira

 

 

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO

 

 

18 – A reunião teve início à hora marcada e contou com a presença de todos os seus membros eleitos em assembleia por voto de braço no ar e ainda com o funcionário do partido a nível concelhio e o funcionário distrital, que tinha assento no Comité Central, como suplente, mas dos principais da lista supletiva, dos que tinham assento muito perto dos camaradas suplentes da comissão política nacional.


Em vez de pratos, os camaradas tinham na sua frente uma folha de papel em branco e em vez dos garfos uma esferográfica oferta de um agente de propaganda médica, também camarada, mas na clandestinidade por trabalhar para uma multinacional.


A reunião começou como todas as outras, com uma sessão pungente de crítica e a autocrítica realizada por cada membro deste destacado e prestigiado colectivo concelhio. O procedimento tinha muito de religioso. Mas enquanto os católicos se confessavam a um padre para pedirem perdão a Deus, os comunistas faziam-no às claras, na presença de todos, para pedirem perdão a Alberto Punhal, num acto de contrição público que servia para dar alfinetadas em muitos dos camaradas que não procediam com a conveniente obrigação (pois era certo e sabido que ninguém fazia as coisas como devia, pois existiam sempre falhas no procedimento de um revolucionário, pois perfeitos só mesmo Punhal, Lenine, Estaline e Marx, e por esta ordem).


O funcionário do partido leu de seguida o editorial da Verdade. E comentou-o, relendo partes. E citou O Caminho do Triunfo. O Dr. Sebastião pensou logo no Triunfo dos Porcos, que o Partido considerava uma obra contra-revolucionária. Mas a ele, que até lia o Expresso, o órgão quase oficial da burguesia nacional, a sua consciência revolucionária permitia-lhe ler obras heréticas. O Dr. Sebastião era, com vossa licença, burro velho, por isso não se deixava contaminar pelas pantominices dos escritores reaccionários.


 

19 – E a reunião prolongou-se como um ofício fúnebre. No fundo, os padres e os acólitos comunistas nevoenses estavam ali reunidos. E bem. Todos concordavam com todos. Concordavam com as orientações do Partido. Concordavam com o editorial da Verdade. Concordavam com as interpretações esclarecidas dos funcionários, sobretudo com as do funcionário suplente do CC. Concordavam com a necessidade do comunismo e do centralismo democrático e com a necessidade de fazer mais militantes e de cobrar melhor as quotas e de colar melhor os cartazes e de pintar melhor as paredes e de agitar mais as massas e de ser mais tolerantes com a Igreja e, ao mesmo tempo, combater os socialistas. A tarefa revolucionária centrava-se em combater os socialistas. Tolerar a Igreja, mas combater os socialistas. Os católicos tinham desculpa por causa da crença e por causa de serem muitos e terem o poder de baptizarem os recém-nascidos e de casarem os jovens e de enterrarem os mortos abençoando-os com a promessa das palavras sagradas imbuídas pelos santos óleos. Os católicos tinham ainda a desculpa dos textos bíblicos, por onde aprendiam, serem muito antigos, mas os socialistas, esses traidores, tinham lido, pelo menos, as obras de Marx e nada tinham aprendido com elas. Sobretudo porque não queriam. E eles sabiam ler. Esses desgraçados sabiam ler. E bem. Muitos dos católicos não sabem ler nem escrever. Mas os socialistas, sim sabem. Se não seguem os ensinamentos é porque estão decididos a trair. Judas traiu Cristo conscientemente. Por trinta dinheiros. E deu-lhe um beijo para o entregar. Podia simplesmente apontá-lo com um dedo, como o fazem os socialistas quando votam nas suas reuniões. Mas não, Judas deu um beijo a Cristo e, dessa forma, disse que aquele era o judeu que se dizia filho de Deus que os romanos tanto procuravam. Judas não era homossexual. Apesar de ter beijado Jesus. Cristo não era homossexual. Apesar de se ter deixado beijar por Judas. Jesus vivia entre homens. Mas naquele tempo era normal. Tempos antigos, costumes antigos. A sexualidade é uma coisa recente. A homossexualidade é uma doença moderna. Muitos socialistas são homossexuais. Ou melhor, a homossexualidade é um desvio socialista. Um desvio pequeno-burguês de fachada socialista. Não é que o Partido persiga os homossexuais. Ou os pequeno-burgueses. Nem combate ou persegue os católicos. Compreende-os. O Partido compreende tudo. Mas compreender não é aceitar. Além disso, nenhum comunista digno desse nome patenteia um comportamento sexual desviante. E muito menos ideológico. O camarada Punhal, Marx, Lenine, Estaline, nenhum deles, que conste, era homossexual. Nem socialista. Nem traidor. Os socialistas são os verdadeiros descendestes de Judas. São capazes de beijar os comunistas em público para a seguir nos traírem. Às escondidas do povo. Os nossos antepassados estiveram ao lado de Cristo. Com Cristo. Em Cristo. Os socialistas estiveram sempre com Judas. Judas era um verdadeiro socialista. Cristo não era comunista, mas todos vemos que gostava de o ser. A haver um comunista no meio dos apóstolos, ele era Tomé.

 

 

20 – Ver para crer. Ou será crer para ver? Qual é a proposição verdadeira? O funcionário concelhio não se entendia com o provérbio apropriado. Mas tanto fazia. No fundo, e o Dr. Sebastião que o desculpasse,(...)

 

(continua)

 


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