Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

12
Nov10

Crónicas Ocasionais - Património e Tradição versus Desenvolvimento Local

 

.

 

Património e Tradição versus Desenvolvimento Local

 


Segundo a sua acepção clássica, o conceito de património refere-se ao legado que herdamos do passado e que transmitimos a gerações futuras. Todas as manifestações materiais de cultura criadas pelo Homem têm uma existência física num espaço e num determinado período de tempo.


Algumas destas manifestações destroem-se e desaparecem, esgotadas na sua funcionalidade e significado. Outras sobrevivem aos seus criadores, acumulando-se a outras expressões materiais.


E, através da própria dinâmica da existência, estes objectos do passado alimentam, pela sua permanência no tempo, a criatividade de novas gerações de produtores de objectos, que acrescentam elementos às gerações anteriores. E assim a cultura flui.


No entanto, nem todos os vestígios do passado podem ser considerados património. O património não é só o legado que é herdado, mas o legado que, através de uma selecção consciente, um grupo significativo da população deseja legar ao futuro. Ou seja, existe uma escolha cultural subjacente à vontade de legar o património cultural a gerações futuras.


E existe também uma noção de posse por parte de um determinado grupo relativamente ao legado que é colectivamente herdado. Como afirma Ballart na sua obra “O Património Histórico e Arqueológico – Valor e Uso”, a noção de património surge “quando um indivíduo ou um grupo de indivíduos identifica como seus um objecto ou um conjunto de objectos”.


Esta noção de património, com a ideia de posse que lhe é implícita, sugere-nos imediatamente que estamos na presença de algo de valor. Valor que os seres humanos, tanto individual como socialmente, atribuem ao legado material do passado, valor no sentido do apreço individual ou social atribuído aos bens patrimoniais numa dada circunstância histórica e conforme o quadro de referências de então.


Neste sentido o património é, e a este respeito existe hoje um consenso generalizado, “uma construção social”, da forma como o define Llorenç Prats em Antropologia e Património. Construção social, ou se se quiser cultural, porque é uma idealização construída.


Aquilo que é ou não é património, depende do que, para um determinado colectivo humano e num determinado lapso de tempo, se considera socialmente digno de ser legado a gerações futuras.


Toda a construção patrimonial é uma representação simbólica de uma dada versão da identidade, de uma identidade “manufacturada” pelo presente que a idealiza.


Assim sendo, o património cultural compreenderá então todos aqueles elementos que fundam a identidade de um grupo e que o diferenciam dos demais.


Neste sentido, o elemento determinante que define o conceito de património é a sua capacidade de representar simbolicamente uma identidade. E, sendo os símbolos um veículo privilegiado de transmissão cultural, os seres humanos mantêm, através destes, estreitos vínculos com o passado.


É através desta identidade passado-presente que nos reconhecemos colectivamente como iguais, que nos identificamos com os restantes elementos do nosso grupo e que nos diferenciamos dos demais.


O passado, dá-nos um sentido de identidade, de pertença e faz-nos conscientes da nossa continuidade como pessoas através do tempo.

A nossa memória colectiva modelada pelo passar do tempo não é mais de que uma viagem através da história, revisitada e materializada no presente pelo legado material, símbolos particulares que reforçam o sentimento colectivo de identidade e que alimentam no ser humano a reconfortante sensação de permanência no tempo.

 

.

 

 

 

.


Hoje, porém, a forma como a sociedade actual se relaciona com o passado é profundamente influenciada pelo extremo dinamismo que a caracteriza e pela tremenda aceleração da velocidade da mudança social no período moderno.


Por esta razão, os modelos de identificação outrora estabelecidos com o passado, sob a forma de tradição, perdem continuidade. Mas, por outro lado, a história e os seus objectos ganham um valor e um interesse sem precedentes.


Face ao fantasma da ruptura e da desordem provocado pela ausência de valores simbólicos e de identificação, a sociedade reclama, numa explosão de nostalgia, a recuperação do passado.


E no contexto desta corrente social nostálgica, o património surge como uma forma de recuperação especialmente eficaz.


Através do património o indivíduo sequestra um pedaço de passado, sob a forma de totens pessoais, em relação aos quais percebe uma vinculação directa.


Apesar da manifesta homogeneização de diversos aspectos do quotidiano, verifica-se hoje uma reafirmação das identidades colectivas face às tendências da uniformização individual.


Estas preocupações traduzem-se num aumento da importância atribuída à preservação do património, como elemento de afirmação das singularidades locais.


O desafio que se nos coloca é o de utilizar os recursos patrimoniais numa perspectiva de desenvolvimento durável, assente em critérios de qualidade, para que os seus benefícios resultem numa efectiva melhoria da qualidade de vida dos cidadãos.


O património constrói-se, “activa-se”, significando que toda a operação de construção ou de activação patrimonial comporta em si mesma um propósito ou finalidade, uma idealização construída por uma sociedade determinada.


Devemos, por último, ter em devida conta Augusto Santos Silva quando nos alerta para o carácter dinâmico do património ao nos alertar que “o que definimos hoje como valor patrimonial não é o mesmo que definíamos noutras épocas. E o que valorizamos hoje como referência patrimonial – por exemplo um sítio monumental – é o resultado de múltiplas e, muitas vezes, contrárias intervenções humanas.


Em suma, conceitos como inovação e tradição, num contexto de sustentabilidade, pressupõem em primeiro lugar, espaços vividos, habitados, com estratégias realistas de desenvolvimento sócioecómico, onde a fixação de populações é o factor determinante.


Entre o liberalismo selvagem, que não reconhece valores ecológicos e culturais, e o ambientalismo radical que só reconhece florzinhas e passarinhos, o desafio para as comunidades locais que queiram apostar no seu desenvolvimento é o de abrirem-se ao exterior.


Abrirem-se modernizando-se e implicando-se num reinvestimento do seu passado, reestruturação do seu património, na manutenção e revitalização das suas tradições. Realçando a topofilia, o elo emocional entre uma pessoa e um lugar ou envolvente física, o mesmo que dizer, o sentimento de pertença a um lugar ou região de origem, de residência, de trabalho ou de lazer.


Como afirmam Roca e Oliveira, na obra A paisagem como elemento da identidade e recurso para o desenvolvimento, temos todas as razões para acreditar que para além dos efeitos benéficos derivados da coesão entre as «forças» locais e regionais, um forte sentido de topofilia entre os actores e agentes de desenvolvimento, individuais e institucionais, poderão favorecer a compatibilização com as «forças» globalizadas no processo de (re)valorização das identidades territoriais.


Dado que a topofilia reflecte bem o nível de satisfação das pessoas com os vários parâmetros da qualidade de vida sobre um dado território (de carácter ambiental, económico, cultural e político, entre outros), então será de esperar que um mais forte sentido de pertença territorial poderá ser complementar ao fortalecimento do poder de atracção dos lugares e das regiões.


Em síntese, nestas questões do património, tradição e inovação, com vista ao desenvolvimento local, que é o mesmo que dizer, das comunidades e populações locais, em ordem à modernidade, que não é mais que pugnar pela qualidade de vida, numa perspectiva sustentável, de respeito pela manutenção e preservação de todos os recursos por forma a que as gerações vindouras os também possam usar, todos somos operários humildes desta construção ciclópica do futuro.


Não há patrões nem caciques – todos somos primus inter pares.


Enfim, oxalá tenha contribuído para aclarar e nos recentrar quanto ao que nos leva a estar aqui neste blogue a falar de uma cidade e de um concelho que tanto amamos e que tanto espera de todos os flavienses, ou seja, encontrarmos novas metas e construirmos novos desafios em ordem a um melhor futuro das comunidades que integram as nossas aldeias.

 

(António de Sousa e Silva)

 


12
Nov10

Discursos Sobre a Cidade - Por António de Sousa e Silva

 

Foto de Tâmara Júnior

 

.

 

Os Blogues com espaço (público) de comunicação

 


Assisti embebecido à polémica gerada neste blogue sobre Outeiro Seco entre os dois contentores Fernando Ribeiro e Altino Rio.


Fora algumas tiradas reveladoras de inveja mesquinha e autoconvencimento, deliciei-me com os guardiões da nossa autenticidade vernacular patrimonial…

 

Ando a reler o interessante livro de José Gil «Portugal Hoje – O Medo de Existir» e, a certa altura, dou comigo a cogitar, tal como Gil, quando diz que em Portugal o espaço público “falta cruelmente (…) Os lugares, tempos, dispositivos mediáticos e pessoas formam um pequeno sistema estático que trabalha afanosamente para a sua manutenção”. E afirma ainda que “quando há diálogo, nunca ou raramente ultrapassa as «opiniões» dos dois sujeitos bem personalizados (cara, nome, estatuto social) que se criticam mutuamente através das suas crónicas nos jornais respectivos (ou no mesmo jornal). O debate é necessariamente «fulanizado», o que significa que a personalidade social dos interlocutores entra como mais valia no seu discurso. É uma espécie de argumento de autenticidade invisível que pesa na discussão: se é X que o diz, com a sua inteligência, a sua cultura, o seu prestígio (de economista, de sociólogo, de catedrático, etc.) então as suas palavras enchem-se de uma força que não teriam se tivessem sido escritas por um x qualquer, desconhecido de todos”.

 

Com efeito, a crítica em Portugal, na maioria dos casos, descamba no insulto pessoal, no embate imediato de dois “fulanos” ou no elogio sobrevalorizante.

 

E tudo isto por falta, ausência, de um terceiro termo que medeie a relação dos dois interlocutores. O que só é possível quando existe uma verdadeira opinião pública, ou seja, um «espaço» público susceptível de criar múltiplas visões e leituras.


A televisão é uma miséria, um autêntico mecanismo de fabrico de iliteracia. E a rádio e a imprensa, salvo raras excepções, «fecham as fendas e brechas» por onde algum ar puro e fresco poderia circular, não construindo o «real quotidiano» das comunicações concretas dos cidadãos, e veiculando apenas «notícias».

 

Ou seja, o telespectador, o ouvinte e o leitor são imediatamente absorvidos por imagens sem fim do seu país, da sua cidade, da sua aldeia, de uma forma puramente virtual, em que o sentido é apenas aquele, já pensado. E as notícias e os comentários semanais dos comentadores não são mais que, «os pensamentos que confirmam o meu pensamento antes de o ter, a minha existência reduzida a uma massa pastosa que engole as imagens e nunca treme com o que vê ou com o que lê».


As tecnologias da informação, nomeadamente os diferentes dispositivos que a internet propicia, podem, em parte, colmatar este deficit, criando um verdadeiro espaço (público) de comunicação.

 

Porque a constituição de um verdadeiro espaço público de comunicação propicia leituras diferentes e/ou divergentes sobre o mesmo assunto ou objecto, que vai de um a outro leitor e a outro crítico, expandindo-se em várias direcções, levando a que o público se apodere da obra ou discussão e, por sua vez também, a expanda em várias direcções.

 

Tal como uma obra de arte que perde a sua marca de origem, na medida em que a sua «função autor» se dissolve. E que faz com que a mesma já não pertença a um, mas simultaneamente a todos e a ninguém.

 

Pois é assim que as culturas e as sociedades se tornam dinâmicas, vivas, pujantes.

 

Não tenhamos, pois aqui, medo da polémica.

 

Deixemos, abolamos a intriga e a trama.

 

Mas não tenhamos medo do drama!


Gostaria de contribuir no sentido de recentrar, ou melhor, reorientar esta polémica sobre o património e ambiente, enquadrando a problemática em questão perspectivada numa diferente óptica, ou seja, abordando o património e a tradição em termos do desenvolvimento local.


É o que faremos no nosso próximo escrito.

 



PS (Nota à margem) – Não queria deixar passar em branco, quanto ao Solar dos Montalvões, a seguinte passagem de Altino Rio, aposta aqui neste blogue, quando afirma que “o maior responsável pela sua degradação foi a gestão socialista através do protocolo com a UTAD, por 10 anos. Agora não há projectos para este edifício pois já solicitei que o mesmo fosse utilizado para um museu etnográfico, com fins culturais e pedagógicos”.


Refiro-me a este aspecto porque, na altura em que foi assinado aquele protocolo, com o falecido Reitor da UTAD de então, Torres Pereira, eu era responsável pela Educação e Cultura e vereador substituto do Presidente da Câmara de Chaves.


Caro Altino, eu não seria tão peremptório, quanto a este assunto, no que diz respeito a assacar culpas a quem quer que fosse. Sabe que aquele protocolo não era mais que um contrato: a Câmara de Chaves cedia aquela quinta, com todos os seus imóveis à UTAD e, por sua vez, a UTAD responsabilizava-se por construir um verdadeiro pólo universitário em Chaves, servindo o país e todo o Alto Tâmega, em especial.


Demos um prazo de 10 anos, tal como nos solicitava o então magnífico reitor, e não de 5 anos, tal como reclamava o então vereador da oposição, Dr. João Baptista. E isto porque nos contratos, um dos princípios fundamentais da sua constituição é a boa fé. Atendemos às razões invocadas pelo magnífico reitor e assinámos.


Nunca duvidei da bondade e da vontade do Professor Torres Pereira que, como sabe, era um destacado quadro e militante do PPD/PSD de Vila Real. Se quer falar de responsabilidade e de culpas, elas devem ser assacadas não só às diferentes gestões autárquicas, como aos diferentes reitores da UTAD (que bem sabe de que cor política eram) como aos diferentes governos do país. E já agora, porque não, às «forças vivas», todas, de Chaves. Aqui, como sabe, a culpa morreu solteira.


Muito folgo que o meu caro Altino tenha uma nova ideia para aquele espaço, ou parte dele. Espero que tal ideia de construir um Museu Etnográfico possa prosperar na sua comunidade. E que efectivamente o Museu contribua para construir mais um elo emocional entre as pessoas e o lugar de Outeiro Seco, o mesmo que dizer, reforçando o sentimento de pertença à terra pelos seus habitantes, contribuindo para o seu bem estar e desenvolvimento. Pois serão eles, todos, que lhe darão vida, e que dele cuidarão, e não apenas o simples amontoado de artefactos, por mais bem organizados que estejam, para curioso ou turista ver, ou, pior ainda, para vã vaidade ou glória de alguns poucos.

 

(António de Sousa e Silva)

 

 

 

 

 

 

Sobre mim

foto do autor

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

 

 

15-anos

Links

As minhas páginas e blogs

  •  
  • FOTOGRAFIA

  •  
  • Flavienses Ilustres

  •  
  • Animação Sociocultural

  •  
  • Cidade de Chaves

  •  
  • De interesse

  •  
  • GALEGOS

  •  
  • Imprensa

  •  
  • Aldeias de Barroso

  •  
  • Páginas e Blogs

    A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    X

    Z

    capa-livro-p-blog blog-logo

    Comentários recentes

    FB