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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

18
Nov10

O Homem Sem Memória (20) - por João Madureira

 

 

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Texto de João Madureira

Blog terçOLHO

Ficção

 

20 – Ver para crer. Ou será crer para ver? Qual é a proposição verdadeira? O funcionário concelhio não se entendia com o provérbio apropriado. Mas tanto fazia. No fundo, e o Dr. Sebastião que o desculpasse, o que verdadeiramente interessava era a revolução. A defesa da revolução. Era o que dizia o editorial da Verdade. Todos os editorais da Verdade o afirmavam peremptoriamente. O camarada Martins, um SUV empenhado e um comunista sincero, podia ter as suas manias, os seus desvios ideológicos, os seus momentos de crise, mas era dos poucos militantes que tinha tido a coragem de defender a casa de todos os comunistas, mesmo contra a opinião da maioria dos camaradas que consideravam essa atitude uma rematada loucura. Loucura ou não, essa era a postura que o Comité Central defendia. Na nossa casa somos reis… bem, reis não, somos os que nela mandam. É nossa…


Alguém lembrou que “o Centro de Trabalho não era do Partido, era apenas uma casa alugada. Ou seja, o Partido era apenas o inquilino. E como qualquer inquilino tinha os seus direitos, mas também tinha os seus deveres. Especialmente o de pagar a renda e o de assegurar a sua manutenção. E dar tiros nas paredes não é, e não me canso de o lembrar, não é, repito, uma atitude revolucionária”. O Dr. Sebastião, que, como bom revolucionário, continuava calado, acenou com a cabeça em sinal de concordância com as palavras do seu camarada de Partido, mas também de caça e pesca.


Aí, os dois funcionários foram aos arames. E ao mesmo tempo disseram: “O Partido não é inquilino de ninguém. Essa é uma perspectiva errada do problema. O Partido está acima de tudo. Dos militantes, dos funcionários, da Dona Marcelina, do Dr. Sebastião e até acima do camarada Punhal. O Partido está acima de tudo. Até de Deus.”


“Mas Deus não existe”, balbuciou outro alguém. Ao que o funcionário suplente do CC respondeu com cara de Estaline, “É uma forma de dizer.” Um camarada mais afoito, um terceiro alguém, com algum peso na célula local devido ao seu estatuto de meio operário da construção civil (classe muito apreciada pelos comunistas por se ter atrevido a cercar a Assembleia da República com os deputados lá dentro) e meio empreiteiro (portanto pequeno empresário, classe que o Partido tinha definido como aliada do proletariado para fazer a revolução democrática e nacional), resolveu dar um ar da sua graça e contra-atacou: “Se Deus não existe, e foi Marx que o disse, ideia aprovada por Lenine e Estaline e também pelo camarada Punhal, porque é que tu, que és um camarada que faz parte de um órgão nacional do Partido, te descais a tagarelar como um qualquer burguês de província? A linguagem, num revolucionário, é essencial. E num revolucionário membro do CC, apesar de suplente, ainda o é mais”.


O camarada Abílio, que tinha a grande qualidade de estar sempre de acordo com todas as opiniões emitidas por todos os camaradas, mesmo sendo elas antagónicas, pôs um dedinho no ar para lembrar os presentes que “o camarada funcionário suplente do CC é suplente sim senhor, mas dos primeiros suplentes, ou seja é quase efectivo, basta morrer um camarada dos mais velhos para ele passar de imediato a membro permanente”.


O camarada trolha/empreiteiro, como se nada tivesse ouvido, pois considerava o camarada Abílio um zero à esquerda (expressão idiomática que a ser tomada à letra podia levar a outra discussão ideológica de contornos indefinidos) perseverou: “Os comunistas só falam a verdade. Essa é a nossa maior arma. A nossa principal virtude. Somos filhos do povo e por isso mesmo não o podemos iludir com falsas promessas. Sendo assim, é forçoso que os camaradas, principalmente os mais responsáveis, tenham tento na língua e meçam as suas palavras. Se Deus não existe não se fala nele e pronto. Nós temos muito a mania, mesmo depois de concordarmos com o que o Partido diz, de continuar a falar com hesitações, como se o que se lê fosse letra morta. Como se o que está escrito no programa e estatutos do Partido seja letra morta. Alguém aqui ouviu dizer ao camarada Punhal que Deus existe? Ou melhor, alguém aqui ouviu o camarada Punhal invocar – ou será avocar? – o nome de Deus? (Invocar o nome de Deus em vão é pecado, rezou a camarada Teresa.) Mas já todos lemos que a religião é o ópio do povo. Marx escreveu-o e…”


Ao canto da mesa, a camarada Teresa pediu para interromper e disse que não é por Marx ter escrito que a religião é o ópio do povo que Deus não existe. Ao que o camarada que estava no uso da palavra contrapôs que dizer que a religião é o ópio do povo é ainda mais categórico que afirmar que Deus não existe. Ou seja, Marx quis dizer que a mentira de Deus é a forma de a burguesia narcotizar o povo, de o subjugar com a punição de um Deus torcionário. O ópio é uma droga e por isso…


A camarada Teresa aproveitou para murmurar que o vinho também é uma droga e muitos camaradas não deixam de o beber, alguns até de o sorverem de forma entusiástica. Nem que ele fosse o sangue de Cristo…


O camarada trolha/empreiteiro levou-se dos diabos (pois todos o sabiam adepto de um só deus, Baco) e perguntou: “Aqui alguém é católico?” Ao que a camarada Teresa respondeu: “Eu sou.”


E estava para se iniciar mais uma das velhas discussões entre comunistas, católicos e amigos da pinga, quando o camarada funcionário suplente do CC se pôs de pé, abriu os braços e sentenciou: “Essa discussão não se encontra na ordem de trabalhos, portanto vamos passar ao ponto seguinte. E, como bons revolucionários e devotos comunistas, deram, nas palavras do camarada dirigente, um passo atrás para dar os dois seguintes em frente, conforme doutrinou o camarada Lenine. Saída que teve a expressa concordância do camarada Abílio e o acordo tácito dos restantes camaradas.

 

 

 

21 – Depois de muita conversa revolucionária, boa para encher chouriços, aqueles doze devotos comunistas nevoenses abordaram finalmente o caso do Martins e o buraco na parede.(...)

 

(continua)

 


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