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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

25
Nov10

O Homem Sem Memória (21) - por João Madureira

 

 

 

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Texto de João Madureira

Blog terçOLHO

Ficção

 

21 – Depois de muita conversa revolucionária, boa para encher chouriços, aqueles doze devotos comunistas nevoenses abordaram finalmente o caso do Martins e o buraco na parede.


“Lindo serviço, o do camarada SUV”, comentou o Dr. Sebastião. Ao que o camarada trolha/empreiteiro respondeu: “Pelo menos tem-nos no sítio.” A camarada Teresa perguntou: “Tem no sítio o quê?”Ao que o camarada Dr. Sebastião aconselhou: “Moderem a linguagem camaradas.” O camarada trolha/empreiteiro respondeu: “Tudo o que é popular não nos deve ser estranho”. Ao que o Dr. Sebastião respondeu: “Pertencermos a um partido do povo não nos autoriza a ser malcriados. A boa educação não é um atributo da burguesia. Os marxistas-leninistas podem, e devem, ser tão bem educados como os outros cidadãos. A boa educação está acima da ideologia. De qualquer ideologia.” Ao que o camarada trolha/empreiteiro contrapôs: “Um caralho é o que está!” Então a camarada Teresa respondeu: “O camarada é um provocador. E malcriado, ainda por cima. Deus não aprova a má educação. E que eu saiba, o camarada Punhal pode não falar em Deus, mas também não profere asneiras nas reuniões do Partido.” Ao que o camarada Abílio retorquiu: “Apoiado, apoiado.” Ao que o camarada trolha/empreiteiro respondeu: “Cala-te Abílio, tu és sempre a voz do dono”. Foi então a vez do camarada funcionário local vir à liça: “Aqui o único autorizado a manda calar alguém sou eu, ou então o camarada suplente do CC. E informo os camaradas que no nosso partido todos temos direito a falar. Todas as opiniões contam. Mais a mais estamos na casa do Dr. Sebastião e os impropérios podem ferir a susceptibilidade da sua esposa, dos filhos e da sua querida mãezinha.”


Fez-se silêncio na sala. E, para serenar a ânimos, o Dr. Sebastião pediu à criada para servir um chá. O camarada trolha/empreiteiro pediu perdão e disse: “Eu essa merda não bebo”. O camarada suplente do CC admoestou-o com a voz da autoridade revolucionária de que estava imbuído após o último congresso: “Ou respeitas os camaradas, ou vou ter de te pôr no olho da rua.” Para conciliar as partes, o Dr. Sebastião sugeriu à criada: “Podes também trazer a garrafa de vinho e servir o camarada.”


Depois do intervalo para o chá, ouviram-se as opiniões dos diversos camaradas dirigentes locais e chegou-se à conclusão que se o tiro na parede tinha sido um acto irreflectido de um militante stressado, devia ser levado em linha de conta o facto de o Martins ser muito dedicado ao Partido, de ter cumprido com as orientações do CC e de, numa terra tão pequena e com uma organização concelhia tão exígua, o Partido não se poder dar ao luxo de expulsar um militante tão carismático como o Martins que impunha muito respeito entre os reaccionários mais reaccionários dos reaccionários. Ou seja, tudo ficou em águas de bacalhau.


Os camaradas homens, menos o Dr. Sebastião, que não alinhava em tainadas, resolveram ir comer um petisco à Choupana. Aí os camaradas funcionários explicaram, antes de alguém ter a ousadia de os admoestar por valerem à burguesia comunista, que é também tarefa revolucionária não hostilizar os burgueses que se dispõem a trabalhar com o Partido. O Dr. Sebastião, mesmo rico e aburguesado, tinha sido um grande antifascista, tendo sofrido muito nos quinze dias que esteve detido nas prisões do regime salazarista durante a grande noite fascista. E confessaram que o Partido, sigilosamente e ao nível superior, apoiava a postura dos camaradas da UEC e do Martins por terem tomates para defenderem o centro de trabalho, que é a casa dos comunistas. “E na nossa casa mandamos nós”, disse o camarada suplente do CC. Ao que o camarada trolha/empreiteiro retorquiu: “Aquela não é a minha casa. Tua pode ser, que aceitaste instalar a sede do Partido numa casa alugada em nome desse comunista de merda que é o Dr. Sebastião. E aqui não me mandas calar, caralho, aqui mando tanto como tu.” O camarada Abílio veio mais uma vez em defesa do camarada funcionário suplente do CC. “O camarada apenas tenta harmonizar as coisas, articular as diferentes posições, dar as orientações correctas…” Mas o camarada trolha/empreiteiro não o deixou acabar a ladainha: “Cala-te Abílio. Tu és o maior lambe botas que conheço. Tens espírito de cão de sacristia.” E o camarada Abílio, como bom camarada que era, calou-se e comeu mais duas ou três costelinhas de vinha d’alhos, sacrificando o poder da argumentação ao poder da concórdia entre camaradas desavindos. E, olhando para o camarada suplente do CC, começou a cantar “Grândola Vila Morena, terra da fraternidade…”, ao que o resto do grupo completou: “o povo é quem mais ordena, dentro de ti ó cidade…” e por aí fora. Mandaram vir mais uma garrafa de vinho para acompanhar três doses de moelas e continuaram a cantar noite dentro. E o entusiasmo posto na confraternização foi tanto que dali a pouco estava o bar todo a cantar a canção do Zeca Afonso; tanto a mesa dos comunistas do Alberto Punhal, como a mesa dos socialistas, que nestas coisas não se importavam de fazer alianças à esquerda, e dos esquerdistas que se intitulavam de comunistas, mas de um comunismo mais puro do que o do partido de Punhal, que era, nas suas palavras radicais, revisionista e lacaio da União Soviética. Apenas no momento de entoarem a Internacional é que o salão se dividiu, deixando os socialistas de fora, ou por vontade própria ou por puro sectarismo. Isso, não fomos capazes de apurar.

 

 

 

22 – A praça encheu-se de gente. O José nem queria acreditar no que os seus olhos enxergavam. Mesmo através da seteira existente no meio da muralha de jornais, o que se via do terreiro dava para pôr um comunista com os pêlos do corpo arrepiados, como quando somos observados por um lobo,(...)

 

(continua)

 


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