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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

29
Dez10

A ultima feijoada de 2010

 

 

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Dia 29 de Dezembro de 2010, dia de S.Tomás Becket e de feijoada em Chaves. Dia da última crónica de feijoadas do ano de 2010. Seria tempo de fazer por aqui a análise do ano que termina e de preparar a entrada para o ano que se aproxima, mas há pouca vontade de fazer análises a um ano que se quer esquecido e distante e muito menos vontade para prever os maus dias que aí vão vir, pois é com todo o pessimismo do mundo que adivinho ou prevejo o ano de 2011…mas, enfim, há sempre um restinho de esperança.

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Cada vez mais estou convencido que a verdadeira escola da nossa aprendizagem é a escola da vida e dos anos de vivência. Fui educado da maneira que os meus pais e os professores sabiam educar. Não foi a educação perfeita, mas mesmo sem o ser, foi uma educação à qual estou grato. Uma educação baseada nos valores, no valor da palavra, da verdade, do respeito, da disciplina. Não foi muita rigorosa em coisa de livros e dos seus conteúdos mas foi em valores e saberes e sabores da terra e da vida,  em que o pão que se comia à mesa tinha o especial sabor de lhe conhecermos o amanho da terra,  a sementeira, de assistirmos ao seu crescimento, de esperar pelo seu amadurecer, do árduo trabalho de colher e escolher as sementes, da sua moagem, da sua mistura e amassar à mão, do aquecer do forno, das rezas e bênçãos, do sabor da bica, do cheiro (aroma) do fumo e cozedura…todo um ritual e trabalho que fazia com que o pão à mesa merecesse a vénia de quem o merecia e saboreava como uma dádiva de Deus… São coisas difíceis de explicar aos putos de hoje ou a quem sofre de amnésia para quem o pão nasce nas padarias tal como a água nasce na torneira lá de casa…

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Pensamentos e valores da vida caídos em desuso, principalmente o do valor da palavra (dita ou dada) e o da verdade, valores que os políticos actuais desconhecem ou que conhecendo, (porque são da mesma geração que a minha) fazem tábua rasa sobre eles e recorrem à mentira para ser eleitos, sendo a mentira um mal necessário que nunca deve ser posta em causa e antes deve ser ignorada e perdoada, que se vitimizam com a verdade e realidade,  orquestrando-lhes engenharias de contra-poder, ingratidão e ignorância onde o justo é pecador, é abusador, é culpado…

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Enfim, se a minha educação o permitisse, mandava à merda toda esta cambada de políticos, mentirosos e crápulas sem valores, mas como fui bem educado e respeito os valores que me incutiram, não os posso mandar à merda, mas também não vou com eles à missa…

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Enfim, não há análise possível a um ano de 2010 que se quer esquecido e muito menos previsões para um ano de 2011 que se quer que passe bem depressa. Mas, tal como disse no início, há sempre um restinho de esperança. Esperança na memória das pessoas de bem, esperança em que as pessoas deixem de vez as palas que os acompanham e deixem de seguir o carreiro dos maus pastores, esperança que a verdade seja valorizada, esperança por um futuro que nem sequer desejo melhor, apenas esperança por um futuro. E que fique aqui registado para memória futura, para os meus netos e outros netos (se é que os meus e nossos filhos vão ter condições de ter filhos) que nem todos ajoelham ao passar da procissão da geração rasca dos actuais políticos e dos seus seguidores que comungam com o punho no peito e dizem ámen! Que fique registado que eu não vou por aí, não quero ir por aí, que prefiro seguir só que mal acompanhado.

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Mesmo assim, um bom ano de 2011 e prometo-vos continuar com as feijoadas das quartas-feiras, mesmo que sem carnes e tripas, mesmo que apenas feita de feijão, prometo guardar os temperos da horta para que nunca lhe faltem.

 

 

 

 

 

29
Dez10

Mudar de Passeio

 

 

 

Mudar de passeio


 

 

O José não gosta nada de mudar de passeio. Diz que tem medo de atravessar a rua. Que lhe desestabiliza o sistema nervoso e lhe mexe com a libido. Ele tem a libido um pouco estragada. Coisas da juventude. O José foi à guerra e quem vai à guerra dá e leva. E ele levou mais do que deu. Por vezes fica com os olhos turvos e começa a chorar. Nesses dias não sai de casa. Nem do quarto. Nem da cama. Desenha fios de metal e aranhas muito coloridas. Pode passar assim dias e dias alimentando-se apenas de iogurtes naturais e fruta cristalizada. Também lê revistas científicas, mas lê os artigos do fim para o princípio. Depois traduz alguns para o árabe e no fim rasga-os. Sabe tocar piano, andar de bicicleta e assobiar com os dedos. Toca piano só a partir das cinco da manhã e apenas até ao amanhecer. Nunca o faz fora deste intervalo de tempo. Tira muitas fotografias às suas mãos e depois amplia-as muitíssimo para observar os poros e os pêlos da epiderme. Nos dias de chuva mia muito. Nos dias de sol muge como os bois do barroso. Na sua quinta da aldeia tem uma zebra manca que comprou a um circo. Escova-a todas as semanas e passeia-a pela aldeia. Também toca muito bem cítara. Mas os amigos não gostam deste tipo de música. Coisa que o irrita muitíssimo e o faz estalar os dedos. Costuma sair nas noites de geada e passear um galo de briga cego que comprou a um mexicano de férias em Espanha. Costuma dar-lhe pipocas picantes e levá-lo ao Miradouro de S. Lourenço para lhe mostrar a cidade de C. Nesses dias o galo canta que se farta e ele acompanha-o à guitarra. O José é muito habilidoso com as mãos.

 

 

 

 

 

Aprendeu a fazer croché e confecciona lindos carapuços para árabes e judeus. Escreve-me cartas enormes com letras desenhadas a rigor e isto vivendo nós apenas a cem metros um do outro. E envia-mas sempre em correio azul. São cartas que falam do seu amor pelos passeios, pelos candeeiros, pelos bancos de granito, pela poesia chinesa antiga, pelas flores da urze e da carqueja, pelo musgo dos muros e pelos reflexos do céu nas águas do T. Ontem compôs uma música muito bonita para o seu galo cego.Hoje tocou-a para mim. Eu até chorei. Depois fomos os dois, sempre pelo mesmo passeio, até ao rio, descalçámo-nos e molhámos os pés nas suas águas tranquilas. Então ele tirou um grilo do bolso e pediu-lhe que cantasse uma ária de Mozart. O grilo não se fez rogado e deslumbrou todos os presentes. O mundo é, por vezes, um lugar estranho, mas encantador.

 

João Madureira

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