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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

30
Dez10

O Homem sem Memória (26) - Por João Madureira

 

 

 

 

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO

 

 

26 – O guarda Ferreira, cheio de fome, ou, melhor dizendo, sedento de um copito de vinho, levantou-se do degrau onde estava sentado, sacou do sabre e pôs-se a escarafunchar a fechadura da porta. Mas ela nada de ceder. Experimentou as janelas, mas também elas se recusavam a abrir. Começou então a suar e a dizer asneiras. Depois pôs-se aos pontapés à porta. E só não a deitou a baixo porque o José lhe lembrou que estava fardado de GNR e um agente da autoridade não arromba portas, principalmente a de sua casa.


Estava ele a tentar enfiar novamente o sabre na frincha da fechadura quando apareceu a Dona Rosa que começou logo ali nas escadas a insultar o marido por causa da violência dos actos que o encontrou a praticar. Os filhos pequenos que a acompanhavam começaram a chorar, menos o João, que era o mais valente, pois mal a viu a tratar mal o pai e o irmão mais velho desatou a arranhá-la como um gato enraivecido. A Dona Rosa tentou defender-se enfiando o seu filho de um ano no colo do pai que, não tendo tempo de guardar a arma branca, a deixou cair ao chão. O José, solícito, apanhou a arma do pai e tentou enfiá-la na bainha. A mãe, não tendo em quem descarregar a fúria, pregou duas chapadas no filho mais velho, avisando-o que não lhe permitia que se aproveitasse da presença do pai para a ameaçar com o sabre, ao que o guarda Ferreira retorquiu dizendo que a intenção do filho tinha sido a de guardar a arma para que não se danificasse ou não ferisse alguém, pois se a arma era sua o culpado por qualquer ferimento por ela provocado era o legítimo proprietário que, no caso, era ele mesmo, quer a utilizasse o próprio ou alguém por ele e que sendo assim o José tinha procedido como o menino avisado que era e que ela é que tinha prevaricado pois não estava em casa a tempo e horas de fazer o almoço para o marido e para os filhos, que era a sua obrigação de dona de casa.


Armou-se logo ali uma discussão nada abonatória para o bom nome de uma família de um GNR, onde até as galinhas que debicavam alguns restos de comida no quintal foram molestadas com os pontapés do José, que se viu privado do almoço, bem assim como o seu pai, que teve de ir para a patrulha da tarde com o estômago vazio.


À falta de melhor, e porque os filhos ainda eram bem pequenos, a Dona Rosa insultou o vizinho Virtudes, o seu escravo adoptivo, e deu porrada no Leão, que gemeu como um ser humano. Por fim, a sensível Dona Rosa pôs-se a chorar, perante a indiferença um pouco fingida do Virtudes, a insensibilidade premonitória dos filhos e a verdadeira aflição do cão, que não deixou de lhe lamber as mãos enquanto a sensível Dona Rosa destilava lágrimas tão sentidas como as que viu chorar a Mariana, a filha do ferreiro que se lançou ao mar abraçada ao cadáver do seu amado Simão que só tinha olhos para a Teresa, no filme Amor de Perdição exibido no Café Terra Fria.

 

27 – Mas se o dia foi patético para a família Ferreira, a noite revestiu-se de dramatismo.


O guarda Ferreira chegou a casa já tarde, cansado, esfomeado e, pior do que isso, sedento de vinho. Toda a tarde a passou a água, ele que era criatura para beber dois litros ou mais de tintol, e apenas fumou dois cigarros, ele que era homem (...)

 

(Continua)

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