Pedra de Toque - O Guarda-Redes
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O Guarda-Redes
Um amigo ofereceu-me um livro titulado “A ANGUSTIA DO GUARDA-REDES ANTES DO PENALTY” de Peter Handke.
Livro pequeno, li-o num ápice no fim-de-semana passado.
O insólito do título, que já conhecia e este velho namoro que mantenho com o futebol, tinham despertado em mim grande interesse na leitura.
Que agora aconteceu porque o Fernando é um tipo fixe.
O livro não é um tratado de bola, mas conta-nos a vida de um antigo guarda-redes, que em situação difícil deambula perante o mundo.
A figura do guarda-redes, de entre os onze que constituem uma equipa de futebol, sempre me mereceu especial simpatia, enorme admiração.
Desde miúdo que assisto a desafios.
A minha retina fixou grandes voos, lanços arrojados de sensacionais “keepers”, como então os chamavam.
Nos jornais, nas páginas desportivas, parei sempre nas fotografias que testemunhavam defesas acrobáticas e espectaculares.
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Carlos
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Conheci-lhes os rostos nos cromos que saíam com os rebuçados, que carinhosamente coleccionávamos.
Era o tempo do peão, do eixo, do pique e do rente, pretextos para apostas e trocas de jogadores, para enchermos a caderneta, sempre sonhando com o número da bola, que nunca saía.
Do peto da memória, retiro colecção preservada com ternura de óptimos guarda-redes de nível nacional e internacional, como Azevedo (o Tigre Voador), Barrigana (o Mãos de Ferro), José Henrique (o Gato), José Pereira (o Pássaro Azul), entre outros.
Mas, na minha cidade, no meu clube de coração, também brilharam atletas defendendo as balizas das nossas cores.
Carlos, Martin, Maia, Fonseca, Rui Correia e, sobretudo, Tero Bandeira.
O Tero foi o meu ídolo futebolístico da meninice e da adolescência.
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Tero Bandeira
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Quando nas jogatinas do Canto do Rio, da Lapa ou do Tabolado, entre duas pedras ou dois montões de pastas, voava ao encontro da bola, era a imagem, o estilo do Bandeira, que me serviam de modelo, que com emoção procurava imitar.
Os anos passaram e posso assegurar-vos que ainda não vi nos estádios um guarda-redes tão completo como o saudoso Tero Bandeira, de quem fui amigo e a quem já dediquei outra crónica.
Certamente o leitor quererá saber porque assim o considerava.
Aqui fica.
Pela elegância que punha nas suas actuações, pela elasticidade, pelos reflexos, pela coragem, pela segurança de mãos.
E também, como me confessou com palavras simples, pela ANGÚSTIA QUE SEMPRE SOFRIA, COMO GUARDA-REDES, ANTES DO PENALTY.
António Roque





