Palavras colhidas do vento... por Mário Esteves
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Onde se fala de uma ousadia do autor na adolescência e do pungente final de um velho olmo ….
Escrevo como se diz a sela passada ou seja o Natal já lá vai e eu regresso ao natalício tempo, porque me lembrei de uma árvore que não sendo propriamente uma árvore de natal, pinheiro, abeto, era um olmo, ulmeiro – há quem lhe chame negrilho –, centenário, de tronco largo e forte, copa alta e ramos bem distribuídos, que arbitrava terrenos da Igreja Matriz e da Igreja da Misericórdia e foi derrubado, para não usar outra expressão de índole penal, numa das últimas obras de remodelação e pavimentação da Praça de Camões e Largo do Pelourinho.
Na verdade, presentemente as árvores de Natal são normalmente de plástico, por força das politicas ambientais – a meu ver e na maior parte, deixam entrar pela janela aquilo que não permitem pela porta – e por comodidade … Bem, chega um assado e deixemos o cozido que não temos barriga para tanto, nem queremos enfastiar quem tiver a paciência e benevolência para ler este arrazoado.
Pois estava o frondoso olmo posto em sossego, quando em pleno dia, com aleivosia e à vista de toda a urbe, vieram os sicários do rei, quer dizer … da Câmara de então e em obediência a controversas razões urbanísticas, sacrificaram o secular e nobre condenado. Conta quem viu e outros que escutaram, que resistiu quanto pode, que foi muito, atendendo à sua envergadura, aumentando-lhe a agonia.
Menino e moço frequentava eu o Liceu Fernão de Magalhães e condoído da cruel sorte do venerável e arbóreo ancião, esta ignomínia – para mim era –, causou-me tamanha ira e repúdio, que iriam converter-me num perigoso rebelde e amotinado, para alguns... Aproveitando o primeiro jornal de parede que os corredores do antigo convento viram e depois único enquanto por lá andei, furtei-me à censura prévia do ilustre corpo docente e pespeguei-lhe um escrito reprobatório, lacrimoso quanto baste, contra a infâmia cometida e cujo epílogo troava com a citação de umas derradeiras palavras de Jesus Cristo no Gólgota:
- “Perdoai-lhes Senhor, que não sabem o que fazem…”.
Na manhã do dia seguinte, embora crente da justeza do meu procedimento, aguardei inquieto os acontecimentos. No entanto, logo no início das aulas, veio a sentença inexorável pela voz de um contínuo de má catadura:
- “ Acompanhe-me à Reitoria.”
Valeu-me ***, a devoção que o Senhor Reitor nutria pelos pastéis de carne e em grande parte a sua bonomia, que considerou o meu caso como uma ingenuidade da adolescência.
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Prosseguindo com a memória e agonia do olmo do Largo de Camões e dos milagres que lhe seguiram, imolado este, matadores e gente que presenciavam o ignóbil acto, emudeceram, e perplexos observaram que das raízes da árvore caída se desprendiam algumas moedas antigas. Decorridos os momentos iniciais de estupefacção, todos se lançaram a recolhê-las, empurrando-se e revolvendo com avidez a terra à volta, onde encontraram mais umas dezenas. A noite aproximava-se e ainda haviam pessoas a vasculhar o solo que parecia eira depois da malhada.
O digno e respeitável olmo, na sua longevidade, cumprira a função que a natureza lhe confiou; à morte foi generoso até com os seus juízes. Se algumas dessas moedas foram parar às mãos de coleccionadores particulares outras repousam no Museu da Região Flaviense.
Mário Esteves




