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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

21
Fev11

Quem conta um ponto...


 

 

 

Sinais inequívocos de desenvolvimento (abaixo a reacção)

 

 

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO

 

 

O dia amanheceu vai para meia hora e já o mundo que eu contemplo da janela do meu escritório se encheu de luz. Primeiro foram os cumes das serras que se iluminaram, a seguir a luz desceu mansa sobre as encostas para vir pousar suavemente sobre o vale. Posteriormente chegou à minha janela e por ela entrou aos borbotões. Pousou delicadamente sobre alguns livros, acariciou parte do tampo da minha secretária e compôs desenhos interessantes nas paredes depois de ser filtrada pela persiana. Finalmente chegou ao pintassilgo e cessou a sua trajectória descendente indo fazer cócegas ao cágado que se espreguiçava no chão encerado.

 

Lá fora reparo, entusiasmado, nos reflexos prateados da geada, nos passarinhos que voam baixo e nos reformados mais novos que logo de manhã fazem as suas caminhadas pela saúde.

 

Enquanto os meus sapatos novos comprados nos saldos da Baviera alargam na forma de madeira, pois o peito do meu pé continua mais alto do que devia, eu rejubilo com o trinado eufórico do pintassilgo que, dentro da gaiola, exprime a sua liberdade. Talvez uma liberdade vigiada, mas mesmo assim liberdade. É melhor estar enfiado numa gaiola, protegido do frio, com acesso automático à água e ao sustento, do que gozar da inglória liberdade de ser acometido pelo frio ameaçador das noites transmontanas. E o que é, afinal, caros leitores, a liberdade? Aliás, a liberdade nem sempre é o melhor sistema de vida. Nem sequer o mais natural. Que o digam os passarinhos que tombam das árvores como folhas mortas.

 

Repleto de esperança, lembro-me, com orgulho, de várias notícias que dão conta do nosso imparável desenvolvimento. Isto apesar das análises inglórias dos velhos do Restelo, das críticas acéfalas dos deputados da oposição e das censuras estapafúrdicas do suposto próximo primeiro-ministro, dos seus putativos ministros e, ainda, para fartar a vilanagem, dos presumíveis secretários e subsecretários de Estado. A todos eles, liberais, neo-liberias e ultra-liberais da treta, lembro as sábias palavras de Churchill: “Um político que não sabe mentir é irresponsável”. Por isso, verdade seja dita, os nossos homens, mulheres, e mesmo os moços e as moças dos partidos, são de uma responsabilidade avassaladora.

 

Se me dão licença, lembro aos estimados leitores que, por favor, percebam os sinais. Nos últimos seis meses foram vendidos em Portugal cerca de três milhões de telemóveis e a taxa de desemprego cada vez está mais próxima da dos países mais desenvolvidos da Comunidade Europeia. E só não enxerga estas evidências quem está de má fé.

 

É claro que nem toda a gente perfilha destas ideias. Especialmente os homens das artes que costumam andar lá por fora a trabalhar (ou a fazer que trabalham, pois nisto das artes é muito difícil distinguir o que é trabalho do que é diversão), e depois se acham no direito de, quando se atrevem a vir cá passar uns dias para matar saudades, se porem logo a dizer mal do seu próprio país.

 

O fotógrafo Paulo Nozolino é disso o exemplo paradigmático. Começou por criticar as cidades para logo chegar às pessoas. “A cidade são as pessoas e a cabeça das pessoas está cada vez pior.” Mas não se ficou por aí, o ingrato, foi ainda mais longe e mais fundo: “O que eu rejeito neste país é a incapacidade de pensar que as pessoas têm. São como carneiros. Como se explica viver num país que aboliu a Filosofia?”

 

Não me quero deitar a adivinhar, mas quase que me atrevo a dizer que as nossas elites têm muito mau perder. Julgam-se melhores do que a terra que os viu nascer, desprezam e criticam, com laivos de malvadez, o seu próprio povo.

 

O poeta Pedro Tamen, por exemplo, disse em entrevista que “os poetas, no seu reduto, não são tipos normais. Vêem um bocadinho mais do que os outros.” Não deixa de ser irónico, mas o poeta mais famoso de Portugal – Camões, O Luís Vaz nado em Vilar de Nantes - era cego de um olho, por isso tinha necessariamente de enxergar pior do que a maioria do seu povo que, ao que sabemos, possuía, e ainda, dizem, possui os dois. Fernando Pessoa era míope até dizer chega; Ruy Belo idem aspas; o mesmo se pode expressar acerca de Alexandre O’Neill. E o próprio autor de tão incongruentes palavras usa uns óculos que evidenciam uma miopia acentuada. Ora quem isto afirma não lobriga muito bem o alcance das suas opiniões. Não se observa ao espelho.

 

Mas o mais forte indício do nosso desenvolvimento tem a ver com a percentagem crescente de suicídios. Os suicídios têm aumentado nos últimos anos, passando já a barreira do milhar, e a maioria dos suicidários são homens. Por incrível que pareça, a taxa de suicídios é um sinal de desenvolvimento, para tanto basta estudar os países do norte da Europa, que aliam os altos níveis de desenvolvimento com os também elevados índices de suicídios. É visível que esta é uma notícia que, apesar da dupla interpretação oficial, por parte do Governo e da Oposição, constitui um sinal que nos enche de orgulho, dissimulado, é certo, mas, mesmo assim, orgulho, apesar de tudo.

 

Quando os vários índices de desenvolvimento são tão desalentadores, é reconfortante inteirarmo-nos, mesmo em acto de contrição e confissão pessoal e intransmissível, de uma informação (a da taxa de suicídios, claro está) que aponta um caminho: o crescimento sustentado da nossa qualidade de vida.

 

 

PS – Reconfortante é também saber, através da opinião avalizada da psicóloga Joana Almeida,

que “a bissexualidade é uma orientação sexual e não uma zona de transição”. Agora sim, ficámos todos mais tranquilos.


Mas, se o amigo leitor estiver de acordo, podemos estender este conforto ainda um pouco mais. Fique a saber que existem ainda os pomossexuais, que são pessoas que evitam rótulos restritos como hetero, homo ou bissexual.

 

 

 

 

 

21
Fev11

Percursos - Por Jorge Medeiros


 

 

 

Aquele Carnaval…


Já perdi a memória, de andar por ali. A última vez que me lembro, era manhã de um dia quase Verão. Tinha feito uma viagem e levei comigo a dimensão dos Deuses.


Recordei-a numa noite de Outono, encostado à porta do velho casino, enquanto caía a primeira chuva, dando ao parque o tom sinistro dos filmes de suspense.


Lá dentro, uma dúzia de atrevidos, fazia rábulas, para uma festa de beneficiência.


Retive na memória, pela música e pela mímica, “Dos humildes será o Reino dos Céus”.


Durante o percurso, houve festas e visitas.


E foi a vez de viver por inteiro, a festa do Carnaval.


Tudo foi um instante, largou meia dúzia de “bujardas”, chamou puta à vadia da cozinheira, pegou no seu melhor amigo e rumou por aí fora, à procura dos disfarces.


Os do Entrudo e os outros.


Começou pelo fim. Agora estava o princípio comprometido.


E valeu a pena.


Do velho casino, à velha avenida, desfilaram amores antigos…recordações antigas.


Meia dúzia de mulheres de idade madura, simbolizavam as solidões que ficaram e partiram da “belle-époque” termal.


Depois o baile.


De máscaras.


E aquele menino grande, que outrora berrava a céu aberto, enquanto cozinhava o arroz que a Mãe lhe ensinara antes de partir para o hospital, estava agora mascarado de palhaço. De palhaço rico. Mais outro de Pinguim. Mais outro de Arlequim, outra de polícia vinda directamente de Paris para a cerimónia. Aquele ali de bobo da corte. Lá mais abaixo, a Deusa de um clube satânico, mascarada de “Chica da Silva”, uma lenda do Carnaval Carioca.


Da confusão da noite rompiam a madrugada e as máscaras. Voltava o desassossego daquela gente, que tem levado a vida à espera que o Verão chegue.


E na avenida, ainda no ar, o tímido aroma das lantejoulas travestidas.


Já eram cinzas...

 

Jorge Medeiros

 

 

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