Palavras colhidas do vento... por Mário Esteves
Um gato lãzudo enroscado, a custo abre os olhos remelosos, passa a pata pelo focinho, observa os passantes e deixa-se estar, indiferente, num dos degraus que dá acesso à torre de menagem. Já viu passar tantos de máquina fotográfica a tiracolo, que não será mais uma leva que lhe vai perturbar o sossego e desfrutar os poucos raios de sol da manhã.
Um grupo de turistas sai ruidoso de um autocarro que acabou de estacionar próximo da Albergaria Jaime e alguns dirigem-se pressurosos à padaria do Joãozinho Padeiro que se encontra fechada. Desagradados fazem sinais dando a entender o encerramento aos outros e a desilusão. Acabam por se reunir junto ao postigo e depois sobem a Rua dos Gatos em direcção à Matriz e à Igreja da Misericórdia, que, também encontrarão fechadas.
O fio da espada do I Duque de Bragança continua desequilibrado em relação à empunhadura - desconheço se é algum presságio ou mensagem subliminar, como ora se diz -, mas tal não é obstáculo para que simples conhecidos, amigos, namorados ou pais e mães babados se fotografem sob a sua protecção, bem como a respectiva prole.
O Museu da Região Flaviense repousa tranquilo, como guardador do passado que é e cioso que olhos forâneos devassem marcos miliários, aras ou sestércios.
De manhã, enquanto fazia horas para o almoço, passei pela Biblioteca, no Largo das Freiras, onde estava alojada uma exposição de pintura de Balbina Mendes sob o tema: “Máscaras rituais do Douro e Trás-os-Montes”. É natural que as bibliotecas encerrem aos fins-de-semana e feriados. No entanto, tendo a Biblioteca de Chaves uma sala de exposições, neste caso com uma mostra de máscaras de Carnaval e do solstício de Inverno, ainda que fosse de pintura, não deixaria de ser razoável que estivesse aberta neste período (Carnaval), mesmo que fosse por um horário reduzido.
Na Rua de Santo António, permanece um dístico pendurado nos dois lados da rua a convidar: -“Vem divertir-te aqui …” E uma seta indica a travessa do Faustino que mantém-se engalanada em todo o seu comprimento por uma linha em ziguezague do qual pendem abundantes tiras de papel esfiapado.
A crer no que se vê por todo o lado, nas imediações, a diversão foi a do costume nos fins-de-semana.
Garrafas partidas, outras deixadas nas soleiras das portas, copos de plástico ainda com Coca-Cola ou Pepsi, vómitos, restos vários, rixas, barulho, destroços de uma noite que cada vez mais se prolonga, apesar das queixas dos moradores.
Uma vizinha varre, outra baldeia a entrada a fim de fazer desaparecer o cheiro a cerveja e a urina. Um vizinho telefona à polícia por causa de terem quebrado o vidro de uma porta de uma casa desabitada. Depois vem à janela e diz, resignado, para a moradora da casa em frente: “Dizem que vão mandar alguém…”
O que me faz lembrar o meu início de estágio de advocacia. Um dia subia as escadas do rés do-chão para o primeiro andar, no Tribunal, quando em sentido inverso, uma pequena multidão, em grande alarido, se confrontava, injuriava e até faziam juras de represálias e revindicta.
É claro que alguns voltaram à sala de audiências por desacato e desrespeito ao tribunal, cabendo-me a mim o papel de defensor oficioso de algum dos réus. Começaram a ser chamadas as testemunhas e em determinado momento é chamado a depor um guarda, que estivera presente. Depois de prestar juramento, o juiz perguntou-lhe:
-“ O Sr. Guarda escutou algumas ameaças de morte trocadas entre as pessoas que aqui estão a ser julgadas?”
Então o guarda, em pose marcial, perfilado perante o juiz, como se na parada tratasse, respondeu:
-“ Saiba, Vossa Excelência, Senhor Doutor Juiz, que, quanto a ameaças de morte correu tudo regularmente.!!!”
Pois, anteontem (de segunda para terça feira) também correu tudo regularmente …
Mário Esteves














