Discursos Sobre a Cidade - Por Tupamaro
“O 2 1”
Anos 60.
Da Estação, de comboio, lá partiu para Tavira mais uma gabela de almas.
Iam cumprir um dos períodos de adaptação para uma viagem ultramarina, com ou sem regresso.
Chaves, Régua. Régua, Porto. Porto, Stª Apolónia. Lá pelo meio da noite, travessia do Tejo em cacilheiro, tempo de apanharem o comboio no Barreiro. Daqui até à estação de Tavira.
Depois, um percurso a «butes» até ao Quartel.
Distribuição de botas, calças de cotim, mais pálido do que cinzento, camisas e cuecas de pano cru, blusão de flanela, capote com mangas assimétricas, capacete de ferro, bivaque, cantil e «Mauser»; Camarata e um colchão sustentado em ferros.
Tempo de encontrar o número da cama calhado, objectos pessoais arrumados no armário metálico, e logo um “Sargento - lateiro” veio à porta avisar para Formatura na Parada.
Feita a Formatura, dadas umas instruções regulamentares, lá vem um punhado de «gaijos» bem fardados, com riscos doirados nos ombros, em conversa sorridente.
Dividem-se, cada um para o seu grupo de Formatura e logo põem «cara de pau».
E assim começou a adaptação a um acordar cedo, fazer corridas desalmadas levando ao ombro uma «Mauser», na cabeça um capacete de ferro, sobrado da II Grande Guerra, e nos pés umas botas pretas e grossas, que pesavam como chumbo.
Enganava-se a fome ao almoço e aldrabava-se ao jantar.
O Gilão, sujo, lodoso, fedorento, fazia sentir saudades daquele pedaço do Tâmega que vai de Vila Verde da Raia até Vidago.
Lá, antes de qualquer preceito cumprido, fazia-se uma formatura.
O comprovativo das presenças era feito por um «Recruta» , indicado por escala.
O fim-de-semana só começava no sábado à hora de almoço. Terminava à meia-noite de domingo.
Mas só se merecia depois de um exame final, em formatura, à barba e ao brilho do couro das botas, ao nó de cordões bem dado e à ausência de uma sombra, sequer, de pó no calcanhar ou na biqueira de uma bota.
No dia 21 de Novembro de um dos anos sessenta calhou ao GONÇALVES estar «de dia» ao seu Pelotão.
Feita a Formatura para o Jantar, o GONÇALVES , antes do «’m frente! Marche!», para o Refeitório, iniciou a chamada:
- número 1! –
-Pronto! – responderam.
-Número dois!
-Presente! – seguiu-se.
-Nº Três! Nº Quatro! Nº Cinco! ………..Número dezanove! - A resposta enérgica do “Pronto!” ou do “Presente” ouviu-a sequentemente o GONÇALVES.
-Número Vinte !
-Pronto! – ouviu-se.
- Número Vinte e UM!
- O silêncio durou uns longos cinco segundos.
-Acrescentando seis decibéis à voz, o GONÇALVES, REPETE:
- Número Vinte e UM!
- O silêncio alongou-se para nove segundos.
O GONÇALVES dá um passo em frente, desencolhe um pouco a barriga, mete um pouco mais de ar no peito, percorre com um olhar mais sério as três fileiras do «seu» Pelotão, e grita:
-VINTE E UM!
- O Pelotão mexeu-se como se lhe tivesse dado uma pequena comichão.
Para esticar o seu metro e sessenta de altura e fazer-se ver e ouvir melhor, o GONÇALVES pôs-se em bico de botas e chamou, com toda força dos seus pulmões e todo o sério que coube na sua cara miúda:
-V I N T E E U…u…uM!
Que estranho silêncio!
Atemorizado, o GONÇALVES, com medo de ser «topado» por alguém dos outros Pelotões ou pelo «Oficial - Dia», dá mais dois passos em frente para ficar mais próximo dos camaradas e diz, em tom apaziguador:
-Eh! Pá! Não me f………as!
Responde lá de uma vez!
A comichão do Pelotão fez cócegas e os Camaradas soltaram à gargalhada.
-Oh! O 21 sou eu, CAR(V)ALHO!...
Tupamaro



