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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

30
Abr11

A Missa do 7º Dia (1) - Por Luís Fernandes

 

 

Tal como anunciamos, começa hoje em forma de episódios o contar de uma estória que nos leva até aos meados século passado na cidade de Chaves. Uma breve e intensa estória de amor perturbada pela missa de 7º dia. A estória é contada em XI episódios que irão estar aqui nos próximos sábados à noite. Estória já publicada em livro, de autoria de Luís Henrique Fernandes, edição de autor, ao qual agradeço a devida autorização para a publicar aqui na integra.

 

A foto da capa do livro/ilustração do cabeçalho é de autoria de Dinis Ponteira. As ilustrações utilizadas ao longo da história são de autoria do blog Chaves, com imagens de arquivo do blog Chaves Antiga de Chaves, imagens, mais ou menos da época em que a acção se passa.

 

Fica hoje o I Capítulo. Espero que gostem.

  

 

 

 

 

 

A Missa do 7º Dia

 

 

(I)


Era no tempo em que o amor era mais proibido que consentido.

 

Ainda havia clãs que concertavam os casamentos dos filhos, ainda estes no berço.

 

Ele era “rapaz da cidade”, estudado na Escola Comercial e Industrial.

 

Ela era rapariga bonita, do Bairro da Madalena, com traços daquela beleza transmontana resultante da mistura de Celtas, Romanos, Visigodos e Mouriscos.

 

Naquele tempo, a cidade era o Largo do Arrabalde e os arrabaldes do Largo. O rio, o Ribelas, as Portas do Anjo e o Monumento eram sinais da diferença entre o urbano e o sub-urbano. Mesmo nos Bairros da cidade usava-se, tal como nas aldeias, o «ir à cidade» - a substituir o «ir à Vila», de antes de 1929.

 

Um morgado, filho do Morgado de uma das Aldeias da Raia, apaixonou-se pela rapariga, logo na primeira vez que a viu, na Pensão da mãe, na Madalena.

 

Porém, do lado de lá do rio, nas redondezas do Largo do Arrabalde, morava o príncipe dos sonhos da moçoila.

 

 

 

 

Ela perdera-se de amores por ele logo na primeira vez que o vira, quando acompanhou a mãe à compras no Mercado Municipal.

 

Para o morgado foi paixão à primeira vista; para a rapariga foi a primeira paixão à vista.

Se a mãe entrasse na Rua das Longras lá a convencia a subir as escadas para virem para a Rua do Olival.

 

Se a mãe descia as escadas do Olival e quisesse atalhar pela Rua das Longras convencia-a que tinha visto, de relance, os padrinhos à porta da Pensão Império, lá na Rua do Olival, e queria passar por ali para lhes pedir a bênção.

 

E os olhares trocados com o seu principezinho, sempre a postos na área do “Mocho”, ateavam as chamas, cada vez mais ardentes, daquele amor fogoso.

 

Chegaram à fala.

 

E comprometeram-se.

 

(II)

 

O morgado tornara-se assíduo na Pensão da Madalena. A «Florette», que sucedera à «Pachancho», encurtava …

 

(continua no próximo sábado)

 

30
Abr11

Pecados e Picardias - Por Isabel Seixas

 

 

 

Faz de conta…

 

Faz de conta que chove… Parece!... Mas não, não chove.

 

O céu verte.

 

Ora pinga amor … ora… Nem sei…Ora insatisfação pessoal contagiosa, ora fartura que nos estraga e embrutece como mimados narcísicos sem sentido de autocrítica, mas também verte opções poéticas de fazer amor às escondidas de sexo puro e duro, nos olhares cálidos e cheios de carícias e afagos eterna e ternamente livres e infantis de saudosismos ingénuos de inoperantes do e se tivesse sido de outra maneira?...

 

Ora pinga oportunidades de mudar…

Cheiinho de buracos, telhas de vidro, rabos de palha, lágrimas de insónia do  o zono e do croco –di-lo…

 

Águas passadas em águas correntes…

 

Lamechices a dissimular a mudança pró mesmo, a gastar o que não se tem como forma de poupança e gestão moralizante… Hey e há igualdade na mania  do finalmente a possibilidade do é a nossa vez…E isso é justo, porque fomenta modelos de alternância em que é pedagógico ser o que se disse não querer ser…

 

 

 

 

E é preciso não alterar muito, pode ser contraproducente, até para uma rotina desmistificar a montagem pode ser perverso, nem dá jeito nenhum, assim essa chuvinha que não molha,   também é boa de inócua…

 

A originalidade peca por excesso e por defeito…

Continuemos a continuar à procura do tesouro nunca achado, mas que nos faz prosseguir, continuemos nos momentos de igualdade  aproveitemos a intensidade…

 

 

_Flavinha minha filha compõe melhor a colcha verde e a vermelha as outras cores já estão bem, quando passar a procissão aproveita Agora os beijinhos e abraços de Todos para Todos é só nestas épocas que nos conhecemos uns aos outros…

 

 

_Atáo  ti Zé a feira

_ Agora é que vai começar a ficar boa, sim senhor, até parece uma romaria vêm até os senhores e as senhoras, até vou trazer sempre a patroa…

_E atão em quem vai votar?...

_Quem eu? Ó home deixe-se disso, como as vacas tenham saúde…Venha mas é daí mais um copo.

 

Isabel Seixas

 

30
Abr11

S.Cornélio, mais algumas imagens.

 

 

 

E enquanto não chega a habitual crónica de hoje de “Pecados e Picardias”, que só acontecerá por volta do meio-dia,  vamos fazer uma passagem por uma das nossas aldeias.

 

Vamos fazer mais uma breve passagem em imagem por S.Cornélio, pelas suas cores e os seus pormenores.

 

 

 

 

Ainda hoje, lá para o fim do dia, inaugura aqui a “Missa do 7º Dia”, uma estória de autoria Luís Henrique Fernandes que vai passar aqui em episódios aos Sábados à noite. Para mais logo ficam alguns pormenores.

 

 

 

 

 

 

A partir de hoje, os Sábados aqui no blog, vão ter três publicações, uma no inicio do dia, outra ao meio dia e outra ao fim do dia.

 

Até logo.

 

 

 

 

29
Abr11

Discursos Sobre a Cidade - Por Isabel Seixas

 

 

Cemitérios Vivos

 

Olá Pai

 

Agora, já sem a obrigação da manhã, a displicência da tarde e as motivações da noite, és só Tu, um sol no luar e um luar num sol sem tempos espartilhados…Sempre alvorada.

 

Estamos à volta numa lareira cálida de ternuras, de gostar de estar juntos, estamos a degustar sarrabulho, feito com a arte da mãe, hum…O sangue cozido, esfarelado em açúcar em ponto, pasta com miolo de amêndoa laminada, paladar a família, rica por amor…

 

A tua residência continua cuidada com flores e o teu pequeno jardim aufere olhares de bem me quer nossos, e outros indecifráveis…

 

A avozinha olha-te na mesma com o seu ar de superioridade de sogra e de quem nasceu primeiro… Não te deixes levar é a forma dela te venerar, acredita…

 

Tens um vizinho de olhar Saturno pereceu na década de 40, e a foto da lápide, hitleriana demoníaca e soberba já não intimida, “a-penas” faz Pena, lembra a pobreza da pobreza de espírito que abandonado do carinho de qualquer complacência erigiu preconceitos raça pura, estanque por ausência do amor da diversidade, da graça ternurenta da diferença, preenchida e atenuada com o deixa pra lá, por uma vizinha de olhar sábio de mãe…Corroborado no sorriso doce e poupo arranjado de cabelo discreto num apanhado genuíno de artesanal, com ganchos daqueles que a avozinha usava…

 

Passei Também pelo Sr. Miranda, sorri-lhe com gratidão por me ensinar a leveza do prazer de brincar, lembras-te quando nas festas Ele metia talheres nos bolsos dos blazers das pessoas mais in de quem fazíamos cerimonia e depois as acusava sem contemplações de quererem roubar o faqueiro aos poucos com a perplexidade delas? Obviamente que desvendávamos fair plays os que não achavam piada eram no mínimo… quer dizer não eram sportinguistas convenhamos…

 

Fui ao André e aos meus amuletos que já sabes… estão cuidados e destilam como Tu os nutrientes de amor que trago no dia a dia, em expressões marinadas de sorriso calmo e ténue e nas certezas dos déjá vu é a vida e é bom mesmo com sabor a saudade…

 

Já sabes que te adoro, até e principalmente nas tuas dimensões neura…Deitadas por terra em gargalhadas espontâneas e primárias com as simples e assertivas veleidades das irreverências de filhas e netos…

Tua filha Zabel

 

Isabel Seixas

 

 

 

29
Abr11

Concurso de Fotografia Digital - 175º Aniversário do Concelho de Boticas

                                 

 

 

No âmbito das comemorações dos 175 anos do Concelho de Boticas, o Município de Boticas e a LUMBUDUS – Associação de Fotografia e Gravura vão promover durante os meses de Maio e Junho um concurso de fotografia subordinado ao tema “Boticas – Vila e Aldeias” tendo como principal objectivo promover a fotografia na divulgação do património cultural, histórico, paisagístico, natural e arquitectónico do concelho de Boticas.


Fica a dica para o pessoal amante de fotografia. Para informações e consulta do regulamento, passe pelo blog dos Lumbudus em http://lumbudus.blogs.sapo.pt

 

28
Abr11

O Homem sem Memória (46) - Por João Madureira

 

 

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO

Ficção

 

46 – Ninguém queria acreditar, mas o guarda-fiscal Martins jazia morto e arrefecia no carreiro que ligava Vilar de Perdizes à fronteira. Ali estava ele a fitar o céu com os seus olhos agora cegos e com o pénis ensanguentado, e definitivamente morto, criteriosamente enfiado na boca.

 

O Martins era um homem severo, rancoroso e interesseiro. Aos olhos dos pobres era visto como um verdadeiro filho-da-puta, aos olhos dos abastados era encarado como homem cumpridor, bom pai de família, prestimoso e temente a Deus. Era um vigarista, mais candongueiro que guarda, apreciador de amantes e de putas, marido infiel e tirano, mas celibatário no casamento, pedófilo prudente, pai lobo, filho ingrato, amigo desleal, tocador de concertina e gaita-de-beiços e, ainda por cima, fogueteiro. Ou melhor, era sócio misterioso numa empresa pirotécnica da zona. Era ainda feio como um sarronco. Batia nos filhos, maltratava os animais, espancava os contrabandistas e violava, quando podia, meninas muito jovens, sobretudo crianças. Sentia-se bem com o mal dos outros e apreciava ver sofrer. Mas era um guarda-fiscal competente, pois conhecia todas as redes de contrabando, os trilhos utilizados pelos contrabandistas e as suas artimanhas. A raia seca era toda sua. Ganhava a meias com o contrabando por si autorizado. E também a meias ganhava com o outro. Se apanhava algum contrabandista carregado de café, azeite, bacalhau, polvo, chocolates, tabaco, perfumes ou bananas, dispunha os bens capturados da seguinte maneira: metade para si e a outra metade dividida em partes incertas pelo Estado e pelo colega de patrulha. Era pegar ou largar. No fim das partilhas, nunca se esquecia de cobrar a taxa destinada ao sargento do posto, trinta por cento do serviço. Não fumava, não bebia vinho ou cerveja e gostava de passear montado no seu alazão, adornado de pistola e pinguelim. Cantava muito bem o fado, talento muito apreciado pelas forças vivas da Vila e pelas senhoras mal consorciadas. Era ainda caçador afamado.

 

O Martins gostava de acossar as mulheres dos contrabandistas e as suas filhas mais novas. Fazia-o com alguma discrição, mas não era homem para dissimular muito. Os homens do contrabando conheciam-lhe o feitio, por isso faziam-se desentendidos. Era o contrabando ou a honra. Mas a honra, nos lugarejos da fronteira, não dava de comer a ninguém. Ou quase. No entanto, diga-se em abono da verdade, não era as mulheres maduras o que mais apreciava. Cobiçava, principalmente, as fêmeas mais novas. Meninas púberes, ou crianças mesmo.

 

Os pedófilos mais frequentes são quase sempre gente da família mais chegada, quando não os próprios progenitores. Por isso o guarda Martins, pressentindo na família alguma atitude mais temerária por parte dos pais, ou manos, ou tios, começava a patrulhar a casa com o seu instinto de predador sexual e quase sempre alcançava os seus desígnios. Com a mãe amantizada, com o pai contrabandista, os irmãos oficiando o mesmo e os tios foçando em idêntico mester, a criança não tinha escapatória possível. Passava a ser o arranjo de todos. Mas também era sabido que o Martins enquanto andasse a cear a pardalita não autorizava que mais ninguém lá metesse o dente. E fazia-se respeitar. Era pegar ou largar. O Martins não era besta que se perdesse de amores por ninguém. Detestava o uso. E não era animal de tradições.

 

Podia ser amante da mãe, copular a filha mais velha e estuprar a menina mais nova da família, nada disso lhe tirava o sossego. Era um homem que pensava que o prejuízo próprio não durava. Quem se acostuma a subjugar destrói a grandeza moral da vida. E o gozo é um vórtice escravizador.

 

Mas nem as certezas são imutáveis, nem os prepotentes estão isentos do livre arbítrio. Pode-se comprar a honra de um homem, de dez, de cem, mas não se pode conseguir a honra de todos ao mesmo tempo. Além disso, o ser humano é imprevisível. Não os filhos-da-puta, já que esses estão amaldiçoados à desventura do insofrimento.

 

A princípio, o guarda Martins distinguia-se por ser um predador cauteloso, um raposo finório. Patrulhava o galinheiro com todos os sinais exteriores da estima, do trabalho e do seu enaltecido profissionalismo. Primeiro prendia o pai, de seguida comedia-se em ficar com a carga. Numa terceira fase aliciava o contrabandista para fazer parte da sua rede. A conquista da mulher era o passo subsequente, pois sabia que para chegar ao objecto predilecto tinha de passar pelas fêmeas mais velhas. Logo que elas ficavam amansadas, lançava-se na submissão das pardalitas.

 

Por vezes isso acontecia numa mesma aldeia entre famílias rivais. Os homens a tudo se acomodam. Mas a inveja é sempre maior que a própria condição humana. E dessa vez o contrabandista abandonado encheu-se de fundamentos e prometeu vingar-se em reunião familiar, pois podia ser corno, a sua mulher e as suas filhas mais novas umas putas do caralho, os seu filhos uns cobardolas, e a sua Rosita uma menina desgraçada para a existência logo desde criança, mas a honra é um pacto triste. Que Deus o amnistiasse, mas ser trocado pela família do Pereira, que sempre foram uns borra-botas, isso não podia aceitar. Vá-se a honra mas fique a tradição. E a sua família sempre foi mais importante do que a dele. Os Pereiras sempre foram cabaneiros, uns infelizes que nunca tiveram onde cair mortos.

 

47 - Bem avisou o agente da autoridade: “Ó senhor Martins, não me faça uma desfeita dessas. Os Pereiras foram sempre uns ranhosos. Uns ...

 

(continua)

 

 

 

27
Abr11

Palavras colhidas do vento... por Mário Esteves

 

 

 

No mesmo dia do passado feriado do 25 de Abril escutei de uma pessoa que não superaria os vinte e três anos, esta pérola: “ Não sei o que o 25 de Abril significa para estes lados. Aqui não havia repressão …”


De imediato, seguiram-se outras que poderiam formar um colar. Na tentativa de o rebater, ouvi daqueles que o acompanhavam, as coisas mais estapafúrdias como “ … não se podia (er) andar à noite …”.


Enquanto isso a televisão passava os excertos “mais significativos” dos discursos de alguns dos Presidentes da República, eleitos depois do 25 de Abril, perante a indiferença e às vezes o desdém dos presentes.


Concluí a licenciatura já no longínquo ano de 1977 e logo que regressei a Chaves, pouco tempo depois era convidado na qualidade de independente a fazer parte da lista do PS, candidata à Assembleia Municipal.


Eleito num pequeno grupo minoritário e numa das sessões que antecedia o 25 de Abril, daquele ano, um deputado do então CDS usou da palavra e atacou com virulência o 25 de Abril, assacando-lhe todos “os males da pátria”, e propondo que o 25 de Abril não fosse comemorado, perante a oposição e a incredulidade do grupo a que eu pertencia e do deputado do PC.


A proposta foi votada e aprovada por larga maioria à excepção da facção que referi e antes se opusera.

 

 

Creio que alguém foi chamar à pressa o Presidente da Câmara de então, que até àquele momento estivera ausente da sessão, e que, seguidamente, usou da palavra; repreendeu severamente o seu grupo, que participara na aprovação da proposta, e apresentou uma nova que alterava substancialmente a que fora anteriormente aprovada, repondo a “normalidade democrática”, embora de forma pouco ou nada regulamentar.


E foi com a maior coerência que alguns deputados, a maioria, em escassos minutos passaram de críticos ferozes do 25 de Abril para ardentes e estrénuos defensores.


E também foi com naturalidade que decorridas poucas mais sessões abandonei a Assembleia…


Vendo bem, não sei se ficar mais surpreendido com o ontem se com o hoje

 

Mário Esteves

 

 

26
Abr11

Zerbadas em Chaves

Zerbadas em Chaves

 

Em Abril águas mil e às vezes chega até nós em forma de zerbadas. Hoje também temos por cá as zerbadas de Chaves, mas estas, são em forma de livro, por um contador de estórias já nosso conhecido e que este blog tem a honra de ter entre os seus colaboradores – Gil Santos.


Depois de Ecos do Planalto – estórias e De Chaves a Copenhaga – a saga de um combatente, Gil Santos apresenta-nos e presenteia-nos com um novo livro, acabadinho de publicar pela editora Contrafolha: Zerbadas em Chaves – estórias, já à venda numa FNAC perto de si e, brevemente, lançado na nossa cidade.

 

 

 

Zerbadas em Chaves – estórias é patrocinado pela Câmara Municipal de Chaves, conta com a prestimosa colaboração do prestigiado autor barrosão Bento da Cruz que aceitou apadrinhá-la, escrevendo um curioso prefácio. Bento da Cruz é autor de diversas obras, quase sempre esgotadas, como O Retábulo das Virgens Loucas; Lobo Guerrilheiro; O Planalto de Gostofrio; A Fárria; histórias da Vermelhinha; Prolegómenos; Hemoptise; Histórias de Lana Caprina; A Loba; Guerrilheiros Antifranquistas em Trás-os Montes , entre outras.

Zerbadas, no dizer de Bento da Cruz, oferece-nos histórias contadas numa linguagem coloquial, expedita, agradável ao ouvido e de muito proveito para o espírito. Diz-nos ainda que já conhecia razoavelmente o hábito externo da cidade de Chaves. O rio, as pontes, as caldas, o castelo, as igrejas, os jardins, os fortes, as ruas antigas. Faltava-me este livro para lhe ficar a conhecer o hábito interno. A boémia, a gíria, as figuras típicas, as anedotas, o ambiente de rua, de quartel e de sacristia, as más-línguas, as alcunhas, a ralé de uns, a bacoquice de outros, o ridículo de todos. Um livro interessante. E porque o é, aceitei apadrinhá-lo.


Das notas de abertura:


Pela encosta do Brunheiro às noitinhas de Inverno, precipita-se o zimbro como um rebo tresloucado. Ímpio, escarrapacha-se em silêncio, cindindo-se em mil cibos que transem a veiga num abraço de bincelho. A alma granítica dos da ribeira, é curtida por esta espécie de castigo que os céus arrimam. De cacaranhassob as choinas do tição carpem-se, como desde o princípio do mundo, as mágoas da solidão e do carambelo.

 

A vida folgada continua aputada por aí. Emprenhando as amantes, despreza a fêmea, ávida, que tem em casa!

 

Atrás dos torgos bem se esconjura a dor para que não remoa. Bem se defumam os cantos para que Lúcifer não atazane. Bem se emborca ao borralho o tinto morno da pichorra de Nantes, mas não há meio!.

.

Assobalham-nos a esperança como a ferrã em campo verde.

 

Um viver penoso que nem a ilusão da modernidade amacia.

 

Carai, que vida do catano!..

 

A esperança na electricidade, no telemóvel, no computador e na internet, no ipod, no satélite, no gps e na televisão 3g, na auto-estrada, nas promessas dos políticos, no fim do isolamento milenar e na igualdade de oportunidades, parece mirrar como a bosta no merouço!

 

Estou tentado a crer que continua quase tudo na mesma:

 

- a chiba, a roer rebentos de silva brava nos arrabaldes da cidade como há séculos;

- a fêmea do bicho homem a parir, ontem no cortelho, hoje na A24 a caminho de Vila Real;

- o filho do remediado a estudar na Universidade de Curral de Cabras e o do pobre, condenado ao eterno fado do desgraçadinho!

 

Quem se vá, prove o gosto da brisa marinha e oiça o canto inebriante da sereia, dificilmente torna de vez.

 

Quando o faz é de passagem, à procura de afogar a nostalgia nos trinos do rouxinol, na limpidez dos ares e nos espaços infinitos. Enfim, um lavar de alma que o buliço urbano reclama!

 

Os do litoral vestem-se de damasco, os da serra remedeiem-se de surrobeco!..

 

Maldita sorte, rais te fonha!

 

Bem sei que os seis meses do Inverno continuam largos e castigadores. Mas haja esperança porque provavelmente já o foram mais. O tal meio ano de Inverno e outro tanto de inferno, há-de mudar, a um ritmo lento, quase imperceptível, bem no sei, mas mudará! Até se diz que já não há Invernos como antigamente, em que os nevões davam pelos peitos!..

 

Não sou, nunca fui biqueiro, mas custa-me a deglutir tanta discriminação! A ter de a esgramar, hei-de esgomitá-la em trejeitos de revolta para que não me esfoure.

 

Escarabulharei aqui as palavras como quem descasca baiges tchixarras.

 

Quero cantar a veiga à sua altura, assim me ilumine Santa Maria Maior.

 

Sejam os dezeres que este escrito põe ao léu zerbadas de água fresca e bem caída. Pingas genuínas e revitalizantes que aproveitem ao renovo. Sonho-as prenhes da idiossincrasia de que o leitor carece para sonhar!..
 

 

 

Da sinopse:

 

Passado o Inverno, zerbadas de Maio precipitam-se esparsas sobre o pó fino das memórias.


Levantam um olor antigo a terra molhada, nostálgico, transporta-nos a um mundo outro.


A um tempo em que as coisas simples ainda tinham nome e a couve penca sabia a terra e a geada.

 

Água que amamenta o devir.

 

Sejam os dezeres que este escrito põe ao léu as tais zerbadas de água viva, bem caída. Pingas genuínas e revitalizantes que aproveitem ao renovo.

 

É à Trás-os-Montes que faço questão que estas estórias falem!

 

25
Abr11

Pedra de Toque - 25 de Abril Sempre

 

 

 

25 DE ABRIL SEMPRE

 

 

 

Podia ter acontecido no rigor do Inverno.

 

Podia ter surgido no cair do Outono.

 

Podia ter alvorado no calor sufocante do Verão.

 

 

Foi contudo em Abril.

Na Primavera.

Em tempo de cravos que murcharam balas nos canos das armas.

À garganta subiu um nó de comoção, retido há muito no centro do corpo.

A voz gritou limpa, seca das lágrimas do filho, irmão e esposo, nunca mais herói na guerra.

A memória dos que nunca vergaram, caindo de pé como as árvores, moeu de saudade e respeito, quantos respiraram bem fundo a Primavera do dia.

 

 

 

 

 

Foi história para ensinar a vindouros.

Para recordar aos que a esquecem.

 

Foram também os erros, tantas vezes inevitáveis.

 

Mas sobretudo o caminho para um PAÍS NOVO, livre.

 

Sem delação, sem grades no pensamento, sem lenços no cais acenando a dor, sem profissionais da denúncia.

 

País aberto, país dialogante, país sem orgulho na solidão.

 

 

Quanto mais não fosse – e foi por tanto -,


 

Pela Liberdade, 25 DE ABRIL SEMPRE!

 

 

António Roque

 

 

 

 

 

25
Abr11

25 de Abril - Sempre

 

 

 

Sempre que chego a esta data recordo as palavras do nosso grande poeta Fernando Pessoa, precisamente o primeiro e último verso das três quadras de “O Infante” – Deus quer, o homem sonha, a obra nasce/(…)/Senhor, falta cumprir-se Portugal! – E se durante muitos anos por força das circunstâncias foi impossível cumprir Portugal, com o 25 de Abril de 1974, Portugal passou a ter as condições necessárias para que se pudesse cumprir – a democracia e a liberdade. Pois!, mas senhor, passados 37 anos continua a faltar cumprir-se Portugal.

 

 


 

Penso que todos sabemos que a democracia e a liberdade são necessárias para que se cumpra Portugal, mas tal como nas matemáticas as condições necessárias não são suficientes e as variáveis e incógnitas vão assumindo o seu valor até resolver os problemas para chegar às soluções, ao invés de Portugal, onde as variáveis apenas servem para complicar ainda mais o problema, e temos pena.

 

Resta-nos acreditar, ter esperança, talvez com menos sonho e muita mais responsabilidade, de todos, dos que elegem e não elegem, e sobretudo, dos que são eleitos. Exija-se deles a verdade e honestidade, a democracia, a liberdade, a responsabilidade.

 

Cumpra-se Abril para cumprir Portugal.

 

 

 

 

 

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