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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

01
Abr11

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos


 

 

MENINA MULHER

 

Pelo-me por uma sestinha! — confessava o padre Pôncio de Outeiro Seco à sua irmã Radigunda, enquanto um vento suão, prenúncio de trovoada, redemoinhava o cisco da eira.


À vista do primeiro alustre, a mana do abade, em jeitos de vai de retro Satanás, encomendava-se à padroeira das traboadas, Santa Bárbara bendita.

 

Filha de Dióscoro, Bárbara terá nascido na Nicomédia. Seu pai fechou-a numa torre para evitar que se convertesse ao cristianismo. Constrangida a abjurar a sua fé, foi forçada a desposar um pagão. Recusando, foi sujeita a terríveis suplícios. O progenitor tê-la-á mandado decapitar. O castigo foi imediato e cruel. Seu pai foi fulminado por um raio e ela coroada santinha.

 

Magnífica, a minha alma resplandece ao Senhor.

Meu espírito se alegra em Deus meu salvador.

Santa Bárbara bendita, que no céu está escrita,

com um raminho na mão para parar este trovão!


Um Pai Nosso e uma Avé-Maria! — rezava a mana de Pôncio.

 

A trovoada, esconjurada pelas peças de artilharia do responso, foi ribombar para os altos do S. Caetano. O abade, refastelar-se no escano da cozinha, fabricando o quilo da feijoada emborcada ao almoço.


E mereceu-a!


A manhã foi severa. Funeral de gente rica, na igreja da Senhora da Azinheira[i]com ofício cantado e missa de corpo presente, auxiliado nas exéquias pelo homólogo de Vila Verde.

 

O prior, entregue à freguesia de Outeiro Seco há muitos anos, era patusco, bonacheirão e benfazejo. Na festa da padroeira, pelos oito de Setembro, arrumava, quase sempre, festa rija. Sermão, encomendado ao pregador Salgado (um duro da palavra de Deus, sempre a puxar à lágrima da beata) e missa cantada por mais de vinte sacerdotes. Comida à fartazana! No final da cerimónia religiosa, Pôncio tinha o hábito de mandar o sacristão Lázaro para a porta dos fundos oferecer um vintém a cada crente. Dizia ele que era um presente pela adoração à santinha. Ora, a rapaziada engaleava-se pelo pilim. Não era nada, não era nada, mas à época dava para dois maços de três vintes e ainda sobrava para um pirolito!

 

Radigunda era casada. Mãe de seis filhos pequenos, cabiam debaixo de um cesto vindimo! Morava no Bairro do Papiro com Fridundino seu marido. Juntaram trapinhos ia para dez anos. Radigunda, ao mesmo tempo da lida de sua casa, tratava das fraldas do irmão abade, no lugar de Penas Más.


Um fatídico dia, mais valia que o sol nunca tivesse nascido, Fridundino adoeceu gravemente e finou-se estrezicado. Única fonte de rendimento, deixou-a na penúria, com seis filhos no regaço. Não sei se por mor do desgosto se por obra do demo, antes de meio ano passado, a terra reclamou-a também. Encontrou-se com Fridundino no purgatório. Juntos encomendaram a prole ao irmão abade.

 

A filha mais velha, Zelinda, mal podendo ainda com as socas, assumiu a responsabilidade de ficar a ser a mãe de seus irmãos. Em casa do tio passou a governanta com pouco mais de dez aninhos. Mulher, ainda menina, ajudou os manos a crescer escorreitinhos. Aos quinze anos aparentava já trinta e aos dezoito quarenta! Lavava no rio às cinco da manhã para que ninguém a visse. Remendava. Tricotava carpins[ii] e mantões[iii] para os trazer quentes. Muito prendada, era uma verdadeira fada do lar.

 

 

 

 

 

Pela casa do padre Pôncio arrouçavam-se as beatas, não só à cata de indulgências mas também de sobras. A Tia Marquinhas Zidéria era uma delas. Cirandava, permanentemente, dando água sem caneco[iv] pela aldeia, mas quando lhe cheirasse que Zelinda andava ao redor dos potes, prantava-se na cozinha para o que desse e viesse. Muitas vezes era convidada pelo senhor prior para o repasto. Outras, ia ficando e fazia-se de convidada.


A ceia, no tempo do bilhó,[v] o mais das vezes, não passava de um caldo verde, sem tora, e uma caqueirada de castanhas do souto da Bilharda. Os frutos do ouriço eram cozidos com casaco e camisa, numa pota de barro de Nantes. Escoados no lançador, deixavam-se a dessorar sobre o braseiro, enquanto se comia o caldo.


Há tempos que a menina governanta andava desconfiada dos movimentos suspeitos da beata Zidéria. Quando a pota estava escoada e aguardava sobre as brasas que as castanhas ficassem enxutas, ela alapava-se na pedra da lareira, de pernas cruzadas, cobertas pela roda da saia de burel e do avental de chita. Mal visse a maré favorável e a cozinheira distraída, ia-se à pota e virava-a para a abada. Alvezes chegava a deixá-la meada. Bem entendido que depois as castanhas não chegavam para todos! Zelinda pôs-se de atalaia.


Não demorou que desse pela ratada. Queixou-se ao tio abade. A acusa, não buliu com a bonomia do padre Pôncio e a coisa ia-se repetindo sem vergonha.


Não suportando mais o abuso tinha que resolver o problema.


Zidéria não havia de perder pela demora!

 

Um fim de tarde, pelos Santos, regressava Zelinda do linhar das Padanas com um braçado de nabos. Cruzou-se com a Marquinhas nas alminhas e trocaram palavras de ocasião:


— Bote-me a sua bênção Ti Zidéria!

— Que Deus te abençoe minha filha! Antão lebas nabos pr’ó caldinho?

— Pois tem de ser e ainda vou quartilhar um alguidar de castanhas para cozer. Uns bilhós, uma talhada de carne gorda e um caldinho de nabo, hão-de bondar para encher a barriga aos catraios.

— Vai lá minha filha, Nossa Senhora da Azinheira te ajude pelo bem que fazes. Até loguinho.

 

Ainda as castanhas não ferviam e já a Zidéria entrava na cozinha com falsas novidades.


— Já bistes Zelindinha a minha desgracia, a pita pedrês anda-me a pôr fora!

— Pois é Ti Marquinhas, veja lá! Tem de a olhar pela manhã e prendê-la no poleiro.

— Assim farei. Queres que te bairra a cozinha, minha filha?

— Varra, varra, Ti Marquinhas, as galinhas sujam tudo.


Continuou na lida.


As castanhas foram escoadas. Desta vez para uma alguidar onde o padre Pôncio mergulharia os pés para curar as frieiras. Porém, não sei se por descuido se por artes do diabo, foi deixado um quarto de água no fundo do caçoulo. Fervia em cachoeira. Zidéria, mal viu a sua boa, escarrapachou-se na laje, cruzou as pernas, fez abada e cá vai disto: virou o pote escontra a barriga!


Meu amigo… se quisessem vê-la desaustinada a gritar escaleira abaixo, parecia ter diabo! A água, pelou-a dos joelhos ao imbigo, passando pelo verde gaio. Acho mesmo que lhe estonou toda a penugem!..


Doravante, não só deixou de se alapar naquela lareira, como ainda de colocar lírios na jarra do Santíssimo, na igreja românica da Senhora da Azinheira!

 

A uma moçoila, tão azadinha, não faltavam pretendentes. Desde os mais abonados aos mais pindéricos, todos lhe faziam a corte na missa domingueira, onde ela se apresentava, pelos dezoito, como uma verdadeira rainha. Então, nos dias da festa da padroeira era vê-los, babadinhos à roda das suas rendas! Vinham de longe: à cata do vintém, ouvir a música das filarmónicas, mas sobretudo fazer olhinhos à Zelinda.


Que nada, a trigueirinha não lhes dava troco!

 

Num qualquer Setembro, o programa da festa de Outeiro Seco prometia. Só charangas eram duas a tocar ao despique, a de Parafita e a de Rebordondo, para além de sermão, missa cantada, procissão e foguetório.


Próximo de S. Cibrão, do alcandorado Planalto do Brunheiro, desceu ao vale, qual lobo esfomeado em tempo de nevão, Lindorfo Magro, um príncipe. Aproveitava para ver a festa, gastar o vintém da missa em tabaco e catrapiscar a sobrinha do abade.


No adro da matriz cruzaram-se de olhares e ficaram ambos feridos de morte pela seta de Cupido. Desde aquela ocasião o sentimento medrava à rédea solta. Coisa séria!


Quem não apreciava este enlace era a pileca do Lindorfo que todos os domingos suava as estopinhas do Brunheiro à veiga e da veiga ao Brunheiro.


Juntou fazenda com a bênção de Deus e a anuência do prior e foi viver a saga do matrimónio para os arredores de S. Cibrão.


Construiu família numerosa, vivendo como sempre vivera: fiel aos seus princípios e pugnando para que nada faltasse à prole.


Os últimos rebentos ainda se fizeram gente, à força da água do poço de seu tio-avô de Outeiro Seco!

 

Viúva, quiseram os filhos prendar os derradeiros dias com a paz e o sossego que nunca tivera.


Finou-se recompensada!

 

Abençoada seja a Senhora da Azinheira mailos vinténs gastos em seu louvor!

 



[i] Imóvel de interesse público desde 1938 e ex libris da terra.

[ii] Meias de lã de ovelha

[iii] Camisolas grossas

[iv] Andar sem fazer nada

[v] Castanha

 

 

 

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