Quem conta um ponto... Panegírico incongruente
Panegírico incongruente
Estávamos nós a observar os movimentos de um cão, mais a sua dona, com a nítida intenção de evacuar nas ervas do jardim, quando o G. se saiu com esta: “O Ca…Ca… Ca… va… va… co, nes… nes… nes… ta crise po… po… po… lí… lí… ti… ti… ca es… es… es… tá a comportar-se co… co… mo os meus tes… tes… tes… tí… tí… cu… cu… (risos) los, colabora mas não entra.” Todos nos rimos a bom rir, para espanto do poodle e da sua querida dona.
O J., olhando de lado para o G., disse pesaroso: “A história tende a repetir-se. Na primeira vez como comédia e na segunda como tragédia.” E para ali ficamos calados observando como depois de o cão colocar o seu cocó na zona pública, se foi dali com uma calma e uma elegância quase a raiar o obsceno. O mesmo se pode dizer da sua dona.
O meu amigo G. é gago, no entanto possui uma inteligência muito viva. Tem um rosto rechonchudo, mas expressivo, característica que o torna muito parecido com o presidente da Assembleia da República, Jaime Gama. É frágil. E por causa da sua insuficiência, costuma defender-se com os vários exemplos da história dos deficientes: a imbecilidade dos espartanos; o facto de Demétrio, o feiticeiro bíblico, possuir um braço enfezado; de Moisés ser gago como ele; de César e Maomé sofrerem de epilepsia; de Camões ser cego de um olho.
O G., quando tinha doze anos, era já um grande jogador de hóquei em patins. Podia perfeitamente ter sido um campeão no F. C. Porto. Mas perdeu o interesse. Depois tornou-se, com a ajuda do pai, que também era gago, um especialista em selos. Mas também perdeu o interesse pelo coleccionismo. A seguir foi comunista, mas isso também não durou. Daí passou a estudar fagote, prática que abandonou ainda a meio. Podemos dizer que teve diversos interesses, mas nenhum o satisfez. Quando foi para a universidade confessou-me que o seu sonho era poder ser um cardeal renascentista. Ele sabia que as obras de arte não são eternas. Que a beleza é perecível. Que o tédio nasce do esforço inútil.
Ele não gosta do Cavaco por causa da sua personalidade monótona. Mas diz-se adepto de Sócrates. Considera-o um verdadeiro líder. Pois quanto mais forte é uma sociedade, mais ela exige que nós nos mantenhamos preparados para cumprir as nossas obrigações sociais. E quanto maior for a nossa disponibilidade, menor será a nossa importância. Diz que é isso o que não perdoam ao primeiro-ministro demissionário: a sua disponibilidade, o seu sentido de missão. Afirma, quase sem gaguejar, que vai ficar na história como o melhor primeiro-ministro pós 25 de Abril. O que nos pôs a todos a chorar… de riso. “Fo… fo… fo… dei… dei… vos”, esclareceu.
“Não estou a dizer-vos que a… a… meis o… o… homem. Apenas que lhe res… res… res… pei… pei… teis a obra. Eu sei que quan… quan… quan… to mais amarmos uma pe…. pe…. sso… sso… a mais ela é capaz de nos en… en… ganar. As crianças a… a… mam, as pessoas res… res… peitam. O respeito é melhor do que o a… a… mor”, disse o G. a gaguejar nas entrelinhas. Nós tornamos a chorar de riso. “Fo… fo… fo… dei… dei… vos”, concluiu.
Depois de uma breve pausa voltou à carga: “É meu dever de a… a… a… migo abrir-vos os o… o… o… lhos. Neste mundo em que os cré… cré… cré… du… du… los, amorosos e sim… sim… ples vivem cercados pe… pe… los astuciosos e du… du… ros de co… co… ração, um homem bom ten… ten… de a ser perseguido e vi… vi… li… li… pendia… a… do. É a… a… a… vida. O homem fo… fo… (da-se) fo… fo… i seduzido pelos vo… vo… tos de confian… an… ça.”
Mas foi com o final da sua intervenção que nos pôs a pensar. Se não acreditam, leiam e depois conversamos. “A de… de… mo… mo… cra… cra… cia não é um fim. É, antes, um pro… pro… cesso dinâmico que exige a… a… profunda… da… mento e constante aperfei… fei… çoamen… men… to. Em democracia, os po… po… po…. po… (po… po… rra) po… po… líticos e os go… go… go… ver… ver… nantes não podem esperar vi… vi… tórias retumbantes e muito me… me… nos a… a… ceitar derro… rro… tas to… to… tais. Haverá sempre vi… vi… tórias e de… de… rrotas, pe… pe… quenas ou gran… gran… des, pouco im… im… im… porta. A arte da po… po… lítica democrática está no pro… pro… ce… ce… sso interminável que é pô-la em prá… prá… tica, através de um pro… pro… pró… ce… ce… sso que exige or… or… ganiza… za… ção, renova… va… ção, inova… va… va…. ção e adaptabi… bi… lida… da… de, procurando, sobretu… tu… do, melhorar a go… go… verna… na… ção. A nós cabe-nos pro… pro… teger e pro… pro… mover a democra… cra… cia. Ficai sabendo que os pro… pro… cessos democrá… crá… crá… ticos não são estradas de sentido ú… ú… ú… nico. Tanto a… a… vançam como re… re… cuam. Sócrates é, neste mo… mo…. mento, um ho… ho… mem sentado. E um homem sentado, como diz o pro… pro… pro… vérbio, já não pode cair, só es… es… pera levan… van… tar-se. A Cavaco, a Pa… pa… ssos Coelho e a Paulo Por… por… tas resta-lhes o ca… ca… minho de tentar pa… pa… rar o ven… ven… to com as mãos. Pois quem se… se… meia ventos co… co… lhe, com toda a cer… cer… teza, tempesta… ta… des.”



