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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

31
Mai11

Pedra de Toque - Noites de Verão

 

 

Noites de Verão

 

 

As noites tardam no fim destes dias quentes.

        

E quando descem com a brisa doce que quási não bole com as folhas verdes das árvores, convidam-nos ao festim do passeio tranquilo, à tertúlia sadia na mesa da esplanada, à bebida reconfortante que mata a sede que o calor do dia espalhou pelo corpo todo.

 

As paredes das casas respiram e refrescam por janelas e sacadas abertas de par em par.

 

Sobre quintais carentes cai a pressão do jacto de água que consola.

 

Mas o gozo do passeio é ritual que as ruas e vielas da nossa cidade merecem.

        

Ao compasso das pernas é bom sarandar os sonhos pelas pedras gastas das calçadas antigas onde se escondem as sombras dos heróis, reflectidas na altaneira Torre que perscruta do alto a grandeza das muralhas.

        

E porque não colher a frescura, poisando os olhos na verde-verdura-fresca dos jardins da cidade?


        

Como são também belas algumas casas senhoriais disseminadas pela zona histórica que a retina só vai memorizando quando nos dispomos ao prazer da vista…


Nas Caldas e pelo asfalto que a elas conduz, vale sempre a pena o passeio que poderá ser retemperado com os golinhos mágicos das milagrosas águas, brinde divino (?) da Natureza.

 

Depois há a cidade nova que já se estende pelos quatro pontos cardeais, que urge conhecer, calcorrear.

 

E se no Jardim Publico, no Tabolado ou nas Freiras, ouvir a melodia de uma banda de música – velha emoção antiga – escute esse som mágico, porque o stress e a angústia serão menores no bulício de amanhã.

 

As noites cálidas do Verão Flaviense são um irrecusável convite para melhor conhecermos e degustarmos esta cidade que é nossa.

 

E para que se engrandeça e progrida temos que amá-la.

 

Mas, como escreve Ribeiro de Carvalho, não se pode bem amar, aquilo que só, muito mal se conhece.

 

António Roque

 

 

31
Mai11

Olhares atentos sobre a cidade

 

Fotografia de Paulo Ferreira

 

Já uma vez o disse por aqui que muitas vezes passeamos na nossa cidade, passamos pelos mesmos sítios todos os dias e não nos damos conta dos pormenores, que à vista de todos, a cidade nos esconde. O ser flaviense também é feito pela descoberta dos nossos pormenores e, a grande maioria desses pormenores merecem bem serem descobertos. É o caso dos anjos da Igreja da Madalena (Igreja de S.João de Deus) que por estarem lá tão altos, raramente nos damos ao trabalho de apreciar a sua beleza.

 

Mas há quem repare, quem os fotografe e até se dê conta de outros pormenores que não são visíveis ao olhar comum, como foi o caso do Paulo Ferreira que nos enviou esta lindíssima foto de um olhar não acessível a todos, onde a acompanhar a foto, vinha o seguinte texto:

 

Ao anjo, à nossa esquerda, o braço esquerdo está seguro por arames, faltando-lhe na mão os dedos todos. Ao anjo da esquerda falta-lhe a mão esquerda e quatro dedos na mão direita. A foto foi captada do largo, trás do café S. Roque.”

 

Obrigado Paulo pela foto e pelo olhar atento.

 

Ainda hoje, vamos ter por aqui a habitual crónica das terças-feiras – “Pedra de Toque” – de António Roque.

 

 

30
Mai11

Quem conta um ponto... O verdadeiro culpado

 

O verdadeiro culpado

 

Estava eu em frente da montra da sapataria Patela a transformar o preço de uns sapatos em quilos de arroz, massa, batatas, frango, febras de porco, latas de sardinha, atum, garrafas de azeite, dúzias de ovos, embalagens de leite, pão e vinho, quando o H., olhando para o meu ar de espanto, disparou à queima-roupa as seguintes palavras que ele atribuiu a Fukuyama, o profeta do fim da História: “As ideologias vergaram-se ao apelo de líderes carismáticos. É a rivalidade pessoal entre políticos que move os líderes carismáticos. É a rivalidade pessoal entre políticos que move o mundo e não as suas diferentes ideias. O meio utilizado tornou-se o fim. O poder deslocou-se do Parlamento para a televisão. A imagem é mais determinante do que a substância. E o Estado, ainda hoje um enorme centro de poder, perdeu o seu lugar determinante com as sucessivas crises e a globalização”.

 

O R., depois de atravessar a rua na passadeira para experimentar os reflexos de um condutor mais acelerado, disse a rir, como é seu costume e feitio: “Foi o rancor a Sócrates o que levou Pedro Passos Coelho a desencadear a actual crise política. Pensou que bastava provocar novas eleições para despachar o Sócrates para a reforma. Mas parece que a porca lhe vai sair mal capada. Em vez de se preocupar essencialmente com a situação do país, optou por apostar na sua carreira política. Confundiu os seus desejos com a realidade e isso pode vir a ser-lhe fatal. Além disso, o povo português não é apologista de vindictas, insultos e desqualificações. Já acusaram o homem de tudo, mas ninguém conseguiu provar nada. E Pedro Passos Coelho, em vez de apontar ideias e soluções para o país, fala mal de Sócrates e do Estado. Em vez de apresentar projectos, diz mal de Sócrates e do Estado. Quando alguém o questiona sobre um futuro governo de coligação, Pedro Passos Coelho diz que ou ele ou Sócrates, os dois nunca, como se o dirigente do PS tivesse lepra; quando lhe falam dos problemas da educação ele responde que a solução é afastar Sócrates para acabar com a escola pública e assim emagrecer o Estado; quando lhe falam de economia e finanças responde que com Sócrates não faz governo; quando lhe falam de agricultura, explica que o engenheiro Sócrates é o principal responsável pela crise do arroz, pelo tamanho do tomate, pela falta de cor das cerejas ou dos morangos, pela subida do preço dos cereais no mercado internacional; quando lhe falam de cultura diz que o engenheiro Sócrates é o principal culpado por em média um português ler menos do que um livro por ano; quando o questionam sobre o desporto refere que o engenheiro Sócrates é o primeiro responsável pelo facto de o Benfica ter perdido o campeonato nacional e pelo facto de alguns atletas de alta competição terem falhado provas internacionais devido a lesões, pois com um governo por si chefiado acabam as lesões, a estações do ano voltam ao normal, o míldio deixa de atacar as vinhas, o Benfica volta a ser campeão e os sacanas dos transmontanos, esses calaceiros, vão ter de passar a pagar portagens. Quando o questionam sobre o Serviço Nacional de Saúde refere que os privados podem fazer melhor e que a culpa da falta de aspirinas e pensos em alguns hospitais, ou Centros de Saúde, é culpa do José Sócrates. Além disso, o engenheiro Sócrates é culpado…”,

 

“Podes calar-te um momento e deixar falar o F.”, propôs o J. Mas o F. informou que não lhe apetecia falar pois as sondagens agora resolveram ir contra a realidade. E ele recusa-se a admitir que, depois de tudo, o povo português se volte a enganar dando a vitória ao PS do engenheiro Sócrates. “A ser assim, não é o povo que tem de mudar de governo, mas sim o PSD que tem de mudar de povo”, atirou-lhe o R. com malícia. Ele nem chus nem bus.

 

O H. voltou a Fukuyama: “Os países não são pobres por falta de recursos, mas porque lhes faltam instituições políticas efectivas”.

 

“Olha, é como o parlamento, a cada eleição que passa vai perdendo qualidade. Cada vez mais se parece com as assembleias municipais onde pouco se aprende e nada se resolve”, insistiu o R.

 

 “Cuidadinho com a língua, que eu sou deputado municipal e não te admito que fales nesse tom jocoso”, advertiu-o o A. “Bem, então condescendo, o parlamento parece uma assembleia de gaiatos aos berros onde ganha a discussão aquele que falar mais alto e disser pior do engenheiro Sócrates”, disse o R.

 

Depois de um silêncio embaraçoso, o R. voltou à carga: “Penso que o Pedro Passos Coelho já está arrependido.” “Arrependido?”, berramos todos juntos. “Sim, arrependido. Quando lhe entregaram a chave da sede nacional ficou como um miúdo a quem ofereceram um brinquedo novo. Então sentou-se à secretária e pensou que para chegar ao governo bastava apelar aos rapazes perdidos do Peter Pan e falar mal do Sócrates. Resolveu montar uma tragédia. Ele era o bom e o Sócrates o vilão.  Esqueceu-se dos princípios básicos em democracia: a educação, a tolerância e a paciência. As grandes palavras inequívocas devem ser reservadas para as grandes ocasiões inequívocas. E a paciência é a mãe de todas as virtudes. No PSD já todos pensam no senhor que se segue.”

 

Então aproveitei para desatar a conversa e cada um ir à sua vida: “Nem tudo o que parece é. E a vida não é uma estrada direita. Nem sempre a verdade triunfa.” E dali nos fomos todos com o coração um pouco mais apertado. A democracia tem destes defeitos. Triunfa aquele que recebe mais votos, independentemente da razão, da coerência, ou da qualidade dos seus projectos. E projectos, tal como os chapéus, há muitos e para todos os gostos e feitios.  

 

João Madureira

29
Mai11

Raid Fotográfico "Sentir Vidago"

 

A Casa de Cultura de Vidago e o Blog Meu Vidago, estão a organizar o 1º Raid Fotográfico “Sentir Vidago” que irá decorrer no próximo Sábado, dia 4 de Junho, em Vidago.

 

O Regulamento e ficha de inscrição (com inscrição online) estão disponíveis no site da Casa de Cultura de Vidago neste endereço: http://www.ccvidago.net/index.php

 

Embora no regulamento o prazo de inscrição termine dia 27 de Maio, o mesmo foi alargado até à próxima Terça-Feira, dia 31 de Maio.

 

Os prémios deste raid são os seguintes:


1º Prémio – 1 fim-de-semana (2 pessoas) em regime APA no Hotel Vidago Palace

2º Prémio – 1 GREENFEE (Campo de Golfe) do Hotel Vidago Palace

3º Prémio – 1 tratamento no SPA Termal do Hotel Vidago Palace

 

 O custo da inscrição é de 10€ e inclui um lanche convívio no final do Raid.

 

Se é amante de fotografia, pelo convívio e pela fotografia, não deixe de participar, motivos em Vidago não faltam, o problema, vai ser mesmo seleccioná-los.

29
Mai11

Cartas Transversais

 

Caro amigo,

 

Li e reli todas as cartas que te enviei nestes últimos quatro meses e após refletir um pouco, cheguei á conclusão que vou parar de te escrever por uns tempos.

 

Primeiro, porque preciso de afinar pontaria dos meus escritos e deixar de falar tanto em mim, no que fiz, faço ou deixo de fazer. Já tenho malta a dizer no gozo, que vivo “de amor e uma cabana”. Pois. O amor vai e vem, vai e vem, vai e vem. A cabana só é boa quando não chove e precisa de telhado novo. Perguntem á minha irmã.

 

A minha abstinência da escrita vai depender muito dos leitores das minhas cartas. Bem sei que o pessoal lê, diz que gosta e está solidário, mas agradeço mais á Seixas e ao Silva que souberam corrigir e criticar. Preciso muito deles. Preciso agora é de saber dos que não gostam.

 

Vão ser eles os responsáveis pelos 30km de estrada que tenho de percorrer todas as semanas para enviar estas cartas transversais. A minha cabana não tem internet.

 

Claro que ficaria feliz se recebesse um ofício do município flaviense a informar do encerramento definitivo da porta de lata da muralha das Portas do Anjo, da barrela dada na Rua Verde, ou da doação do quadro original de Nadir Afonso á Escola Profissional de Chaves.

 

Enfim, preciso que me “passem a mão no pêlo”. Preciso das vossas cartas.

 

A proximidade do período eleitoral é também um bom motivo para suspender a escrita. Como não estarei aí para votar em branco, vou deixar umas quantas cartas semanais em branco como sinal de protesto.

 

Incito a que os flavienses  e portugueses em geral votem em branco. Abster-se de votar é um disparate, mas votar em branco... Imaginem uma grande votação em branco e o seu significado para os políticos eleitos.

 

Quer dizer que os gajos não valem nem a tinta necessária para fazer a cruz no boletim de voto. Quer dizer que o eleitor não se esqueceu da despromoção do Hospital de Chaves, nem do fantasma das portagens que paira nas auto-estradas transmontanas.

 

Significa ainda, que os eleitores deixaram de acreditar em cabeleiras capazes de cuidar da vereação municipal e da assembléia nacional ao mesmo tempo.

 

Mostra que os eleitores sabem da utilidade das abelhas para fazer mel e que a cera fabricada até agora nunca deveria ter saído das salas do tribunal.

 

O voto em branco indica que só Deus é misericordioso. Os homens são fracos e sujeitos a muitas tentações e que a misericórdia deveria ser ou divina, ou mais democrática...

 

O voto em branco aponta ao orgulho perdido de um povo que mendiga empréstimos á CEE com as fotos do Mourinho e os feitos remotos das descobertas...

 

Votar sem cruz é mandar á merda ingenheiros ganzados e incompetentes, funcionários partidários de segunda escolha e ex-jornalistas que sonham com o poder.

 

Nunca pensei em escrever isto, mas a verdade é que sinto a falta dos velhos lideres. Do seu carisma. Da sua capacidade de nos fazer acreditar na possibilidade de cada um dos dez milhões de lusos pagar 400 euros de dívida e ficar com coragem de bater palmas e gritar palavras de apoio.

 

Que S. Bom Senso me perdoe, mas tenho saudades do Sá Carneiro, Soares, Cunhal e Freitas e das suas guerras pelo poder a qualquer preço. Elas mostravam raça, vontade indómita, querer desesperado que nos embalava e seduzia.

 

Sei que há por aí políticos com estas características. Como seres inteligentes não se querem misturar com a ralé que nos comanda. Perde Portugal, perde Chaves.

 

Tu, meu bom amigo, não percas este abraço do tamanho do oceano do amigo que te estima

 

Zé Moreira

 

29
Mai11

Freguesia de Valdanta - Chaves - Portugal

 

E enquanto não cai mais uma carta do Zé na caixa do correio, o que está previsto acontecer ao meio-dia em ponto, vamos até aqui ao lado, a uma freguesia rural ainda, mas que já entra pela cidade adentro.

 

 

Freguesia de Valdanta, com uma passagem pelo Cando, pela Arte Sacra do Românica da Granjinha e por Valdanta.

 

 

Valdanta recolhida dos olhares desprevenidos de quem apenas passa na estrada. Centro Histórico de Valdanta, sim, porque as aldeias também têm o seu centro histórico. Ainda ontem estivemos num, hoje é o de Valdanta, onde se adivinha, que antigamente este largo era o seu coração.

 

28
Mai11

A Missa do 7º Dia (5) - Por Luís Fernandes

 

 

V

 

Na 5ª fª seguinte, à madrugadora hora do costume, a esquina do Rito estava ocupada pelos visitantes do costume.

 

O Demar e a Aninhas juraram, como em todos os encontros, amor eterno; trocaram beijinhos e afagos; prometeram o céu um ao outro, e assustaram-se quando voltaram a referir assiduidade do Morgado e os «bitaites» da mãe.

 

- Resolvido – disse ele. Vamos fugir!


E explicou à «sua Madalena» o vitorioso e venturoso plano.

 

Um beijinho mais que derretido e escondido por um xi-coração apertadinho selou o combinado.

 

Duas – ou três?! – terças-feira mais tarde, na esquina da Canelha, ainda mal o sol espreitava pelas ameias do Castelo de Rio Livre, com o Demar a querer matar saudades, a Aninhas morria por lhe dar a novidade.

 

- E das boas! – dizia-lhe, a rir, consoladinha por o ver assim tão maluquinho por ela.

 

O tempo fugia. O Demar parou a tartaruguenta corrida das suas mãos e a catadupa dos beijos.

 

Poien”! Que grande pancada.!

 

- Quinta-feira, os meus pais vão a Montalegre. Eu fico a tomar conta da casa – soletrou a Aninhas.

 

- ‘Stá feito! – pensou o Demar.

 

E combinaram o final do desassossego.

 

VI

Depois de confirmadas todas as instruções e recomendações, os arrumos no sítio, os pais d’Aninhas lá foram…

 

(continua no próximo sábado)

28
Mai11

Pecados e Picardias - Por Isabel Seixas

 

 

Do egocentrismo do tem que ser… Por enquanto

 

Até porque só fazemos parte se fizermos a parte.


As politicas  incluem e excluem, como se o voto determinasse a verdade da responsabilidade do cumprimento da palavra dada.


A história conta-nos que há dois tipos de saber envolvidos, o do discurso que remete desde logo a culpa para o outro… Cuja alternativa à ação é sempre  a única possível, além de que é a melhor, ou seja a de quem profere o referido … O tal do discurso que divide os nossos e os outros,  os que estão a favor e os outros que estão contra ou nem por isso, algumas vezes já estão cansados ou esclarecidos, ou…


O outro saber o que as práticas nos mostram, hum…?...!...


Que tal olhem para o que eu faço… É um bom indicador de congruência e coerência do discurso…


O discurso é recreativo, já a prática é a realidade pura e dura possível no contexto com os mirones da contenção a exercer a censura, entre a  ilusão da alternativa possível  e a aplicabilidade da prática exequível com a celeridade dos troços esburacados do caminho.


Mas tem que ser , acreditemos na proximidade dos dois…, Por enquanto limitemos os dissensos , por nós, pelos nossos Filhos …


Se o mais fácil é virar as costas daremos a cara...


Tem que ser…Mesmo sem esperar dividendos.

 

Isabel Seixas

 

28
Mai11

Orjais, uma aldeia escondida

 

Já uma vez o disse aqui no devido post dedicado a Orjais, e nunca é demais repeti-lo,  que a primeira vez que fui a esta aldeia parecia-me estar a entrar numa qualquer aldeia alentejana. O azul intenso do céu, a estrada estreita, as searas a ladear a estrada e ao fundo, duas ou três casas brancas. Mas era tudo puro engano e esta paisagem de entrada, esconde um mar de montanhas e uma das poucas aldeias de xisto que temos no concelho, mas, esta descoberta também não foi à primeira, ou segunda ou terceira vez que por lá fui. Aliás, tirando o encanto deslocado da entrada da aldeia, confesso que dessas primeiras vezes saía da aldeia desiludido, apenas com algumas fotos da entrada alentejana.


 

Mas isso foi antes de descobrir o tal mar de montanhas e a aldeia de xisto, pois a aldeia de entrada (excepção para a tal paisagem alentejana), confesso também, que não é lá muito do meu agrado, não vou muito com as modernidades das novas construções, embora nesta aldeia até seja de louvar que as novas construções não incomodam muito a velha aldeia, pois respeitaram o seu espaço e puseram-se à parte, num pequeno novo bairro – pena, ser de entrada.

 

 

O mais curioso é que descobri a velha aldeia de xisto em minha casa, a uns bons quilómetros de distância, pois inconformado com o que via quando lá ia, um dia cheguei a casa, agarrei num monte de velhas cartas militares e disse – tem que existir por ali alguma coisa, nem que sejam vestígios – e realmente existia. Escondida no recolhimento da encosta da montanha, bem virada ao sol nascente, lá estava ela – Orjais – depois de um caminho enganador, que parte das casas novas e que do seu início, parece apenas levar-nos pelo mar de montanhas adentro. Desde aí, percorro todos os caminhos, e já tive agradáveis surpresas.

 

 

27
Mai11

Discursos Sobre a Cidade - Por Tupamaro

 

 

 

“Nhôra”

 

 

Nas carteiras lá do fundo, a Professora notou um certo reboliço cochicheiro.


Do Quadro, onde escrevia palavras para a lição, voltou-se com aquele seu habitual vagar a traduzir bondade, mudou o giz para a mão da vara e a vara para a mão do giz, olhou lá para o fundo e perguntou:


- Meninos, o que é que se passa?


Todos fizeram há-de conta que não era para eles tal pergunta, e até se mostraram interessados nos livros e cadernos que traziam na “saca”.


-Francisco, que é que aconteceu?


- Não foi nada, «Nhôra».


- João, diz tu. Que estavas a dizer, Augusto?


As carteiras eram de madeira «mociça». A tampa, em plano inclinado, era porta para uma caixa. No topo, em lados opostos, para cada um dos dois alunos que a ocupavam, duas ranhuras, para lápis e caneta, e um buraco para o branco tinteiro de cerâmica.


E a comichão que, lá no fundo da sala, atacou os rapazes deu propósito à Professora para lhes perguntar:


- Há por aí muitos bichos – carpinteiros?!


O «Gusto» era um mariola crescido, já repetente na «terceira”. E na «quarta» nem chegou a ir a exame.


O «Tero» era o mais novo da classe. Nesse dia chegara à Escola revoltado com o Gusto.


No dia anterior foi para casa muito intrigado.


Tinha vontade de conversar com a mãe ou falar com o pai. Mas o assunto assustava-o.


O Gusto tinha-lhe segredado que já namorava e que a Proβessora precisava dum “home” com quem dormir.


Ele, Tero, é que mal dormiu naquela noite.


Não parava de pensar nas tretas do Gusto, nem no entusiasmo que sentia sempre que olhava para a Virinha da Ti’Aurora.


Na Catequese repetiam-lhe para fugir dos «maus pensamentos, actos e omissões» , que era para ele não «ir direitinho par o inferno».

Mas no inferno sentia-se já o Terinho!


A Virinha parecia-lhe uma borboleta a esvoaçar por dentro da sua cabeça, e a acender com fósforos milhentas lamparinas, que até lhe faziam arder o coração.


Mas fora o Gusto que, com as suas tretas, o deixara em tal sobressalto.


Madrugou, com a consciência pesada e com a angústia da dúvida se teria cometido um pecado mortal.


Então, chegado à Escola, lá no fundo da sala, mal o Gusto se sentou no banco  ao lado, na outra carteira, que com a sua fazia o corredor, esticou a perna direita e pisou o pé esquerdo do Gusto. Este respondeu com um «fonha-se» e um pequeno punhaço no braço do Tero.


- És burro ou fazes-te?! – resmungou o matulão.


- Tu é que és um valente aldrabão e trampolineiro! -  soprou entre dentes o Terinho.


-Ai sou?! Ora diz lá porquê! – desafia o mariola. Não sei que bicho te mordeu!


E foi nestes entretantos que a Professora captou o burburinho lá no fundo da sala.


Manda a verdade REVELADA, aprendida na Catequese, que os meninos e meninas devem falar sempre a verdade. Se não, vão direitinhos para o inferno.


O Terinho andava assustado da vida. Com tanta lição de Catequese, tinha a impressão de que a vida ou «era assim» ou «era assado».

“Assado”?!


Lá lhe vinha aquela medonha imagem das almas a arderem e a penarem nas profundas do inferno.


Quando ia buscar água à fonte, com aquela cantarinha de alumínio, de duas canadas e meia, que a mãe encomendara ao Severo latoeiro, das Casas-dos Montes, com oficina no Largo do Anjo, de propósito só para ele, e passava em frente daquele nicho onde se via as almas a penar entre labaredas, arrepiava-se todo e jurava nunca ir cometer pecados   -   por pensamentos, actos e omissões.


Também não entendia porque estando as almas a penar entre as labaredas do inferno ainda lhes punham velas e mais velas ali, a arder, a fazer tanto calor e a salpicar as almas, em figura de gente, com pingos de cera ardente.


E, agora, lá estava a Professora a pôr à prova as suas juras.


Os pensamentos que toda a noite lhe tiraram o sono não queria revelá-los.


Praticar o acto de mentir?


Via-se já a ir direitinho, direitinho, para o inferno!


Calar-se, ficar mudo, era uma “omissão”, como lhe ensinaram na Catequese.


E se até do Purgatório tinha medo!....


A Professora, com um ar menos bondoso e uma voz menos afável, falou:


- Então, meninos, não querem dizer o que se está a passar?


Com olhar lacrimoso e a palidez piedosa de quem pede e espera uma bênção, o Terinho murmurou:


- “Nhôra”, o Gusto, ontem, disse que a “Nhôra” andava a precisar «d’home» para dormir.


Credo, cruzes, canhoto!!!


A Professora lá se refez, num repente, da pancada que o sussurro do Tero lhe acertou nos tímpanos, nas meninges e no coração.


-Meninos! – exclamou num tom de voz mais forte. (Esta Professora nunca berrava!). Vamos acabar com essas maldades.


Com Deus me deito, com Deus me levanto.

O meu marido é Nosso Senhor!

 

 

Tupamaro

 

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