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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

03
Mai11

Pedra de Toque


 

 

O Espectáculo da Vida

 

Ainda Reminiscências do Teatro em Chaves


 

A arqueologia é uma ciência fundamental para entender o passado, para edificar o presente e melhor alicerçar o futuro.

 

Todos os estudos que têm sido feitos nessa matéria, por flavienses ilustres, merecem-me todo o interesse e o máximo respeito.

 

Mas a história é também o modus vivendi das gentes de todos os estratos e classes sociais que se organizam em sociedades.

 

Nesta paixão militante pela cidade, para além da monumentalidade das pedras, tantas vezes reflectida em belas igrejas, em bonitas capelas, em edifícios de aliciante estética, que regalam os olhos, inclino-me sobretudo para as vivências, os costumes, as grandes manifestações de repulsa ou de júbilo, sempre protagonizados pelos homens e mulheres que por aqui nasceram, que por cá viveram no século que acaba de nos deixar.

 

E nada melhor que o teatro, para espelhar as alegrias, as angústias, o quotidiano de um povo, como referiu o dramaturgo e poeta andaluz, desaparecido tragicamente, Frederico Garcia Lorca.

 

Aliás, nada melhor também, que os inúmeros autos do Mestre Gil, para muitos o fundador do teatro nacional, para conhecermos o Portugal Medieval.

 

Que retrato mais nítido da Inglaterra dos séculos XVI e XVII, do que aquele que transparece das imortais tragédias e comédias do genial Shakespeare.

 

O teatro no nosso país, na primeira metade do século XX atingiu períodos de grande esplendor, de grande adesão popular.

 

Estávamos longe da pacífica invasão das caixinhas da TV.

 

O cinema arrancava mudo e apareceu nos ecrãs da província, já os anos 30 decorriam.

 

Chaves, viveu a paixão do teatro.

 

Aqui se realizaram grandes espectáculos.

 

Aqui se aplaudiram óptimas peças e afamados artistas.

 

Foi palco, de memoráveis sucessos, o Teatro de Chaves, na Rua Major Sousa Machado, mais conhecida por Rua do Correio Velho, posteriormente a sede da Banda 12 de Setembro, "Os Canários” de saudosa memória.

 

Também o salão Maria, onde presentemente se localiza a Exportadora, o Teatro António Granjo, depois o 5 Chaves, hoje mais um estabelecimento chineses.


Ainda o Cine-Parque (das bolinhas), na Rua de Stº António, no caroço

da cidade, tristemente encerrado, já lá vão tantos anos.

 

Vedetas de então - anos 2O e 3O -,  como Carlos de OIiveira, Chaby Pinheiro, Emilia de Oliveira, Eva Stachino e Alves da Cunha, actuaram com aplaudido êxito, para as nossas plateias.

 

As companhias, quase sempre oriundas da capital, permaneciam emChaves alguns dias e até semanas.

 

O teatro musicado, a revista à portuguesa, também debandava até às nossas paragens, provocando nas enchentes a gargalhada proibida, o trautear da modinha que a rádio já difundia.

 

Nos. nossos palcos igualmente actuou na década de 20, uma companhia

de Zarzuela da vizinha Espanha, com todo o fascínio da música, com o luxo faustoso do guarda-roupa e dos cenários.

 

Óperas também se exibiram nos nossos teatros.

 

Penso que este género sublime, voltou a ser ouvido em Chaves, ainda que em fragmento, em 1992, na Praça de Camões, quando cantores líricos, nos ofereceram áreas do "Barbeiro de Sevilha", acompanhados com brilho pela Orquestra do Norte, superiormente dirigida pelo nosso conterrâneo Maestro José Lobo.

 

Mas não só os profissionais nos deliciavam com a sua arte.

 

O teatro amador era fecundo na cidade.

 

Foram vários os grupos que se dedicaram com entusiasmo, apaixonadamente mesmo, à arte de Talma.

 

E cada função dos Bombeiros, dos Caixeiros, dos Sindicatos Operários, entre outros, era garantia segura de lotação esgotada.

 

Contam-me que António de Castro Lopo, Adelino Batista e muitos mais, foram actores consagrados pelo público flaviense.

 

O teatro revisteiro, o teatro brejeiro, sempre com a critica social de permeio, recheado de música melodiosa, onde nos versos das cantigas se brincava com figuras conhecidas e típicas do burgo, merecia a preferência dos muitos apreciadores.

 

Na memória ficaram-me algumas estrofes, que aprendi dos mais velhos, cantaroladas numa récita representada por amadores em 192.., que fizeram furor na época.

 

Aqui ficam as que a lembrança reteve:

 

O nosso amigo Geraldes

Que nesta terra faz tudo

Anda a fazer em segredo

Um São Gregório Taludo.

 

Ai, ai, ai,

Faz Santos e faz pincéis,

Ai, ai, ai,

Vende café e pastéis.

Ai, ai, ai,

Asa galinhas e galos

Ai, ai, ai,

E carrega bem nos calos.

 

No terreiro de cavalaria

Num certo caramanchão

Um bando de melindrosas

Estão sempre em exposição.

 

Ai, ai, ai,

Ninguém pode lá passar,

Ai, ai, ai

Logo ficam a cortar.

 

O Adriano Batista

O Manco da Madalena

Engendrou um remédio

Para endireitar a perna

 

Ai ai ai

As mancos da comissão

Ai , ai, ai,

Vão-lhe imitar a invenção

Ai , ai , ai ,

O seu colega Sarmento

Ar , ai, ai ,

Vai-lhe erigir um monumento.

 

Anda p’ra aí um menino

Atiradinho das canelas

Tem raiva às costureiras

Mas não gosta pouco delas.

 

Ai , ai ,ai

Veste com garbo e distinção

Ai ; ai , ai ,

'ji-'~

Cavalo branco de Napoleão

Ai , ai , ai ,

Às vezes nas brincadeiras

Ai , ai , ai,

Deita-se à luz das Candeias.

 

O Alves da fotografia

Resolveu andar a pé

E foi para vender

Um carro marca bidé.

 

·Ai, ai, ai,

Mas quem lho quiser comprar

Ai', ai,  ai,

Tem que o mandar lavar,

Ai , ai , ai ,

Quantas vezes eu já vi

Ai, ai , ai ,

O Alves nele fazer xixi.

 

Por justiça que o povo assinalou, com aplausos vibrantes e reposições várias , urge destacar as operetas , construídas pela parceria que ficou célebre , formada pelo General Ribeiro de Carvalho e pelo maestro Pinto Ribeiro , este , mestre da famosa e conceituada Banda do Regimento Militar.

 

Amadores talentosos, cantavam e representavam as melodias compostas pelo maestro , os textos escritos pelo General.

 

As modas saltavam do palco para as ruas e becos da cidade, no assobio trinado dos cavalheiros, na voz límpida das lavadeiras que ecoava nos arcos da ponte que os romanos nos legaram.

 

A repercussão do êxito das operetas, sobrevoou as muralhas da cidade.

 

Vários foram os grupos de flavienses que , em ocasiões diversas, as exibiram noutrs vilas e cidades do distrito.

 

As deslocações à Régua, foram, no entanto, mais frequentes.

 

Neste caso devido ao intercâmbio amistoso com "As Adorinhas", companhia amadora dirigida por senhoras de grande sensibilidade artística, muito acarinhada nos inúmeros espectáculos realizados em Chaves, pelo seu elevado nível.

 

Após as récitas, era uso, antes da deita, o simpático beberete ou a farta ceia, para comemorar o esforço dedicado e a satisfação plena, pela obra conseguida.

 

Recordemos alguns títulos do teatro musicado a que nos temos vindo a referir:

 

"A Pastorinha", "A Dama Negra", "O Segredo do Rajá", "A Herança do Capitão-Mor", "O Lobisomem", "O Marquesinho", e outras, foram operetas belíssimas, "fabricadas" pela dupla.


Um fortuito e extremamente agradável encontro com uma descendente do maestro Pinto Ribeiro, residente em Lisboa, proporcionou-me a obtenção de algumas partituras, em fotocópias, do insigne músico, remetidas por aquela gentil senhora.

 

Não estão perdidas, mas sim tão bem guardadas, que o local não me ocorre, para as poder reapreciar.

 

No aspecto musical, não o poderia fazer, por falta de preparação.

 

Mas como as notas das partituras estavam sublinhados pelos versos lineares e felizes do General Ribeiro de Carvalho, eu fixei alguns que vou transcrever e que ainda ouvi cantados por bons amigos, infelizmente já desaparecidos.

 

Do "Marquesinho".

Cantiga da actriz principal.

 

"Cuco do mar,

Cuco da beira,

Responde breve,

Ó ave Iinda,

Quantos anos ficarei solteira,

Quantos anos ficarei ainda"

 

Dentre cenas, o cuco, respondia com um único pio.

Entrava então o coro, que entoava.

 

"Ao Marquês chegou a hora

a hora de se casar

busca a noiva encantadora

das mais belas do lugar"


 

Da "Herança do Capitão-Mor"

Cantiga de uma moçoila.

 

"Os rapazes desta roda

Andam de mim ao redor

Já parou a roda toda

Sem que eu visse o meu amor.

 

Sem que eu visse o meu amor

ele não quer  comigo estar

traz a cabeça ao redor

porque anda a namorar.

 

Porque anda a namorar

A outra e não a mim,

Nos homens não há que fiar

eles são todos assim.

 

Eles não são todos assim

Inda os há que são constantes

Tenho o exemplo em mim

Que fui sempre o que era dantes

 

Eu fui sempre o que era dantes

Podes comigo casar

E se fores sempre constante

Seremos ditoso par"

 

Era esta a poesia simples, fresca, de sabor popular que o General escrevia, para contar os enredos inspiradamente musicados pelo maestro, Augusto Ribeiro de Carvalho, era pessoa respeitável, querida e carismática na cidade.

 

Não havia pais que impedissem suas filhas de participarem nos ensaios , dirigidos pelo senhor General, que mais tarde exerceu funções de Presidente da Câmara, com uma gestão honrada e de progresso, que marcou o desenvolvimento da cidade e do concelho.

 

Foi também o General, o autor do esgotado "Chaves Antiga", livro ainda marcante, apesar das imprecisões históricas, na vida cultural flaviense.

 

Do teatro, da produção da dupla Pinto Ribeiro- Ribeiro de Carvalho, e do que se realizou até meados de 1975, ainda há muito para contar.

 

Eventualmente numa próxima crónica.

 

Ou na oportunidade que surgirá.

 

Não quero findar sem referir a principal fonte, entre outras e para além das indicadas, em que bebi as memórias, desta nossa cidade, desconhecidas de tantos, é de suas boas gentes, que lhe deram vida e história.

 

Foram longas conversas, que levianamente não retive em fita magnética com o Dr. João Morais, um médico humano, um homem bom, um conversador nato, um espantoso contador de estórias que me estimularam esta curiosidade infinda, pelas coisas que amo, vividas na minha cidade.

 

Muito do que hoje carreei para as frases, escutei-o a ele, numa postura embevecida.

 

Da gente simples, que gozou a frescura dos amieiros beira-Tâmega, quando a Póvoa era para os mais favorecidos, de gente humilde que se debruçava nas medievais varandas, para ver as bandas passar, da generosidade e do altruísmo da Maria Landainas, da graça espontânea do Saramita, do teatro de que vos falei, ele sabia mais do que ninguém, ele sabia tudo.

 

Aprender com ele era um acto de prazer.

 

Que lástima, que pena, que dor, por não poder continuar a ouvi-lo.


Se tal fosse possível, e infelizmente não é, (as' tais injustiças dos Deuses…) esta crónica seria muito mais extensa e, porventura, menos maçadora.

 

António Roque

 

 

03
Mai11

Nossa Senhora das Brotas - Chaves


 

 

Pois é, a cidade de Chaves quase nem deu por isso, mas neste fim-de-semana foi a festa da Nossa Senhora das Brotas, como sempre, nas proximidade e dentro do recinto do Forte de S.Neutel. Não eram só três na festa, mas muito longe, bem longe mesmo, dos bons tempos desta festa, aliás ela só ainda existe graças à carolice dos organizadores que teimam em festejar esta festa da cidade, e temos pena, não pela teimosia mas pela festa quase nem acontecer.

 

 

 

 

 

 

Não falo pelos dias anteriores porque não fui lá, mas como sempre dou uma espreitadela no seu dia da festa, com pouca gente, muito pouca e continuamos a ter pena, pela festa que não acontece num belíssimo espaço e anfiteatro que pede festas grandes. Talvez seja da crise, que nesta festa já é bem real há muitos anos.

 

 

 

 

Já agora, e à margem da festa, ainda gostava de saber porquê é que um pedaço da história da cidade está a servir de degrau no acesso à capela?  

 

 

 

 

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