Palavras colhidas do vento... por Mário Esteves
No domingo de manhã, perto do meio-dia, estava na Travessa das Caldas, onde esta dá inicio à Rua de Santa Maria, e mesmo ao lado ficava a mercearia do “João Pequeno” e hoje está a Dr.ª Isabel Viçoso com a fraternal Antígona, não a de Sófocles, mas uma loja de “antigo(n)idades”, na qual, os livros ocupam um lugar preponderante e que para mim constituem um abismo e simultaneamente uma atracção difícil de resistir, por aqueles serem santos da minha devoção e mafarricos da minha algibeira.
Como falei dum lado, para equilibrar a balança, falo do lado oposto, em direcção à Igreja Matriz, onde havia uma frutaria que era duma irmã do “Lelo da Tenda”, que lá para o meio e fim da minha infância e de outros, provocavam os mesmos sentimentos e provações.
Não era tanto a bola de “cauchu”, que era um sonho, uma ilusão, uma utopia, pois não conheci ninguém a quem tivesse a sorte de lhe sair ou de a ganhar!
Nem os minúsculos rebuçados comprados a tostão. A febre eram os cromos dos jogadores de futebol e dos ciclistas que vinham embrulhados nos rebuçados e depois colávamos numa caderneta.
Apesar das trocas e baldrocas nunca acabei por completar alguma. E até, por vezes, fui obrigado a confessar-me, pela explosão de palavras feias, por determinados jogadores e ciclistas, tantas vezes se repetirem…
De facto ter duas ou três equipas repetidas, sentir o vazio dos “craques” e ver a caderneta a meio e nalguns casos a um quarto, era muito aborrecido!
Estava nesse lugar fatídico, do qual só faltou dar as coordenadas, e preparava-me para prosseguir o caminho para comprar os jornais, como faço sempre, quando escutei:
-“Esto es muy pequerrecho, en dos vueltas y ya lo vimos todo…”
“Esto” era Chaves.
Voltei-me e deparei com três “majas” e disse para mim: Lá está a arrogância castelhana.
Continuei a remoer a antipatia crescente por aquele cacarejo e até murmurei: “a mulher e a sardinha querem-se pequeninas”.
Não sei por que me ocorreu dizer isto, mas, o pequerrucho dito assim… daquela forma, com a altivez que lhe atribuí, referindo-se à minha cidade natal, enervou-me, que logo procurei algo que se opusesse àquela suposta afronta, mesmo que parecesse deslocado ou até absurdo.
No entanto, muitas vezes, sente-se pela cidade natal ou por aquela onde temos o gosto de estar, o afecto, a intensidade, a veemência que possamos ter por uma mulher.
Tenho para mim que Chaves não sendo uma metrópole, não é uma cidade pequena. Nalguns aspectos até poderá ser, condescendo. Mas tem muitos monumentos… as termas… jardins… as margens do rio… e comecei a emudecer, porque cada vez que repetia algo que engrandecia a cidade, aparecia qualquer pormenor que a diminuía. Além do mais o “pequerrecho” martelava-me o cérebro…
…Era Domingo e 1.º de Maio. Não queria de forma alguma estragar ambos. Cada vez que vivo um 1.º de Maio, recordo com nostalgia o do ano de 1974 e as extraordinárias sensações que vivi nesse dia.
No Estádio Universitário, no Jardim da Sereia, por toda Coimbra que já não era dos doutores, era … apenas dos cidadãos a viverem momentos fraternos, únicos, históricos…
… E depois, pensando bem, ir ao Continente, ao E. Leclerc e tentar a sorte no casino, é uma forma bem pequerrucha de conhecer uma cidade, seja por quem for e em que país for.
Mário Esteves






