Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

11
Mai11

Palavras colhidas do vento... por Mário Esteves


 

 

 

Caminhava lentamente na praça ensolarada e quase deserta, embora causasse mais a impressão que algo invisível a empurrava, do que ela própria se movesse. Era de estatura baixa, magra, cabelos soltos, lisos e louros. Usava uma pequena mochila e de longe transparecia uma imagem juvenil.


Mais próxima, vi um rosto agradável, uns olhos claros e melancólicos.


Era uma mulher, que parecia não ter saído da adolescência, mas umas leves rugas, e aqui e além um cabelo branco, reclamavam a idade real.


Há muito que me cruzo com esta mulher, da qual nada sei, nem o nome.


Apenas me limito a passar por ela, observá-la e noutros dias admirar-lhe um sorriso contagiante que emerge num cumprimento afável, que parece ter desaparecido…


Raras vezes a vejo acompanhada, salvo há bastante tempo, no que me pareceu uma breve relação. 


Perdi a timidez e perguntei-lhe onde parava aquele sorriso que me encantava. Respondeu-me que tinha a mãe no lar e que a saúde dela a preocupava.

 

 


 

Como vivera uma ocorrência semelhante, animei-a o melhor que pude, certo que por muitas palavras que dissesse, descrente da maior parte delas, não lograria mais do que consegui, um pálido sorriso de outrora …


Decorreram alguns dias e continuamos a encontrar-nos ocasionalmente, trocando breves conversas.


Prevendo o desfecho inevitável, já para o final, perguntei-lhe como estava a mãe. Baixou os olhos e disse-me que falecera há dias e quando levantou ligeiramente o rosto para me encarar, senti uma enorme amargura e solidão.


Juraria que ela própria, já algum tempo, se recluira num lar…


………………………………………………………………………………


Durante algum tempo foram felizes. Creio que tinham dois filhos, mas ao certo não sei, por que apenas nos cumprimentávamos.


Viviam com a “mãe” dela, que a criara desde criança, pois a verdadeira mãe só a conheceu muito depois.


Ela sempre dera nas vistas e apesar da incerteza do berço e da humildade do lar, desde garota que estava habituada a duvidosos olhares masculinos, que a mãe adoptiva increpava com alarido e ela recolhia com falsa timidez no regaço já de mulher que se preza e gosta ser admirada.


Por isso não estranhou que casasse tão cedo.


Frequentávamos o mesmo café, na Travessa da Trindade, o desaparecido Café Brasília, onde nos encontrávamos depois de jantar.


Eles, numa mesa do meio, com os filhos. Eu, na mesa do canto, do lado esquerdo, junto ao balcão, na companhia dos enfermeiros do hospital, que nessa noite estivessem de serviço.


Tão repetidos se tornaram esses encontros, que ela passou a olhar para mim de outro modo, com uma avidez e insistência que se tornavam embaraçosas.

 

 


 

Não posso negar que, como outros já teriam feito, uma ou outra vez não resisti a percorrer apreciativamente o seu corpo sedutor, ao que ela não ficou indiferente e se habituara.


Aspirava a mais que uma vida limitada de um casamento modesto.


Não tardou muito que me aparecesse no escritório com uns familiares, alegadamente com a finalidade de tratar dum assunto. Acabada a reunião, deixou propositadamente os familiares saírem para o pátio e pela porta entreaberta deixou ficar a mão que apertou a minha com exagerada força…


Decorridos alguns meses separava-se …


……………………………………………………………………………….


Esta rua onde moro, apesar de vetusta e alguns edifícios em ruína e abandonados, ainda é capaz de nos surpreender.


Já vão longe os tempos, nos quais, além de não haver uma única casa deserta, ocupada desde os baixos até ao sótão, ainda sobrava espaço para compor o orçamento doméstico e amealhar uns preciosos escudos, alugando quartos àqueles que vinham estudar para Chaves, no Liceu ou na Escola Comercial, fazer cura de termas, aos caixeiros-viajantes de passagem ou a todos que por qualquer razão estanciavam umas temporadas por aqui.


Esta rua viu nascer e morrer gente, homicídios, suicídios e até mortes por electrocussão.


Aqueceu-se no inverno com o acender das braseiras. No Carnaval viu-se feliz e engalanada com serpentinas que iam de um telhado a outro. No verão deslocava-se sobranceira ao mar com o fumo das sardinhas a assar nos fogareiros.  


Assistiu a zangas familiares, cenas de pancadaria, a desfiles de bombeiros e a marchas de soldados com destino a África, na companhia da vizinha Ladeira da Brecha; a partidas para o estrangeiro à procura de melhor sorte, a festas, cascatas aos santos populares, a disputados jogos de futebol com bolas de trapos ou de borracha, algumas vezes terminados abruptamente por um polícia mais zeloso ou pior fortuna, com algum dos jogadores “recambiado” para casa, por obra e graça de uns açoites ou um puxar de orelhas paterno; a namoros e a amores, lícitos e outros menos …

 


E a histórias estranhas, como esta…


Ela permanece encerrada em casa durante todos os dias da semana.


Ele vai trabalhar e faz as compras. 


Ela espreita por entre as cortinas rendadas da janela e apenas sai à noite.


Eu na minha porta e ela na porta dela, coincidimos uma vez depois do jantar.


Desejei-lhe uma boa noite ao que ela correspondeu, expectante, sensual, sorriso malicioso; e ficamos na mesma junto às portas, imagens recortadas na noite sombria, com os relógios parados no tempo e as chaves nas mãos a olhar um para o outro…


Até amanhã – disse, hesitante. Ela respondeu num murmúrio e continuamos imóveis por mais uns segundos intermináveis.


Finalmente eu abri a porta e ela só depois fez o mesmo.


Será que na verdade ocorreu?

 

Mário Esteves

 

 

 

Sobre mim

foto do autor

320-meokanal 895607.jpg

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

 

 

1600-(61066)-21-anos

Links

As minhas páginas e blogs

  •  
  • FOTOGRAFIA

  •  
  • Flavienses Ilustres

  •  
  • Animação Sociocultural

  •  
  • Cidade de Chaves

  •  
  • De interesse

  •  
  • GALEGOS

  •  
  • Imprensa

  •  
  • Aldeias de Barroso

  •  
  • Páginas e Blogs

    A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    X

    Z

    capa-livro-p-blog blog-logo

    Comentários recentes

    • cid simoes

      Caro Fernando, é uma notícia triste, criei uma afe...

    • Anónimo

      É pena que assim aconteça! Este Blogue, quanto a m...

    • Anónimo

      Que pena!Mesmo assim, como se diz em inglês, "You ...

    • FJR

      Só me resta agradecer tudo o que fizeste e não foi...

    • José Alberto Pires

      Obrigado por 21 anos de companhia.Obrigado pelo t...

    FB