A Missa do 7º Dia (3) - Por Luís Fernandes
III
Do Largo do Arrabalde, o “Demar” vigiava a Ponte, com a secreta esperança de que alguma vez a «sua Madalena» a atravessasse sozinha, para lhe poder falar em sossegado.
E um dia calhou.
A Mãe andava a fazer umas costuras, à máquina, e precisou, de repente, de um carrinho de linhas número 30.
Mandou-a aos «Machados». Que fosse num pé e viesse noutro, recomendou.
Junto ao Quiosque do Arrabalde, o Demar estava na laracha com os engraxadores e, como nem quer a coisa, viradinho para o rio.
Que salto lhe deu o o coração!
Parecia-lhe ela, lá no meio da ponte.
Que susto, quando viu que era ela mesmo que vinha ali já em frente às escaleiras da Pensão do capitão Souto – “ A Comercial”!
Atravessou para o passeio do “Silva Mocho”, desceu para as Longras e chegou à esquina da rua com a Ponte ao mesmo tempo que ela, a «sua Madalena», chegava à esquina da Ponte com a Rua das Longras.
Olharam-se.
Os «Machados» eram mesmo em frente.
A esquina foi aquela frinchinha da janela por onde se puderam, a medo, falar.
- Amo-te! – sussurrou ele.
- Adoro-te! Murmurou ela.
O estremecimento da voz de ambos até lhes fez a vista turba.
Ele virou para a Canelha das Longras. Ela atravessou para os «Machados».
O Coração parecia-lhes querer saltar do peito.
O Sol já virava para Curalha. Mas até lhes pareceu ter-se levantado um bocadinho para abençoá-los e lhes dar um bafo de conforto. Foi coisa de um raiozinho cor-de-rosa que bateu nos olhos da Aninhas quando ia atravessar para a loja, e, batendo na frontaria da Pensão Rito, fez reflexo indo direitinho à vista do Demar quando se virou a caminho da Canelha.
Ah! S. João de Deus fizera-se padrinho da Aninhas. Nossa Senhora da Lapa, madrinha de um gabitu da cidade.
A hora de ir ao pãp, fresco, do dia, é à hora da primeira missa do dia.
A Aninhas começou a vir ao pão, ali à Padaria das Longras, que era a Padaria Rito, logo ao lado da entrada da Pensão Rito.
Pela «sua Madalena», o rapaz começo a madrugar, mais do que a aurora.
Descia a rua do Olival, sumia-se pelas escadas do Mercado, atravessava este, e parava junto ao portão que dá para as Longras. Metia conversa, ora com a regateira da fruta, ora com a regateira dos frangos e coelhos. Pelo canto do olho vigiava quem se aproximava da esquina da Rito.
Hoje, amanhã, depois, e depois de tanta vigília, sempre chegou a hora de o seu palpite acertar – a “Madalena” viera ao pão!
O coração do rapaz palpitou desgovernado com o acerto do palpite.
Ele viu-a à entrada da Padaria.
Ela viu-o à saída do portão do Mercado.
Ela rezava para que os seus passos dessem para um compasso de espera lá na esquina, antes da «sua Madalena» sair do pão.
Ela, com a saca do pão pendurada no braço; ele, com o chapéu puxado para os olhos, deram as mãos, prometeram as bocas e acordaram abraçados, com o trepar dos socos do Ti’Aniceto, que ia para a veiga.
E, para que a mãe não desconfiasse de nada, combinaram ela vir ao pão, numa semana, às 3ªs.Fªs, noutra, às 5ªs.Fªs.
Depois veria-se!
IV
O amor entre a Aninhas da Madalena e o gabiru da cidade crescia a olhos visto.
Os olhares colhidos com as subidas e descidas das…
(continua no próximo sábado)












