Palavras colhidas do vento... por Mário Esteves
Começou muito cedo, ainda era um petiz e já fazia das suas. A mãe era costureira e um dia, pela manhã, uma das aprendizas trouxe um cesto com fumeiro para lhe oferecer. Ao meio da tarde a mãe envolveu uma linguiça e um salpicão em folhas de couve que pôs na braseira, ocultas entre as brasas e a cinza. Decorreram uns instantes e o odor desprendido pelo petisco começou a invadir toda a casa, prometendo uma merenda suculenta. Nem o aroma das maçãs que se encontravam ao longo do friso saliente entre o termo da parede e o início do tecto de madeira em masseira conseguia abrandá-lo de todo.
Bateram à porta e entrou uma cliente. A mãe encostou cuidadosamente as portas da sala onde trabalhava, e agarrando-lhe o braço passaram para um compartimento contíguo onde se tiravam as medidas, se efectuavam as provas do vestuário e servia de sala de visitas. O garoto esgueirou-se da sala e acompanhou a mãe. O vestido encomendado, ainda não estava pronto para ser provado, pelo que começaram a conversar até que a cliente, comentou: “ Cheira tão bem!”
A mãe do rapaz respondeu evasivamente, que devia ser qualquer coisa que alguém teria deixado cair à braseira…
Nesse mesmo instante o filho, que estava agarrado à saia, sem que a mãe o pudesse impedir, soltou: “Não é, mãe, são as chouriças que puseste na braseira!”
Assim começou uma carreira que se augurava auspiciosa…
Os pais matricularam-no na Escola das Monteiros, uma espécie de externato que existia em Chaves e que assegurava o que hoje se designa por ensino pré-escolar e ainda a então instrução primária. Ficava próximo do “Jardim do Bacalhau”, e ocupava parte do edifício, que foi posteriormente totalmente reconstruído e remodelado e onde actualmente está o Café Carlton. Ainda existia o Terreiro de Cavalaria.
No fim dos períodos das aulas, havia o hábito das professoras prenderem laços com um alfinete nas batas dos alunos, consoante o comportamento que tinham nas aulas.
Quanto mais aproveitamento, mais laços.
Uma das professoras era tia de um colega do “nosso amigo” e às vezes exagerava nos méritos do sobrinho que não seriam tantos como os laços que, aquele, impante ostentava. Os dois eram quase vizinhos pelo que eram também companheiros no caminho e regresso da escola.
Como a desigualdade na distribuição dos laços e a injustiça começasse a ser demasiado visível, “o rapaz das chouriças”, revoltou-se por palavras contra a tia-professora e o seu proselitismo militante em relação ao sobrinho, e ainda descontente, descarregou a fúria jacobina naquele, dando-lhe uma surra, o qual, tudo somado, inevitavelmente acabou na sua expulsão daquela escola.
Quem não gostou muito do episódio foi o pai que lhe retribuiu em nalgadas o desgosto sofrido.
Pouco tempo depois, matricularam-no na Escola da Estação, onde fomos colegas e amigos. Além do que aprendemos na escola, enriquecemos o nosso vocabulário fora dela, praguejando como carroceiros. Tornamo-nos mais ágeis, furtando-nos às caneladas dos nossos companheiros habilitados para arte futebolística com socos a preceito, que até faziam “alustro”, quando batiam nas pedras. Tiramos cátedra na arte de arremesso de pedras e jeito em evitá-las, pelo que, embora na qualidade de suplentes, mas com alguns minutos de jogo, contribuímos para a justa glória da nossa escola nos confrontos com a Escola de Santo Amaro e puro terror dos meninos da Escola dos Monteiros, primeiro e amargo berço de cultura do meu colega, a quem zurzíamos se os apanhássemos, pois estes corriam que nem lebres quando viam ao longe alguma avançada da “escola dos soqueiros”, ilustre nomeada da nossa escola.
Como morávamos em sítios diferentes, eu, com os rapazes da minha rua, com o Vítor, o filho do Zé da Rosa, creio do mesmo nome, e alguns do Postigo, exercitávamo-nos mentalmente no jogo de três em linha (descendente próximo e mais simples do “alquerque” românico e medieval) na Rua do Correio Velho, numa pedra do passeio junto à casa onde morava a “Dona Rolinda”, quadrado e cruz que os nossos antecessores tinham esculpido a pico para aprendizagem e culto das gerações vindouras, desafortunadamente varrido pelas obras de pavimentação nas ruas do centro histórico feitas há alguns anos. Apurava tácticas e ensinamentos para a vida adulta no jogo dos “quatro-cantinhos” no Pelourinho.
E experimentava audácia ou tinha que demonstrá-la à minha pandilha, a fim dela pertencer como membro de direito, escalando a muralha pelo lado onde ficavam os armazéns da Câmara e demolidos estes, presentemente, um parque de estacionamento.
Com os mesmos propósitos encavalitávamo-nos à vez na extremidade dum dos canhões, já fora da muralha.
Rastejávamos por baixo da porta da muralha do Forte de S. Francisco do lado da Lapa e depois fazíamos o mesmo na Igreja e chegados ao interior sentíamos um cheiro nauseabundo, que atribuíamos aos covais, que por pouco não desmaiávamos.
Enfim só nos faltava defrontar as maléficas hordas napoleónicas.
Saídos da Escola da Estação, exame da quarta classe feita com distinção, eu ainda com um prémio na catequese, que me valeu um lápis, oferta da catequista, senhora nobre, de porte distinto, pequenina, cabelo branco, dona que era do actualmente decrépito casarão que dá para a Rua Direita e largo do Pelourinho, e que sempre me brindou com um sorriso e simpatia quando me encontrava, lá entramos no Liceu.
Nos primeiros anos ficamos na mesma turma e ainda repetimos algumas façanhas semelhantes às que já recordávamos com saudade da nossa Escola Primária.
Obrigados a frequentar a Mocidade Portuguesa, fomos escolhidos para “chefes de quina” ou lá que o valha. Mas para acedermos à promoção, devíamos frequentar uns exercícios a que se seguia um acampamento no fim-de-semana, no Alto da Forca.
Um desses exercícios era com bandeiras e decidimos zombar do comandante. Ele ordenava uma posição, nos fazíamos outra, tanto reincidimos, que logo ali fomos despromovidos, o que no fundo era a nossa intenção, e regressamos à nossa modesta condição de civis e estudantes, apenas obrigados a marchar no 1.º de Dezembro.
Mas não deixamos comandante e o resto dos graduados sem troco.
No início do fim-de-semana, sábado à tarde, lá caminhavam eles, “cantando e rindo”, para o Alto da Forca, coluna promissora do regime.
Acolitados mais uns descontentes acoitamo-nos atrás dum muro da Quinta do Fernando Lino e aguardamos que se aproximassem de local ermo e da distância adequada para maior eficácia do tiro; chegados à nossa mira, apedrejamo-los, provocando-lhes a debandada geral. Creio que apenas se atreveram a montar as tendas um bom bocado mais tarde, já estávamos na Praça do Brasil, dobrados de riso e satisfeitos pelo êxito da surtida.
Quando chegou o momento de escolher futuro, que na altura correspondia a alíneas, ele foi para Ciências e eu para Letras.
Afastamo-nos um pouco. Eu acabei mais cedo o sétimo ano. Ele começou a titubear e não sei se o chegou a acabar. Entrei na Universidade, formei-me. Ele permaneceu durante algum tempo em Chaves, teve uma aventura com uma mulher casada, passou a usar casaco comprido de pele negra, botins de bico afiado e depois de mais umas histórias de alcova, café, casas nocturnas e tavolagem, acabou por desaparecer.
Encontramo-nos na Feira dos Santos, aqui há uns anos.
Apresentou-me a mulher e disse que trabalhava num banco.
E não nos voltamos a ver.
Reformou-se cedo, tão cedo que nem dá para acreditar. Por certo mete história …
Eu estou à espera …
Mário Esteves






