O Homem sem Memória (51) e (52) - Por João Madureira
Texto de João Madureira
Blog terçOLHO
Ficção
51 – O macho e a carroça que transportava o baú e as malas com o enxoval do José começaram a subir a ladeira ainda se enxergava um lusco-fusco premonitório. Perto do pelourinho o bicho aliviou um pouco a sua asma e seguidamente desceu a ladeira, caras ao comércio do senhor Aníbal, um valpacense que ali na vila negociava o bom vinho da sua terra a preços razoáveis. Era na sua camioneta que as malas com o enxoval e a restante roupa do José iam fazer o caminho do seminário. Nela seguiria também o Virtudes para ajudar no que fosse preciso. O José tinha lugar reservado no NSU do Padre Zé. Nisso o senhor abade foi inflexível, o futuro cura tinha de ser acompanhado pelo padrinho espiritual. Fora ele quem lhe tinha sugerido a ideia, quem tinha insistido no propósito, quem tinha dirimido os argumentos favoráveis, resumindo: quem, nas palavras do guarda Ferreira, tinha endrominado o seu admirado filho. Não é que a ideia lhe fosse estranha ou a situação virgem na família. Um tio seu fora, em tempos, para o bem e para o mal, padre afamado na sua freguesia. Possuía poder político, poder económico e espiritual na comunidade, e possuía, ainda, de vez em quando, as mulheres dos outros ou uma que outra fêmea solitária mas intensamente devotada a Deus e muito próxima dos seus santos. Comia e bebia como um abade, caçava como um príncipe e dormia como um anjo. Até que um ataque o fulminou num repente.
A Dona Rosa, devido ao seu carácter teatral, foi aconselhada a ficar em casa a tratar dos filhos. Mas ela teimou, teimou e venceu. Parecia uma pita riça, desgrenhada e choramingona, quando saiu de casa rodeada dos seus pintos banhados em lágrimas e ranho por assistirem, impotentes, à triste encenação neo-realista da mãe a chorar, o Leão a ladrar, o Virtudes a gemer e o guarda Ferreira a fumar nervoso um maço de cigarros sem filtro entre o despertar e o mata-bicho.
Quando o José se acomodou no assento da frente do carro e o Padre Zé empreendeu a viagem de ida, a Dona Rosa desmaiou devagarinho, para não se magoar, pousando serenamente o Joãozinho no passeio e gritando para o mundo: “Este filho há-de matar-me do coração.” O guarda José limitou-se a acender mais um cigarro e, pegando no Joãozinho, ordenou: “Vamos para casa, filhos. A vossa mãe parece que quer ficar a dormir no meio da estrada.” O Leão, solidário com a patroa, pôs-se a lamber o rosto da Dona Rosa.
Estrada fora, acelerando muito de vez em quando e curvando com suavidade para o moço não enjoar, o cipreste falou ao seu discípulo da nova vida que ia encontrar pelo simples facto de ingressar no seminário. Dedicar a vida a Deus e à sua Igreja era uma tarefa da mais alta responsabilidade. Muitos eram os convocados mas poucos os eleitos. José, olhando para os montes ao redor, reprimia o choro com todas as suas forças. Ainda só iam em São Vicente da Chã e já sentia uma saudade imensa do que deixava para trás.
52 - Sentia uma enorme saudade da neve nas serras, da geada nos telhados, da ida aos níscarros, e dos enormes olhos verdes da Luisinha. Sentia uma saudade enorme de escorregar no gelo, das brincadeiras no feno, de jogar ao par e ao pernão com o rapa na noite de Natal, de brincar aos índios e aos cobóis pela estrada fora, e dos resplandecentes olhos verdes da Luisinha. Sentia uma saudade intensa de jogar ao espeto, ao botão, ao berlinde, e dos pestanudos olhos verdes da Luisinha. Sentia uma peculiar saudade das batatas cozidas no pote, das couves e do chouriço de cabaça. E do pão com manteiga. E dos verdes olhos da Luisinha. E das pernas da Luisinha. E da sua vaginazinha coberta da mesma penugem dos pardais no ninho. E do creme quente nas manhãs mansas de convalescença. E dos cabelos aloirados e dos tenros olhos da Luisinha. E de ler os livros nas manhãs solarengas dos domingos. E dos trinados pretensamente lânguidos da Luisinha quando lhe mexia nas maminhas enquanto ela tremeluzia as pupilas verdes dos seus olhos lindos. E de brincar no Castelo e de caçar à fisga pássaros tresmalhados pela luz do sol. E dos intencionais e delicados olhos delicados da Luisinha. E precipitadamente conseguia sentir todas e mais algumas saudades de impulsionar a roda de ferro com a gancha de arame Rua Direita acima e Rua do Castelo abaixo e de se aquecer à lareira e de brincar com o Joãozinho. E de olhar a luz do Sol pela manhã e de apreciar o luar nas noites de Primavera. E de observar o trajecto das nuvens sob o azul do céu. E de espiar o céu atrapalhado do barroso. E de ver chover e trovejar. E de ver lacrimejar os olhos aquíferos da Luisinha. E de sentir o vento gemer nas janelas do seu quarto. E de brincar no Cávado como um índio rastejador. E de ir ver namorar substantivamente a professora e o escrivão do tribunal. E de os ver poder. E poder. E poder. E chilrear como as aves sedentárias. E de observar os pássaros a palrar como o casal de funcionários públicos. E das coxas de rã da Luisinha. E de ouvir roncar os recos. E das missas de domingo. E das procissões. E da cona da Luisinha. E do som cavo e profundamente triste dos sinos da Igreja Matriz. E dos cânticos solenes da Páscoa. E dos incêndios inquisitoriais do Carnaval. E dos enterros absurdamente cerimoniais dos mortos na guerra. E de sentir que a saudade não é uma coisa boa. E de sentir que a saudade não o tranquilizava por aí além. Mas Deus sabe que quem consegue ir também é capaz de vir. Deus, basicamente, é uma estrada de ida e volta. Deus é o mito do eterno retorno. Deus é uma estrada asfaltada. O seu Deus, o do eterno abandono, ainda vai ser capaz de pintalgar a fotografia do seu mundo a preto e branco num daguerreótipo colorido com as delicadas pinceladas das aguarelas.
A profecia do seu mentor indicava que apenas tornaria a Montalegre passado um ano.
Não sabia se ia aguentar.
53 – Passou um ano de cão. Cheio de frio, ougado, com uma fome permanente e com umas saudades da ...
(continua)



