A Missa do 7º Dia (6) - Por Luís Fernandes
VI
Depois de confirmadas todas as instruções e recomendações, os arrumos no sítio, os pais daninhas lá foram para a «carreira» que os levaria até à capital do Barroso.
Meia hora antes do "mei-dia novo", O Demar meteu-se no táxi, que era seu, atravessou a Ponte, fez que olhou para o estabelecimento do Benjamim Eugénio Leite, e misgou a varanda da casa da «sua Madalena». Ficou contente por ver lá pendurado o tal avental «sacramentado» para dar o sinal de «avançar».
Foi ao To Manco atestar de "gasoil".
Entrou pela Rua de S. Roque, foi pela Rua do Rajado e parou na Rua do Campo da Fonte.
E, para sua alegria, logo apareceu na porta a Aninhas com as trouxas emaladas.
Se o motor do automóvel trabalhasse ao ritmo daqueles corações, já onde iriam!...
A recta de Faiões passaram-na sem dar conta e chegaram à Bulideira num abrir e fechar de olhos. Aí pararam. Afagos e beijinhos acalmaram o desassossego da aventura.
Com o espírito mais sereno, desceram até à Ponte da Pulga. Logo à frente apareceu uma placa da JAE onde a Aninhas julgou ler "PERDOA-ME".
O Demar guiava devagar, sentindo pelas costas os amanheceres nevoeirentos do Arrabalde e vendo pela frente o risonho futuro com a «sua Madalena».
- É PEDOME! - disse-lhe, à Aninhas.
- Ora! Devia ser "ABENÇOO-VOS! - refilou a Aninhas, alegre e meigamente, com um beijinho na carinha do «seu Demarzinho».
Logo chegaram a Lebução, que fica dois passos à frente de Pedome. Vinhais não era longe. Mas era melhor comerem já qualquer coisa, pois o relógio apontava próximo do «mei-dia velho».
E lá foram almoçar numa Casa de Pasto de Lebução.
Satisfeitos, divertidos, contentes com o sucesso da aventura, até atrapalhavam os pensamentos com o entusiasmo de se falarem e ouvirem ao mesmo tempo.
De repente, o Demar calou a boca, fechou os olhos e levou as mãos à cabeça.
A Aninhas assustou-se com o repentino inesperado.
- Que foi?! - perguntou, mais assustada que curiosa.
Demar suspirou, fez uma pausa quaternária, respirou fundo, pegou-lhe nas mãos, e falou-lhe, com palavras envolvidas em mágoa:
- Ninhas, nunca mais me lembrei! Amanhã é a Missa de Sétimo Dia pelo meu pai. Sou o irmão mais velho, e o rancho é de Sete - eu, cinco raparigas e outro rapaz, o mais novo de todos. Seria um escândalo, uma vergonha, um mau exemplo, eu faltar à Missa do 7° dia pela morte do meu pai. Temos de voltar para trás e deixar a fuga para outra ocasião.
Aninhas ficou sem fala.
Nem soube se foi a surpresa, se o amor, se a decepção que lhe deram força para dizer, com desfalecimento:
- Como quiseres!
Lebução ficou para trás.
A placa da JAE, que agora lhes apareceu, parecia ter escrito "PERDEU-ME", mas dizia PEDOME.
O Mercedes do Demar vinha carregado de silêncio.
Depressa chegaram às Açoreiras de Cima. E, nas Açoreiras do Meio, o Demar perguntou, amargurado:
- Ninhas, vais bem?
Nunca mais enxugavam as lágrimas daquela Madalena!
E um dique mais forte rebentou quando acenou um sim com a cabeça.
O Demar parou o carro numa berma mais larga da estrada, ainda antes de Faiões.
Ambos compreenderam, e compreendiam, que ela tinha de voltar para casa com melhor cara.
- Vamos! - disse a Aninhas, depois de uns largos minutos a ensopar mais um lenço, a assentar ideias e a ganhar forças para entrar em casa e subir para o seu quarto, dali a pouco.
O carro parou no mesmo lugar de onde ambos partiram.
Aninhas pegou nas malas, abriu a porta de casa e fechou-se no quarto.
À noite, os pais regressaram de Barroso.
VII
Na 6ª fª, lá na Rua do Olival, o Demar estava retirado, tristonho, acabrunhado, cabisbaixo.
Colegas e amigos não estranharam. Tinha sido …
(continua no próximo sábado)









