Pedra de Toque - Príncipe Alado
PRÍNCIPE ALADO
Adivinhava-se-lhe um desgosto profundo, reflectido no semblante triste, no sorriso desejado mas escondido pelas mãos nervosas e no rubor das faces.
O mistério, o enigma, o talento, o esforço daquela mulher feminina, débil, mas lúcida, fascinavam-no.
Espelhava uma incansável ternura, mas ele teimava no gosto de a desvendar, de lhe saber dos sonhos, de lhe entender os silêncios.
E relatava excitado os poemas esquecidos que escrevia com cabeça poisada na fronha do travesseiro, aguardando feliz o sono que vinha iluminando a esperança num suave milagre.
Quando a via, e via a todo momento mesmo quando não a encontrava, mergulhava-lhe nos olhos, caindo sedutoramente desprotegido no algodão em rama, no creme escorregadio da sua pele sedosa, do seu corpo tímido.
Apetecia-lhe tanto quebrar a frieza mentirosa que ela vestia, quando em surdina proferia bom senso, rigor humanidade …
Imaginava-a descalça, deambulando num campo verde prenhe de violetas, por entre árvores serenas e frondosas para depois repousar marginada por cravos cheirosos.
E então surgia, qual príncipe alado, murmurando palavras que lhe adoçavam as cicatrizes da alma, enquanto mãos trémulas lhe percorriam os lábios.
O seu encantamento narrado com muito brilho nos olhos, entontecia-me, embriagava-me.
Por isso eu escutava-o misticamente.
Ele era meu amigo demais.
Conhecia-o como a mim próprio.
António Roque



