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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

04
Jul11

Quem conta um ponto... Por João Madureira


 

O fim de uma ilusão

 

 

Devolvido Sócrates ao anonimato mediático, eis que os triunfadores da “causa pública” se atarefam na imensa, e inglória, tarefa de crucificar quem se lhe segue. E é bem feito, sim senhor. A política é isso mesmo: retirar uns do poleiro e pôr lá outros para seguirem o mesmo caminho. E, para isso, são fundamentais as televisões e os jornais. É aí onde se alojam os milhares de génios que diagnosticam as origens da crise e é lá, nesse oráculo da revelação, que propõem a cura. Ali em directo, como deuses da verdade, no seu Olimpo de certezas. E falam e falam e continuam a falar porque apenas eles nos podem salvar. E se não for possível a salvação ser servida ainda durante a noite das tertúlias, ou dos directos televisivos, ela virá logo pela manhã, fresquinha como o “biju” onde, para nosso deleite, a manteiga ainda derrete.

 

(E a promessa de Pedro Passos Coelho, no dia das mentiras, de que não… )

 

Abençoados sejam os engenheiros, os economistas, os políticos, os gestores, os médicos, os funcionários superiores, os filósofos, os professores universitários, os diplomatas, os advogados, os juízes e as mil e uma castas de palradores empertigados na sua importância e nas suas certezas passageiras, que raiam a esquizofrenia.

 

(E a promessa de Pedro Passos Coelho, no dia das mentiras, de que não ia mexer no 13º mês…)

 

Quem, como eu, os ouve, fica irremediavelmente com a impressão de que a nossa jovem democracia esteve entregue aos incompetentes, aos mentirosos, aos ladrões. Daí a actual situação de emergência nacional. E a pergunta impõe-se: será unicamente por culpa de Sócrates, Durão Barroso, Guterres, Cavaco Silva, Mário Soares, Ramalho Eanes, Sá Carneiro e Freitas do Amaral e Vasco Gonçalves? E o povo pá? Pois, os camaradas da luta têm razão, o povo quer, é um carro novo mas, com o PSD no Governo, para já, saiu-lhes um subsídio de Natal com o bónus de menos 50%. Portugal à direita é mesmo assim. É o Continente a céu aberto. Mas mentirosos eram os outros: os do Sócrates. 

 

(E a promessa de Pedro Passos Coelho, no dia das mentiras, de que não ia mexer no 13º mês a provocar-me azia…)

 

Na minha humilde perspectiva, a realidade remete-nos necessariamente para uma outra visão dos factos. Todos nos lembramos, e os que não se podem lembrar devem consultar os livros de História Contemporânea, do Portugal salazarista pobre, antiquado, arcaico, medieval, e, em muitas localidades, mesmo primitivo. Todos nos lembramos também da primavera marcelista que deu alguma esperança de desenvolvimento a muita gente e que acabou torpedeada pelo pronunciamento militar do 25 de Abril, bem ao jeito das ditas revoluções que tiveram lugar nos séculos XIX e XX.

 

(E a promessa de Pedro Passos Coelho, no dia das mentiras, de que não ia mexer no 13º mês a provocar-me azia e a música do Bandemónio…)

 

Após Abril de 1974, por mérito da esquerda, e pelo desnorte da direita, instalou-se o mito nocivo de que Portugal poderia, em meia dúzia de anos, tornar-se, por obra e graça do Espírito Santo, um país com os níveis de desenvolvimento da Europa Ocidental. E, vai daí, começou-se a reivindicar tudo e mais alguma coisa. Todos à uma fomos para a rua exigir o Estado Social, salários adequados, habitação, educação e saúde gratuitas, universidades de excelência, empregos para toda a vida, subsídio de férias e décimo terceiro mês, férias no estrangeiro, carro novo, hospitais e centros de saúde com qualidade, estádios de futebol, auto-estradas espalhadas pelo país e quase todas à borla, subsídios de desemprego generosos e alargados no tempo, rendimento mínimo garantido e muito mais mordomias que seria cansativo aqui referir ao pormenor.

 

(E a promessa de Pedro Passos Coelho, no dia das mentiras, de que não ia mexer no 13º mês a provocar-me azia e a música do Bandemónio Pedro Abrunhosa…)

 

Entretanto a produção nacional não aumentou, extinguiu-se o ensino técnico, o nível cultural não se elevou, o ensino perdeu qualidade. Só que, com a entrada dos fundos comunitários nos cofres do Estado, e nos bolsos de agricultores, pescadores, formadores, banqueiros, etc., o bom senso desapareceu e todos entrámos em euforia. Com uma manifestação conseguia-se um aumento, com uma greve outro aumento, e com a tomada de posse dos sucessivos governos foi-se espargindo, como estrume, dinheiro sobre os problemas.

 

(E a promessa de Pedro Passos Coelho, no dia das mentiras, de que não ia mexer no 13º mês a provocar-me azia e a música do Bandemónio Pedro Abrunhosa a ribombar-me na cabeça: “É que isto é mesmo assim…)

 

 

Subsidiou-se o arranque e o plantio de vinhas, oliveiras, os poços de rega, o abate de barcos de pesca, os burros, as ovelhas, as vacas leiteiras, os cursos de formação onde professores chegaram a aprender a nobre arte dos tapetes de Arraiolos ou o ponto em cruz, onde se aprendeu a costurar, a jardinar, a cantar e, até, a respirar.

 

(E a promessa de Pedro Passos Coelho, no dia das mentiras, de que não ia mexer no 13º mês a provocar-me azia e a música do Bandemónio Pedro Abrunhosa a ribombar-me na cabeça: “É que isto é mesmo assim / Sou só uma ilusão…

 

Isto era o que se fazia lá fora, na Europa desenvolvida. E este argumento falacioso foi o bastante para calar muitos dos protestos dos que apelavam ao realismo e à razão. E os patriotas e os comentaristas de agora todos ajudaram à festa. Foi um fartar vilanagem. Claro que o dinheiro não bastava para a instalada megalomania dos direitos. Os subsídios foram-se extinguindo, mas os direitos continuaram e a riqueza nacional não crescia. Resultado, Portugal tratou o problema como de costume, pediu dinheiro emprestado. A ilusão do euro tornou essa experiência fácil, pelo menos aparentemente. E tinha a virtude de ser indolor nos primeiros anos.

 

(E a promessa de Pedro Passos Coelho, no dia das mentiras, de que não ia mexer no 13º mês a provocar-me azia e a música do Bandemónio Pedro Abrunhosa a ribombar-me na cabeça: “É que isto é mesmo assim / Sou só uma ilusão / Não tenho mão em mim…)

 

Mas os alicerces deste estado social têm, por força da falta de produção de riqueza nacional, a mesma consistência dos da baixa lisboeta. Também eles estão assentes em estacas de madeira numa zona de aluvião. E o terramoto aproxima-se.

 

(E a promessa de Pedro Passos Coelho, no dia das mentiras, de que não ia mexer no 13º mês a provocar-me azia e a música do Bandemónio Pedro Abrunhosa a ribombar-me na cabeça: “É que isto é mesmo assim / Sou só uma ilusão / Não tenho mão em mim / É uma maldição…)

 

Agora já sabemos que a economia é a modos que um conto dos Irmãos Grimm. E todos pressentimos que viver de dívidas não é sustentável.

 

(E a promessa de Pedro Passos Coelho, no dia das mentiras, de que não ia mexer no 13º mês a provocar-me azia e a música do Bandemónio Pedro Abrunhosa a ribombar-me na cabeça: “É que isto é mesmo assim / Sou só uma ilusão / Não tenho mão em mim / É uma maldição.” E o segundo e o quarto versos a rimar com aldrabão… E o PPC a cantar: Sou só um ilusão.)

 

PS – Mas enquanto o Titanic se afunda, permitam-me que deixe aqui uma sugestão aos homens… de boa vontade, para soçobramos com elegância.  

 

Ponham a tocar a “Sinfonia do Novo Mundo”, de Dvorák [para os especialistas Sinfonia Nº 9 em Mi menor (Op. 95)].

 

Roupa: Calções Cargo, relógio Diesel, saco Louis Vuitton (este pequeno pormenor anda pelos 2200 euros), cardigan em algodão, óculos de sol Persol, cinto em pele, sandálias também em pele, chapéu em palha Lacoste.

 

Bebida: Red Emotion, por sugestão do Hotel Ritz. 1 morango, 2 amoras, 1 framboesa, 3 gomos de lima, 4 cl de Bacardi. Técnica: Macerar os frutos, agitar tudo no shaker, coar bem, adicionar gelo picado e juntar Água das Pedras (por sugestão nossa), em vez de Água Castelo, até ao cimo. Decoração: Rodela de lima, amora e framboesa. Tempo de preparação: 8 minutos.

E bom naufrágio.

 


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