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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

31
Ago11

Palavras colhidas do vento... por Mário Esteves

 

Desensarilhado o braço do penduricalho, onde permaneceu todo o Agosto até ontem, recolocado o úmero na escápula - creio que será assim -, pelas mãos hábeis do Doutor Peixoto, que, nos breves momentos de conversa pessoal, alheia ao motivo profissional, e que a consulta médica permite, evocou a sua condição de antigo dirigente académico e o desprazer actual que lhe traz a política - … deixe lá doutor, sobram políticos, enquanto médicos competentes e sabedores, nunca serão demais -, regresso a estas crónicas e que “bó bento” me acompanhe.


Claro que, impõe-se um agradecimento a todos os que procuraram inteirar-se do meu estado e me desejaram melhoras, e aqui tenho que falar nos amigos, na família e nos meus irmãos, nomeadamente a minha irmã Cristina, que durante este tempo foi o meu braço direito e (…) pelo afecto e preocupação que evidenciou neste transe.    


Quanto aos leitores, ignoro se notaram a minha ausência, mas creio que o Fernando Ribeiro e os outros colaboradores deste blogue, supriram com a sua conhecida arte e engenho os meus fracos préstimos das quartas-feiras.


Pois é, de braço ao peito, como Napoleão Bonaparte, embora por outros motivos; creio que no caso do insigne militar tal gesto era para melhor salvaguardar a carteira, isto é o Império, que por fim os nossos mais velhos aliados lhe surripiaram, sem esquecer a nossa “humilde” ajuda na Guerra Peninsular e na recuperação da independência perdida.


E como Chaves está sempre presente nos momentos supremos de glória nacional aí temos a reconquista da então praça-forte aos franciús jacobinos em 25 de Março de 1809, pelo General Silveira. Daí a presença do aguerrido caudilho na toponímia e estatuária local.


E com as mãos na massa, se é de lembrar o britânico auxílio, também é não esquecer a execução do Coronel Freire de Andrade, por ordens do Marechal Beresford e que entre outros factos conduziriam à revolução do Porto, em 1820.


Conhecida a roubalheira que as tropas de Soult, Junot e Massena fizeram por todo o país, as atrocidades praticadas pelo Maneta, apodo do general Loison, surpreende ainda o apreço que os nossos emigrantes nutrem pela língua de Voltaire …

 


O braço entrapado, entre muitas limitações, impediu a praia, o mar - estar junto a ele, aspirar o cheiro, na vazante, sem poder nadar, era tortura demais - , que apenas revivi nas leituras dos artigos de António Sousa Homem, na revista dominical do Correio da Manhã, que apenas por isso adquiro, na nossa afeição comum pelo: Moledo, o Carreço, o Forte do Cão, a Serra d`Arga, o estuário do Minho, o Forte da Ínsua, o vizinho monte de Santa Tecla … sítios que compartimos também com Rentes de Carvalho, autor do qual conhecíamos algumas obras: Montedor, o Rebate, ainda editados pela Editora Prelo; e que agora aproveitamos para ler os seus mais recentes livros, editados pela Quetzal: La coca e Os lindos braços da Júlia da Farmácia, este uma colectânea de contos.


Como se vê, nem tudo foram desvantagens.


Usar a mão esquerda, duma forma que consegui espantar a minha irmã, pela perícia que ia demonstrando nos sucessivos actos do quotidiano.


-“ Se fosse eu, nem longe da metade fazia …” Animava-me.


- Estou a caminho de ser ambidextro … Retorquia-lhe com sorna.


Sabendo que dextra e o vocábulo latino de semelhante designação significa mão direita e sinistra e o mesmo vocábulo de idêntica proveniência quer dizer mão esquerda, saberiam dizer-me porque se diz: ambidextro ou ambidestro e não “ambissinistro”?


E a razão pela qual destreza significa: “… qualidade de destro; agilidade; aptidão; habilidade; arte …”


E sinistro: “ … esquerdo; pressago; funesto; ameaçador; desgraçado …”


Também nisto haverá política …                   

31
Ago11

(In)dependência saboreada de imagens trocadas

 

Hoje apetece-me estar comodamente só. Não sei se pela chuva ter chegado, se pelo dia ter ficado estranhamente escuro. Convém arranjar sempre uma desculpa para estes estados que nos invadem e se entranham, momentos em que procuro a poesia para nela encontrar algum conforto. Parto para a estante, percorro-a de ponta a ponta na esperança de não encontrar livro nenhum, e não encontro, porque não quero ler, não me apetece ler, apenas ficar comodamente só.

 


 

Fumo um cigarro. Saboreio-o quase em silêncio até ao fim. Não fosse a chuva e o silêncio seria total, como se houvesse silêncios e pudesse estar comodamente só,  e escrevo. Pasmo mais que escrevo. Estou aqui sem estar, mas escrevo quando me apetecia estar comodamente só, sem letras, sem palavras, mas escrevo, pasmo e escrevo mais uma palavra e cada palavra custa, dói. Procuro novo livro mas abandono de novo…só me apetece ficar comodamente só.

 

 

Ai como me apetece estar comodamente só , mas insisto em levantar-me e percorrer de novo a estante. Não leio os títulos, já os conheço e não me apetece ler. Saboreio outro cigarro. Tenho o cinzeiro cheio de beatas, saboreei-os todos, a chuva continua a cair e a mim, continua a apetecer-me ficar comodamente só…

 

- Ei, pchiiut, pchhhhh, acorda!

- Ãh! Arranja aí um cigarro!

 


 

Ainda hoje vamos ter por aqui o regresso das “Palavras Colhidas do Vento” de Mário Esteves. Até lá, fiquem comodamente…como vos apetecer, se puderem, claro.

 

 

30
Ago11

Umas no cravo outras na ferradura, ou será serradura…?

 

Na ausência da habitual crónica das terças-feiras, a “Pedra de Toque” de autoria de António Roque, que continua de férias, convidamos o “Repórter de Serviço” a dar uma voltinha pela cidade para ver aquilo que toda a gente vê, alguns ignoram, muitos não estranham e a maioria está a marimbar-se para o assunto tratando a coisa pública como uma coisa que não é de ninguém e sobre a qual não tem responsabilidades nenhumas, e esse, é o grande mal de muita gentinha. Eu costumo dizer que este alheamento do que é de todos está ligado à falta de chá para curar algumas maleitas ao longo da vida das pessoas. Falta de chá em casa, mas também nas escolas onde a educação extra-curricular, ou educação cívica, ou formação, ou aquilo que lhes queiram chamar, na prática não existe, e os professores (a grande maioria embora não todos) se excluem dessa missão de educar (o extra-curricular) defendendo muitos que a educação é em casa que se dá e isto, não são contas de outro rosário, mas deste rosário que é o de viver com os outros onde o que é público e o respeito pelo que é publico é de todos e só assim não é entendido, pela tal falta de chá que leva as pessoas ao alheamento. É assim que penso até que alguém me prove o contrário e o mais grave, é que esta atitude individual acaba por tomar de assalto atitudes das instituições, empurrando de umas para as outras os problemas e alheando-se elas próprias da coisa pública.

 


 

Por outro lado também não faltam por aí alguns iluminados que se acham detentores de toda a sabedoria, que não aceitam críticas, que são duros de ouvido e que quando lhes é dado um pouquinho de poder decisório que seja, tendem em tornar-se donos da(s) coisa(s) pública(s), e não estou a falar só de políticos, mas também de outros iluminados de instituições e até técnicos que são chamados a colaborar com esses iluminados e impõem a sua vontade pessoal à vontade pública e ao bom censo que sempre deve imperar em tudo na vida.

 

 

Depois há também o “deixa andar”, o passar ao lado, o ignorar. Desde que ninguém chateie ou levante ondas, é muito mais cómodo, não dá chatices e sempre deixa mais tempo para alguns devaneios e só depois da casa arrombada é que se metem as trancas na porta, como costuma dizer o povo e muito bem, tal como diz que os males devem atacar-se pela raiz ou mais vale prevenir que remediar.

 

 

Para hoje o repórter de serviço trouxe algumas imagens que ilustram bem algumas das partes do texto (para alguns, pois muitos nada verão nestas imagens). Coisas muito simples e pequenas de fácil resolução até, como no caso da última imagem onde finalmente o Monsenhor Alves da Cunha teve direito a um lugar (à sombra), não tão nobre como o que ocupava antes, mas está na Praça com o seu nome, o que já é alguma coisa. Coisas simples e pequenas que podem fazer a diferença, pois quanto às grandes, essas sim, já são contas de outro rosário que não podem ser tratadas aqui com a leviandade de um repórter de serviço.

 

 

29
Ago11

Quem conta um ponto... Por João Madureira

 

Quarta crónica estival: o fim da quinzena esplendorosa

 

As férias na praia acabaram, mas o seu esplendor ainda me anda aos baldões pela cabeça. Quinze dias à beira-mar é tudo o que um ser humano mais deseja na vida. E é tão bom relembrá-lo: o calor, o mar, a areia, as besuntadelas, os passeios para molhar os pés, o transportar do saco das toalhas, a água fria para retemperar os ossos e tonificar os músculos, os emigrantes, os imigrantes, os migrantes, os turistas e os autóctones a jogarem as raquetas, o futebol, os putos a lançarem-se para a água como loucos, as conversas, os cães, os carros, os africanos, os políticos em calções, os hipermercados à pinha, os cafés repletos, os restaurantes a rebentar pelas costuras, o subir e o descer ladeiras, as prendas que se compram para a família, os telefonemas que se fazem para a família ou que a família faz para nós, os conhecidos que nos evitam, ou que evitamos, na terrinha, e que aqui nos falam como se fossemos os melhores dos amigos, as feiras regionais, as feiras locais, as festas, a animação estival a cargo das autarquias no seu máximo esplendor de qualidade e diversidade, os ciganos a venderem pólos de marca, os polícias de bicicleta, os ladrões de motorizada, os traficantes de droga de Mercedes último modelo, mulheres chilreantes escurecendo-se na praia para serem fotografadas e logo à noite colocarem no facebook as suas fotos eróticas a ilustrarem os seus poemas de amor cheios de mar, azul, areia, sol e… estrelas, os vendedores de bolas de berlim e de gelados, os leitores da bola a tirarem burriés do nariz, os nórdicos rosados como camarões a tomarem compulsivos e obstinados banhos de sol, mulheres bonitas, feias e assim-assim, homens assim e assado, crianças incómodas, jovens impertinentes e ainda mais areia a escaldar e mais água fria para gelar os meus ossos e mais protector solar e toalhas e jornais e chinelas e camisolas e óculos de sol riscados e amigos de ocasião chatos como o caraças e bóias e baldes e pás e buracos na areia e castelos na areia e… a auto-estrada de caminho de casa que tão cara é de percorrer. Depois sonhar com o almoço no Rui dos Leitões e… o Rui dos Leitões à pinha, as mesas todas ocupadas, a fila maior do que a que se forma para marcar consulta externa nos hospitais do SNS, a longa espera, a família cheia de fome e por isso já indisposta… finalmente o leitão, o vinho espumante, o apetite, a voracidade e o barulho ensurdecedor dos clientes do Rui dos Leitões, e os empregados nervosos sem mãos a medir, as crianças que berram o seu nervosismo primário, o seu pânico por permanecerem ali fechadas e com um barulho atroador que junta vozes humanas, sorrisos alarves, tilintar de garfos, garrafas de espumante a abrir… e ainda mais um pouco de leitão porque a fome é muita e ainda um pouco mais de espumante porque a sede é muita e o barulho ensurdecedor a dilatar-se um pouco mais, como se fosse possível, enquanto o dono do restaurante sorrindo se entretém na teima de ir assentando nas mesas que vão vagando os clientes que continuam a aguardar pacientemente por uma mesa e um ou dois pedaços de leitão à Bairrada pagos a peso de ouro… e chegam as sobremesas doces e finalmente os cafés. Depois de pagar uma fortuna por três travessas de leitão, saímos do restaurante um pouco mais pesados de corpo mas muito mais leves na carteira. É a crise, como muito bem diz o meu sogro. Cá fora o sol queima e quando entramos no carro o ar arde e os assentos são brasas que nos fazem suar em bica. Conduz quem não bebeu ou bebeu pouco. A ânsia de chegar a casa é enorme. Tenho saudades da minha cidade. Só quando estamos fora é que lhe damos o devido valor. Não penso em política pois de certeza que ficava com azia e lá tinha de desfazer o bolo alimentar à base de digestivos medicinais e o leitão foi tão caro e estava tão saboroso que é um desperdício chatear-me com tão fracas reses. Então o Pedro Passos Coelho é que me saiu cá um artista de revista, se sofresse da síndrome do Pinóquio nesta altura tinha um nariz que já não lhe cabia em São Bento. E então que dizer o António José Seguro? Para já basta pensar nele como o fantasma que para se ver nas vinhetas de BD tinha de se enrolar em gaze. Penso isto, e só isto, porque comi salada de alface e tomate no início da refeição. Se levasse mais longe o raciocínio lá se me azedava o leitão no estômago. Credo! Mas, como vos ia dizendo, não há nada como chegar à nossa terrinha. E a cidade de Trajano é tão carinhosa e está tão bem regulada que dá gosto pensar nela pelo simples prazer de pensar… nela. Então até para a semana. E fica desde já prometida uma crónica estival sobre os esplendorosos dias de férias que passei na nossa terrinha a ir de um lado para o outro com muito amor e carinho. E da qualidade e diversidade da animação estival a que tive o prazer de assistir.

28
Ago11

Castelo de Monforte de Rio Livre - Chaves - Portugal

 

Torga dizia que de vez em quando passava pela raia para ver se os marcos da fronteira estavam no sítio. A mim vai-me acontecendo o mesmo, mas em vez dos marcos da fronteira tenho os meus lugares de referência, onde de vez em quando também dou lá um pulo para ver se tudo está na mesma e, embora às vezes seja conveniente que tudo continue igual, outras vezes, o continuar tudo igual chega a meter dó, e temos pena.

 

Um desses lugares de referência por onde passo sempre que posso é o Castelo de Monforte, lugar conhecido pela aragem e ventos que por lá sempre sopram, ventos de Espanha por certo, pois nunca sopram eu seu favor.

 

 

E já que se falou de Torga e de Espanha, veja-se o que registou o poeta aquando de uma das suas visitas ao Castelo de Monforte em Setembro de 1961, há 50 anos, mas pela actualidade da escrita poderia ter sido hoje.

 

 

“(…) Também eu sinto neste momento não sei que despeitada revolta, que surdo desespero. Do lado de lá da fronteira, Monterrey, altaneiro, majestoso, ufano das suas aladas torres, do seu palácio senhorial, da sua igreja românica, cofre dum retábulo de pedra de cegar a gente; deste, quatro paredes toscas de desilusão, que a hera aguenta de pé por devoção à pátria. É, realmente, de um homem perder a paciência de vítima passiva do destino. Sempre pequenas muralhas de fraqueza e pobreza! Sempre um prato de figos ao fim de cada fome!”

Miguel Torga, in Diário IX

28
Ago11

Treze Contos do Mundo que Acabou - Com as barbas enxutas

 

Conto VII


Com as barbas enxutas

 

          - Não, senhor doutor, hoje não adianta perder o tempo. Consoante sopra este ventinho lá da Sanabria e entra pela gente dentro, até os ossos se estremecem… Quando assim é, enfiam-se nos tocos do raizedo, não há o diabo que as faça sair.


          - Parece que pariu a galega! Trago as mãos como o carambelo. Já troquei a medalha umas quantas vezes e nem sinal delas. Será da lua, Manuel, que te parece?


          - Ao meu pai, que Deus tenha, toda a vida lhe escutei dizer que a melhor altura para caçar umas trutas é o quintar da lua nova, e se for o caso de começar a merujar uma chuvinha, então é que elas se põem doidas… e a gente tem que ir com o que diziam os antigos.


          - Pois não digo o contrário, mas eu lembro-me de as ter apanhado com qualquer lua e até a nevar já caíram. Hoje é que não será dia… Olha lá, e a tua mulher tem passado melhor?


          - Com a graça de Deus, desde que o senhor doutor olha por ela já nem parece a mesma. O mal às vezes anda a comer por dentro sem a gente dar conta, e quando se vai para lhe atalhar já não tem remédio. Naquela noite, em que mandei recado para o senhor doutor vir a fugir, cuidei que ela se me ficava. O senhor foi quem na salvou!


          - Já não tinha que ser. Mas agora fica por vossa conta, que a saúde e a doença, muitas vezes, vão no que a gente come, e estou convencido de que ela abusava um bocado da carne de porco e do fumeiro, da pinga do vinho, dos pimentos do vinagre, tudo coisas que o fígado dela aceita mal. Já sabeis, muito cuidado com o que se mete à boca!


          - Isso bom é de dizer, senhor doutor, mas se a gente passa o ano inteiro a criar o requinho, para que há-de ele ser senão para se comer?! E tirando de quando em vez uns peixinhos do rio, ou uma pita, por festa, que outra coisa havemos de pôr na mesa com as batatas e o cibo do pão?


          - Bem, lá farás como melhor entenderes. Fome não passais. Ao que eu me quero referir é aos abusos, e tu bem compreendes o que eu quero dizer…



          Já o avô e o pai eram moleiros e ele herdou-lhes a arte e as pedras do moinho, mais a água do rio que as punha a girar de roda. A barca, amarrada no amieiro grosso que bebe no remanso da presa, essa foi obra sua, quando a Guerra Civil de Espanha obrigou os povos de ambos os lados da raia a partilhar misérias e a tecer cumplicidades escondidas. Daí a nomeada de Manolo da Barca, como passou a ser conhecido. Mas se lhe ficou o nome, foi-se-lhe o ofício de barqueiro, quando as poldras que, meia légua rio acima, davam passo incerto de Eiriz para a Lobeira foram elevadas à categoria de ponte, só de um arco, mas ainda assim garante mais seguro da necessária travessia, mesmo que os Invernos trouxessem muita água. Depois disso, só um que outro pescador, no tempo das trutas, ou os raros fregueses do moinho, com os burros carregados de sacas e de moscas, passavam a partilhar com ele breves momentos daquela solidão conformada.

 

         

O doutor Teófilo era médico na vila e tinha tal ilusão pela caça e pela pesca que, no seu calendário, o ano tinha apenas duas estações. Há mais de quarenta anos, desde que voltara de Coimbra com o canudo, que nas manhãs sagradas das quintas e dos domingos, as mãos esqueciam o estetoscópio e o receituário para se agarrarem com mística paixão à cana ou à caçadeira, consoante corria a época. Uma vida inteira a carcomer os dias, e quantas vezes também as noites, com as dores e as misérias dos outros, a representar sempre a última esperança para os que cuidavam enganar a morte, e afinal era só ali, naquelas fragas do fim do mundo, que encontrava sentido para a vida que levava, enquanto ferrava uma truta ou estourava uma perdiz. E de todas as vezes, como se fosse a primeira, a ansiedade lhe ratava o sono breve da noite, antes que os galos alvorassem a madrugada e a mulher lhe rezasse o costumado responso:

 

          - Não sei que desassossego tens nesse corpo, que nem dormes nem deixas dormir! Sabes bem que não devias andar sozinho por aqueles ermos, que na tua idade basta às vezes assentar mal um pé… Se um dia te acontece alguma coisa, quero saber quem te vale.

 

          - O corpo só há-de sossegar quando morrer, o espírito é que não pode passar sem beber daquela paz. E não fiques em cuidados, que se houvesse alguma novidade, o Manuel havia de dar relação de mim.

 

 

          As águas mil que o Borda d’Água sempre prometia, nesse Abril, correram o céu de lés a lés nos odres inchados das nuvens, foram e vieram no inconstante leva e traz dos ventos, mas se alguma chuva caíu não foi bastante para amaciar o rigor dos dias e menos ainda para anuviar a gélida transparência das águas rápidas do rio. Quando assim era, só mesmo o tremeluzir metálico de uma amostra de pintas garridas podia atiçar o apetite aletargado de alguma truta. Anos havia em que as súbitas enxurradas tomavam as águas com o terriço escuro das encostas e nada melhor que o oscilar dengoso do rabo de uma minhoca a roçar as pedras do fundo. Era isco garantido para compor a cesta. Se o rio clareava, à míngua de água, e o sol da Primavera cumpria a obrigação, empatava-se um anzol de tamanho apenas bastante para empalar duas remisgas, desalojadas de dentro dos seus casulos cravejados de areias finas, ou das croças redondinhas, de pauzinhos eriçados. Longe vinham ainda as tardes abafadas do fim de Maio, quando a zanguizarra dos grilos, que se punham a afinar a caixinha de música à porta dos buraquinhos, fazia dos lameiros um arraial. Os tolinhos deixavam-se apanhar a meio do concerto, cegos pela lascívia de atrair as fêmeas, para depois dançarem sobre a água, pendurados do anzol pelo colarinho negro do fraque. Tal bailarico endoidava as trutas, que, se preciso fosse, saltavam fora a abocanhá-los antes mesmo de tocarem na água. E, por fim, chegava o tempo dos saltões de ventre verde reboludo e patas dobradas em mola, que tantas vezes, por culpa daquela irrequietude saltarica, acabavam a empanturrar as trutas velhas, entrincheiradas a meia água, na penumbra escura, por debaixo da rama fresca dos amieiros. Meses bons, os da fartura! Mas, por agora, e enquanto o tempo se mantivesse assim áspero, o jeito era bater todos os cantos do rio, os remoinhos detrás das pedras e o final remansoso das correntes, armar-se de paciência obstinada, lançar mil vezes, corricar outras tantas, trocar de amostra, ou de medalha como lhe chamava o Manolo, até que alguma se resolvesse…

 

          Já perto da noite, enquanto acrescentava um caneco de água quente à vianda do reco, que recozia no pote grande suspenso da gramalheira, batatas miúdas, restos de couve troncha e dois punhados de centeio, a Conceição começou a agoirar a demora do doutor Teófilo.

 

          - Olha lá, Manuel, está-me a fazer espécie que o senhor doutor ainda não tenha passado para cima. Queira Deus, queira, que não lhe tenha sucedido nada…

 

          - Vão sendo horas, vão. Mas há alturas em que elas caiem melhor rente à tardinha e, se calha, ele nem se dá conta que depressa escurece como breu. Espera-se mais um cibo, e quando tal, o melhor é eu ir saber dele.

 

         

 

O ruído sibilante do petromax fazia companhia ao Manuel que, apesar de conhecer as voltas do rio como a palma das mãos, caminhava cauteloso, conforme o clarão da chama lhe ia desvendando as árvores e as fragas que desenhavam a margem. À medida que avançava, ia dando berros e apurando o ouvido, na esperança de escutar resposta que lhe devolvesse o ânimo. Mas do doutor Teófilo nem sinal. Quando, ao fim, deu com os olhos no vulto, caíu-lhe a alma aos pés! Estava sentado sobre uma urze, tolhido de frio, ensopado até aos ossos, e tremia que nem varas. Chamou-o pelo nome, mas não dava acordo. O tremedoiro dos dentes castanholava que metia aflição. Rápido o pôs às carrachulas e, apesar do carrego que quase lhe fazia deitar os bofes pela boca, dali a casa foi num pulo.

 

          - Conceição, bota umas carqueijas no lume e vai saber de umas peças de roupa minha, que vejas que lhe sirvam! Vá, mexe-te!

 

          Deitou-o no escano e foi-lhe tirando a roupa molhada enquanto a mulher não voltava. Cobriu-o com a manta e chegou-lhe um copo de bagaço à boca.

 

          - Beba, senhor doutor, que não há nada melhor para aquecer o corpo.

 

          Aos poucos, o calor do lume crepitante confortou-o e começou a querer balbuciar palavras sem nexo. A Conceição voltava com uma camisa de flanela, umas calças e uns carpins de lã e já o doutor Teófilo pedia uma malguinha de caldo quente.

 

          - Ora, assim já é outro falar. Para susto já nos chegou!

 

          - Vocês desculpem lá este transtorno. Conforme embarrei com o cacifro na barriga de uma fraga, desequilibrei-me e caí ao fundão. Encheram-se-me as galochas com água e já me custou sair do rio. A cana e o carreto devem estar engastalhados na rama de algum amieiro. Quando te der jeito, Manuel, dá lá um salto a ver se os encontras, que tenho estimação neles.

 

          - Esteja sossegado, que amanhã, em sendo dia, já aparece tudo.

 

          - Oh senhor doutor, nem assim se lhe esmorece o vício? Razão tem a sua senhora, que isso é desassossego para lhe durar a vida toda!

 

          - Também tu, Conceição? Deixa-me lá rapariga, que daqui em diante é que ela me vai moer o bicho do ouvido, ainda para mais se o vier a saber por ti, que bem se vê que estás mortinha para lhe levar a novidade.

 

          - Não deixa de lhe ser bem feito. Agora que já lhe dá para a risada, ouça lá esta: o senhor doutor nunca ouviu dizer que não se apanham trutas com as barbas enxutas?

 

 

Herculano Pombo

27
Ago11

Pecados e Picardias - Por Isabel Seixas

 

Anda cá Flavinha  …Queres ir á festa?…


(…)


Tão nova e já tem manias , vais d´ anjo sim senhor há lá coisa mais bonita , ir atrás de um andor de Nossa Senhora da Aparecida.


(…)


Tu não sejas malcriada, olha que eu ainda sou capaz de te dar uma estalada.Ai…E a banda atrás a tocar a compasso, agora até há cavalos a abrir a procissão, tomara eu ainda ter idade…


(…)


Tu que dizes rapariga?!!! É decerto mais bonito os vossos tremedouros a dançar à maluca meias despidas ou mal vestidas, com arganeis nesse nariz e língua para não “esfuçar”, com essas músicas de ensurdecer e pôr a gente mouca…


(…)

 


Qual não está lá gente da tua idade onde estão então metidos?


(…)


Quem disse que só vais à noite, vais de tarde e vais mesmo, vais ver como vais gostar, depois ficamos ao arraial e fazemos um jogo de roda…


(…)


Há sim senhor rapazes e raparigas da tua idade e as bandas bem tocam  não vês a Vanessa como toca bem naquela corneta fininha, assim dá gosto, se os teus pais fossem da minha ideia ias era aprender a tocar na banda, mas agora já não mando nada…


(…)


Está calada , anda mas é daí , comer as minhas amigas lá nos dão senão comemos cavacas e doce da Teixeira, pode ser que até o Inácio da ourivesaria nos convide para uma cabritada…


  Isabel Seixas

26
Ago11

Discursos Sobre a Cidade - Por Tupamaro

 

 

 

“MEMÓRIAS  da  GRANGINHA”

 

 

 

Mal o sol se levanta por trás do Castelo de Monforte logo o brilho dos seus olhos alumia e aquece a varanda da casa da Tia Maria do Campo.

 

Do lado desta a quem o sol deixa o último olhar antes de adormecer, a Amélia da Tia Maria do Campo pedala com firmeza na sua máquina de costura Singer, alinhando com toda a habilidade e presteza o tecido por onde a costura tem de ser feita.

 

A Laurinda chegou ofegante. Cuidar das galinhas, dos coelhos e dos recos fê-la atrasar um bocado. Mas já estava ali para pespontar as saias que a Amélia iria rematar e entregar a tempo e horas às clientes.

 

A Tia Aurora cumpre o ritual diário de dar de comer às pitas e passa meia hora a berrar com elas como se estas fossem culpadas dos bicos-de-papagaio que a trazem sempre atanazada.

 

A Tia Quinhas ralha com os burros, ainda refastelados dentro do palheiro da eira, prometendo-lhes um arraial de porrada logo que o Tio António Guarda volte do serviço.

 

A Elisa, com a desculpa de ir à «Pipa» buscar um cântaro de água, demora-se debaixo da figueira da eira a espreitar para o Alto do Cando a ver se vê a sombra do Jurel.

 

A resmungar com a sachola que leva ao ombro, o Tio Zé Lita desengonça-se, a caminho da «Lama».

 


Na curva da Casa Nova já se dá conta da chegada do Aníbal do Treno, pelo chiar do carro puxado por um burreco e pelos responsos que dá à mulher, desde que saiu das Casas-

-dos-Montes.

 

A Teresa do João Carteiro chama pela Hermínia, que só pensa na brincadeira, lá no CAMPO, em vez de entreter as irmãs mais novas.

 

O sr. Pinho, depois de beber umas goladas boas da água da «Pipa», senta-se ao fundo das escadas da casa da Tia São enquanto o seu enorme rebanho de cabras rapa as paredes. Com aquele jeito especial de pastor, assobia e chama umas cabritas. Muge-lhes o leite e dá para o Luisinho da Tia São uma caneca cheia.

 

 

A Tia Luísa Chardas solta a burra no pátio, carrega um braçado de lenha para acender o lume e vem sentar-se à porta, no cimo das escaleiras, guardada da rua pelo muro de pedra que até lhe serve de varanda, donde pode ver toda a gente que vai ou que vem do tanque, da fonte, da “Sobreira” ou do “Valcoelho”.

 

Pela fresca das tardinhas de Verão, deixando a cidade, atravessa a “Fonte Nova”, escala o “Monte da Forca”, ganha alento na travessia do “Pedrete”, sobe a ladeira das “Carvalhas” e vem tecer louvores à «Pipa» o sr.  José Valtelhas.

 

Deixava-nos espantado o apreço que este “senhor da cidade” manifestava pela NOSSA ALDEIA!

 

Estamos em crer que a sua inseparável bengala lhe servia de carruagem de luxo a fazê-lo chegar ao rincão do seu conforto.

 

A Tia Olinda prega os sermões diários   -   matutinos, vespertinos e «humorinos»   -   ao Lelo e ao João,  sempre que vai para o “Val’ da Cabra”, para a «vinha» ou à Fonte, ou quando de lá chega.

 

 

 

A Alice do Treno passa o dia a recomendar à Judite para ter cuidado com o sol, e ao Luís para não sair do quinteiro.

 

O Mário e o Júlio desafiam o Luís da Tia São para correr uma «Volta a Portugal em Bicicleta» ou ir a uma “corrida de grilos”.

 

Pegam nuns arames e constroem um guiador; atam-lhe dois frasquitos, cheios com água da «Pipa»; correm CAMPO acima, passam pela Sobreira, atalham pelo monte e pelo giestal do Picholeto, vencem o prémio da montanha no “Alto do Cando”, descem em louca velocidade até ao “Carvalho” e sprintam doidamente até à «Pipa», onde cortam a meta, a sede e o cansaço bebendo grandes goladas de água fresquinha e levezinha.

 

Para a “corrida dos grilos”, tradição deixada pelos romanos quando por aqui andaram (claro que estes faziam corridas com quadrigas, mas quem não tem cavalos corre com grilos!), iam às caixas de costura da mãe Teresa, os dois irmãos; à da prima Jesus, o Luís da Tia São. Desenfiavam as agulhas e rapinavam um dos “carrinhos de linha número 30. Rebuscavam todas as tocas de grilos que houvesse no CAMPO. Com as agulhetas de pinheiro esquiçavam  os cavalos, quer dizer, os grilos, para os apanhar à saída da toca. Se teimassem em não sair, aplicavam-lhes a dose certa de uma mijoca, que era remédio santo!

 

 

Dos calondros faziam os carros de bois, quase parecidinhos com os “carros de corridas” romanos. 

 

Pelo pescoço ou pelas patas, desde que se lhes desse um nó, lá se prendiam as «quadrigas» de seis ou sete (ou os que calhassem) grilos.

 

Riscos, de partida e de chegada, feitos na terra poeirenta do caminho de carro de bois, do CAMPO, contava-se até três e …

 

Ah! Grilos de um raio!

 

A agulheta de pinheiro transformava-se logo no açougue (látego) do Ben Hur e de Messala,  incitando os grilos a correr a galope.

 

O Mário, o Júlio e o Luís da Tia São, imitando o Charlton Heston … ou o Tio António Guarda, bem gritavam e berravam  com a «griliga».

 

Mas qual quê!

 

Os marmanjos só sabiam dar saltos e mais saltos. A torto e a direito. Prà frente e pra trás.

 

Ensarilhavam as linhas. E, às vezes, libertavam-se delas. 

 

Os carros tombavam. Soltavam-se-lhes as rodas. Partiam-se-lhes os cabeçalhos. Os eixos esfrangalhavam-se-lhes.

 

Os artísticos pedaços de calondro desfaziam-se em mil pedaços!

 

A Teresa do João Carteiro e a Avó do Luís da Tia São chamavam-nos para a ceia.

 

Eles não ouviam.

 

 

A Avó do Luís e a Teresa do João Carteiro gritavam para o neto e para os filhos irem comer.

 

O entusiasmo da corrida tornara-os moucos e tirara-lhes a fome!

 

Então, só quando viam uma vergasta no ar é que aqueles “gabiruns” desatavam a correr para casa.

 

Uns cascudos da mãe e uns “azoutes” carinhosos da Avó eram as coroas de louro com que aqueles três “galferros” saíam premiados.

 

Depois, chegado o luar de Agosto, as famílias punham-se à porta de casa a apanhar o fresco, em plácidas conversas.

 

Eram lindos os dias e as noites da MINHA GRANGINHA NATAL!

 

Tupamaro

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