Palavras colhidas do vento... por Mário Esteves
O Ary regressou do Rio Grande do Sul para os tachos de um dos muitos restaurantes e casas de pasto de Chaves, nesta época a mudarem a cor da contabilidade, que desceu dos falsos onde no resto do ano vivem ou subiu da cave onde sobrevivem.
Nos dias de feira disputam-se lugares, como no casino, sítios às mesas ou às máquinas de tavolagem.
Casino que é agora o mesmo que a torre da igreja da paróquia ou a torre de menagem do castelo de Chaves ou de Santo Estêvão, omnipresentes no passado, e também guias de romeiros ou viajantes.
De tal modo, se o nobre fidalgo, D. Quixote, e o seu celebrado companheiro de andanças, Sancho Pança, trocassem os páramos de Castela e a Mancha, ou as terras de Extremadura, e campeassem pelo veiga de Chaves, na vez do célebre: “… con la iglesia hemos topado, Sancho…”; exclamaria: “…con el casino hemos dado…”
O nosso amigo Ary, a par das panelas e se dedicar à generosa obra de recompor estômagos alheios, faz férias na terra natal, descansa a legítima, vigia mais de perto a administração de uns apartamentos no Algarve e quando a saudade gaúcha lhe oprime o peito, obriga o patrão a comprar carne de vitela de primeira e faz um assado…
Só falta o chimarrão!
Pelo meio ainda tem tempo, para debitar solenes brocardos, réstias de uma licenciatura em direito, inacabada, e uns tímidos trinados, temperos que pairam das comidas fumegantes, cibos de um afecto antigo e sempre presente pela música, que o levou a ter aulas de canto e gravar um CD, que empresta, entre tímido e orgulhoso, a quem mais dele se aproxima e tem trato amistoso.
Apesar da aparente desfeita de não poder usar a beca ou a toga doutoral, ganhou foros na cozinha, património quanto baste, um lindo lugar para viver em boa parte do ano, e no resto, entre as gentes das caldas, o regozijo, de verem melhoras na saúde e o apetite recobrado.
Bem-vindo Ary!
Como bem-vinda é a amiga Anne, professora de filosofia em Paris, que visita Chaves, todos anos, por esta altura. Mulher de meia-idade, cabelo louro aparado curto, pele trigueira onde resplandece o sol do entardecer. Dona de uns olhos azuis aquosos e lábios suaves, como escarabunhas de romã e um sorriso sereno e acolhedor.
Numa das pequenas conversas, que mantemos às refeições, de mesa para mesa ou quando nos despedimos no final, deu para entender quanto gosta da profissão e o seu desânimo actual.
“E em Portugal, como é ser professor?”
Respondi, que provavelmente, o mesmo que em França.
Foi então, que ela, mantendo o sorriso perene quando fita alguém, pela primeira vez mostrou ligeiras rugas na fronte e sombras pairaram sobre o azul-marinho dos olhos.
“Ah! A educação dos jovens … e os pais?” - suspirou.
Como lhe era visivelmente desagradável, passou a falar de como gostava da cidade, das pessoas, da comida e do prazer que tinha de aprender e falar a língua portuguesa, o que já fazia muito bem, sem sotaque e pronúncia perfeita, embora por vezes não compreendesse uma ou outra palavra ou expressão. Denotava atenção e estudo.
Ironicamente, mesmo ao lado, uma família de emigrantes portugueses em França, abjurava da língua natal.
Quando saí do restaurante, ainda com a imagem da encantadora Anne na mente, dei por mim a recordar o valente pontapé no rabo, que levei do doutor Ângelo e que me fez projectar directamente para o passeio, sem pôr os pés nos degraus exteriores do baixo que dava para a rua Direita, onde ele e o irmão – este no compartimento contíguo e interior -, davam explicações de matemática e física.
Por coincidência no mesmo instante passavam os meus pais. O doutor Ângelo empalideceu.
Os meus pais sorriram, condescendentes e disseram-lhe: “Não se preocupe, certamente foi porque o mereceu.”
Só muitos segundos depois, o antigo veterinário municipal, conseguiu balbuciar:
-“ Este rapaz é muito inquieto e desatento…”
Logo de imediato e como se estivesse a percorrer com os dedos fichas de arquivo, surgiu o doutor Costa, e um famoso estalo que dele levei – digo famoso, porque estou sempre a repetir a história -, numa aula, desta vez sem razão que o justificasse. Quando o doutor Costa se apercebeu, da injusta punição, consolou-me:
-“ Deixa lá, rapaz, na próxima diz que tens um de crédito!”
Não demorou muito que o feitio azougado e a vontade infantil de ser gracioso, me levasse a fazer qualquer maroteira, pois podia o professor esquecer-se…
Quando a fiz, já o doutor Costa tinha a mão no ar… Eu, já descrente da escrituração contabilística do vice-reitor do Liceu Nacional de Chaves, consegui dizer:
- “ Sô doutor, tenho um de crédito…”
A mão fechou-se em punho e apenas recebi um ligeiro toque com os nós dos dedos na cabeça.
- “ Agora, já sabes, estamos quites!”
Mário Esteves







