O Homem sem Memória (62) - Por João Madureira
Texto de João Madureira
Blog terçOLHO
Ficção
62 – E o namoro começou a seguir o seu caminho. Mas toda a obra humana tem sempre os seus encómios. Motiva sempre o seu contrário. Os seres humanos nisso são exemplares. O ciúme triunfa sempre por cima dos outros sentimentos. As relações humanas são uma espécie de guerrilha urbana. Luta-se sempre contra um inimigo difuso e fugidio. E nessa luta ninguém sai vencedor. O que se pretende é infligir o máximo de danos possíveis ao putativo inimigo.
Numa pequena cidade de província tudo se sabe, tudo se comenta, tudo se condena. E o namoro de uma rapariga interna de um colégio com um rude barrosão, pobre, e, ainda por cima, estudante de seminário, deu logo nas vistas. O pai da Graça, com vários amigos na cidade, foi de imediato avisado do desaforo. Devido ao melindre da situação da filha resolveu vir num fim-de-semana espiá-la. Enfiou-se clandestinamente numa pensão perto do colégio e montou o cerco. Por sorte, a sua vigilância coincidiu com o período menstrual da filha que, devido aos achaques, nem sequer saiu da cama. Regressou a Tourém menos apreensivo. Mas nas mulheres nunca confiar. Depois de várias diligências realizadas entre rapazes amigos, incumbiu dois ou três de se manterem vigilantes e de lhe comunicarem o desenrolar dos acontecimentos. Disso deu conta à sua mulher que de imediato se pôs em contacto com a filha para a informar que andava a ser vigiada por uns camafeus amigos do pai. Ela pôs-se logo em guarda e resolveu dar conta ao José do cerco que à sua volta se estava a montar. Preveniu-o que a rapaziada que a vigiava a expensas do pai era vingativa e pouco escrupulosa nos procedimentos. Metiam o aço de uma navalha de ponta e mola no buxo de um individuo ainda com mais facilidade do que botavam abaixo um copo de tinto do Douro.
O José ouviu o que tinha a ouvir e, como não era rapaz temerário, resolveu usar como trunfos a seu favor um ou dois amigos discretos, pois mais não tinha, e estabeleceu, por sua conta e risco, uma rede de informação para despistar e ludibriar a equipa contrária. A cultura e o bom senso principiaram a dar os seus frutos e a sobrepor-se à verborreia e à boçalidade masculina dos rufias.
Começou a namorar longe da cidade, utilizando os transportes públicos, em lugares recônditos, ou no escurinho do cinema. Quanto mais o perseguiam mais desfrutava dos momentos furtivos que ele e a namorada passavam juntos. Um olhar sabia a uva moscatel, um beijo a pavia suculenta e uma carícia mais avantajada a maçã reineta. Sentia-se um herói romântico, uma pessoa vítima dos preconceitos sociais, um amante sério e deslumbrado. Escrevia poemas densos de amor perseguido, cartas repletas de alusões políticas e religiosas e lia livros cada vez mais perigosos. Via-se que a Graça, apesar de viver debaixo de alguma pressão, também se sentia feliz. Cada momento passado em comum era intenso. A adversidade no amor tem destas coisas, põe mel no lugar do fel.
Quanto mais o perigo rondava mais a ousadia dos seus gestos amorosos aumentava. E chegaram, mesmo sem premeditar, a vias de facto. Soube-lhes pela vida.
“Estás arrependida?”, perguntou-lhe o José. “Ninguém se pode arrepender de se sentir humano”. “Amo-te!”, disse o José corando ligeiramente. “Também eu te amo!”, respondeu-lhe a Graça sem corar nem um bocadinho.
E novamente se amaram como quem colhe os frutos mais suculentos de uma árvore.
63 – Se é verdade que o José, com muita pena, foi o primeiro a abandonar Montalegre, o resto da família não perdeu pela demora. O seu pai ...
(continua)



