Intermitências - O Toque de Midas
O Toque de Midas
“Combinando os polímeros, "plástico" presente no camarão e na lagosta, com células estaminais é possível reconstruir osso e cartilagem, explica Rui Reis, investigador da Universidade do Minho e vencedor do prémio carreira George Winter Award, principal distinção europeia na área dos biomateriais.”
In Diário de Noticias, 15/09/2011
“O hematologista e investigador alemão Gero Hüetter está em Portugal para contar aos estudantes da Universidade do Porto como curou do vírus da sida o norte-americano Timothy Brown, que está há quatro anos e meio sem vestígios da doença”
In Lusa, 16/09/2011
“O último livro de Stephen Hawking, em co-autoria com Leonard Mlodinow, apresenta a Teoria M, a tese que supostamente explica toda a mecânica do universo, a base de tudo o que existe”
In Diário de Notícias, 17/09/2011
Será que a ciência já provou que Deus não existe? A verdade é que há cada vez mais defensores da tese, como Stephen Hawking, e investigadores a alargar, a cada dia que passa, os limites do conhecimento humano além do imaginável… Ler uma revista científica internacional – como a “Nature”, a “New Scientist”, a “Wired” ou a “Science” – provoca os mesmos arrepios e aperto no estômago que andar numa montanha russa. Estando um pouco atentos, somos surpreendidos diariamente por relatos de feitos incríveis na ciência. Basta dizer que os recortes noticiosos acima transcritos foram recolhidos em três dias consecutivos, nos quais seleccionei a notícia que mais me despertou a atenção em cada dia. Embora muitas vezes me questione se muitos relatos não serão ficção científica fabricada para inspirar realizadores de cinema, construir uma reputação ou obter um qualquer benefício próprio ou institucional, faço por cair na realidade e pergunto: até onde poderemos chegar?
Recentemente, um engenheiro mecânico de Carvalhelhos (Boticas) que lançou um livro sobre o confronto ciência/razão – intitulado “Livro de Deusar” – disse-me estar convicto que a religião irá desaparecer definitivamente quando conseguirmos combater a morte, já que deixaremos de precisar de Deus. A nossa alma não iria ter dificuldade em encontrar outro suporte emocional. Esse autor, Fernando Macedo, afirmou mesmo não ter qualquer dúvida que esse dia chegará, não na geração dele, mas chegará...
E ao mesmo tempo que a ciência tenta alcançar a imortalidade, estou convicta que o Homem acabará também por assegurar a sobrevivência da espécie e do planeta, mimando-o com acções de limpeza “eticamente responsáveis” e um fenómeno comercial “moda verde” à escala global. Os chineses lá serão convencidos, agitando-lhes muitos dólares verdes e reciclados à frente ou deixando-os eles próprios ceder à sua obsessão de copiar tudo o que é ocidental e, logo, “civilizado”. Já não falta muito para vermos o slogan “cuide de si e do seu planeta” tornar-se um negócio altamente rentável e bem cotado na sociedade capitalista, que até à data ainda não conseguiu converter todos os lobbies, interesses e vícios incrustados do “Big Money” ao “green business”. Certo é que já vem a caminho a geração seguinte de empresários com palavras de ordem como “eco”, “bio”, “saudável” e “sustentável” e algum capital para investir na investigação científica ambiental, mas nem tudo será assim tão “natural”… Neste mundo, tudo tem um preço.
Mas mesmo que a ciência consiga um dia assegurar a imortalidade do Homem e da Terra, seremos capazes de deixar de acreditar num Ser Superior com um toque de Midas? Admitindo que a dor física e a morte sejam eliminadas de vez pela ciência, não deverá ser tão fácil eliminar as maleitas da alma… Imaginam-se a viver eternamente neste mundo? Irão os cientistas encontrar um medicamento para o “mal de existir” que todos sentimos, uns mais que outros? Que ciência há para os neuróticos como Florbela Espanca e Jean-Paul Sartre ou para os inadaptados como o poeta Mário de Sá-Carneiro, que desistiu de viver com apenas 25 anos? Haverá teoria para o vazio, o absurdo e o cansaço existencial? Quem é o Midas que vai transformar em ouro as amarguras, mágoas, desilusões, tristezas, injustiças e desigualdades de uma sociedade consumista, cada vez mais individualista e esvaziada de humanismo?
Hoje Deus é, muitas vezes, o único que ampara as lágrimas dos idosos inseridos numa sociedade que não tem tempo para andar a levantar “fardos pesados”. A eterna desilusão com a malfadada existência é tal que, aos 90 anos, o pintor português Cruzeiro Seixas acredita que depois do Surrealismo, nada mais existe para inventar, nem sonhar, na arte. O Homem já se atreveu a tudo e esgotou as fontes de inspiração; Dalí e outros talentosos seguidores deliraram tanto que hoje "estamos todos desesperados à procura de uma ideia nova", diz Cruzeiro Seixas.
Então a quem poderemos recorrer se não temos ninguém ao nosso lado, se nem Deus, nem os homens, nem mesmo a arte nos valem? A não ser que a ciência nos consiga anestesiar com uma “dose de felicidade”, o que fazer quando as nossas lágrimas transbordarem uma e outra vez? O que nos convence que vale a pena viver muito, acordar e levantar, enxotar o comodismo, correr, “sentir tudo de todas as maneiras” (citando recorrente e inevitavelmente Pessoa), conjugar a palavra “amor” (em todas as formas e a cada instante), fechar os olhos às tragédias humanas (individuais ou colectivas), sacrificarmo-nos (por nós, por outros ou por uma causa) e continuar a sonhar (em estado permanente) que “um dia, será diferente”? É que além de Criador e “Pai”, Deus é também, em todas as religiões, um símbolo do amor incondicional, da compaixão, do respeito, do perdão das fraquezas humanas e uma panóplia de valores morais universais. E disso o Homem nunca abdicará – e em doses generosas.
Analisando o panorama actual, contra a solidão e o cansaço existencial, a sociedade apresenta o virtual. Os ecrãs de PC e o mundo das relações formatadas já são um novo local de culto, mas nenhuma ilusão, nenhum Midas, nenhuma explicação racional tem acalmado o espírito inquieto e inconformado do ser humano, a não ser a própria relação humana. Ou existe outro sentido para a existência? Talvez Deus precise mesmo de descer à Terra outra vez.
Sandra Pereira






