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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

10
Out11

Intermitências - O Toque de Midas


 

O Toque de Midas

 


“Combinando os polímeros, "plástico" presente no camarão e na lagosta, com células estaminais é possível reconstruir osso e cartilagem, explica Rui Reis, investigador da Universidade do Minho e vencedor do prémio carreira George Winter Award, principal distinção europeia na área dos biomateriais.”


In Diário de Noticias, 15/09/2011

 

 

“O hematologista e investigador alemão Gero Hüetter está em Portugal para contar aos estudantes da Universidade do Porto como curou do vírus da sida o norte-americano Timothy Brown, que está há quatro anos e meio sem vestígios da doença”

 

In Lusa, 16/09/2011

 

 

“O último livro de Stephen Hawking, em co-autoria com Leonard Mlodinow, apresenta a Teoria M, a tese que supostamente explica toda a mecânica do universo, a base de tudo o que existe”


In Diário de Notícias, 17/09/2011

 

 

Será que a ciência já provou que Deus não existe? A verdade é que há cada vez mais defensores da tese, como Stephen Hawking, e investigadores a alargar, a cada dia que passa, os limites do conhecimento humano além do imaginável… Ler uma revista científica internacional – como a “Nature”, a “New Scientist”, a “Wired” ou a “Science” – provoca os mesmos arrepios e aperto no estômago que andar numa montanha russa. Estando um pouco atentos, somos surpreendidos diariamente por relatos de feitos incríveis na ciência. Basta dizer que os recortes noticiosos acima transcritos foram recolhidos em três dias consecutivos, nos quais seleccionei a notícia que mais me despertou a atenção em cada dia. Embora muitas vezes me questione se muitos relatos não serão ficção científica fabricada para inspirar realizadores de cinema, construir uma reputação ou obter um qualquer benefício próprio ou institucional, faço por cair na realidade e pergunto: até onde poderemos chegar?


Recentemente, um engenheiro mecânico de Carvalhelhos (Boticas) que lançou um livro sobre o confronto ciência/razão – intitulado “Livro de Deusar” – disse-me estar convicto que a religião irá desaparecer definitivamente quando conseguirmos combater a morte, já que deixaremos de precisar de Deus. A nossa alma não iria ter dificuldade em encontrar outro suporte emocional. Esse autor, Fernando Macedo, afirmou mesmo não ter qualquer dúvida que esse dia chegará, não na geração dele, mas chegará...


E ao mesmo tempo que a ciência tenta alcançar a imortalidade, estou convicta que o Homem acabará também por assegurar a sobrevivência da espécie e do planeta, mimando-o com acções de limpeza “eticamente responsáveis” e um fenómeno comercial “moda verde” à escala global. Os chineses lá serão convencidos, agitando-lhes muitos dólares verdes e reciclados à frente ou deixando-os eles próprios ceder à sua obsessão de copiar tudo o que é ocidental e, logo, “civilizado”. Já não falta muito para vermos o slogan “cuide de si e do seu planeta” tornar-se um negócio altamente rentável e bem cotado na sociedade capitalista, que até à data ainda não conseguiu converter todos os lobbies, interesses e vícios incrustados do “Big Money” ao “green business”. Certo é que já vem a caminho a geração seguinte de empresários com palavras de ordem como “eco”, “bio”, “saudável” e “sustentável” e algum capital para investir na investigação científica ambiental, mas nem tudo será assim tão “natural”… Neste mundo, tudo tem um preço.

 


Mas mesmo que a ciência consiga um dia assegurar a imortalidade do Homem e da Terra, seremos capazes de deixar de acreditar num Ser Superior com um toque de Midas? Admitindo que a dor física e a morte sejam eliminadas de vez pela ciência, não deverá ser tão fácil eliminar as maleitas da alma… Imaginam-se a viver eternamente neste mundo? Irão os cientistas encontrar um medicamento para o “mal de existir” que todos sentimos, uns mais que outros? Que ciência há para os neuróticos como Florbela Espanca e Jean-Paul Sartre ou para os inadaptados como o poeta Mário de Sá-Carneiro, que desistiu de viver com apenas 25 anos? Haverá teoria para o vazio, o absurdo e o cansaço existencial? Quem é o Midas que vai transformar em ouro as amarguras, mágoas, desilusões, tristezas, injustiças e desigualdades de uma sociedade consumista, cada vez mais individualista e esvaziada de humanismo?


Hoje Deus é, muitas vezes, o único que ampara as lágrimas dos idosos inseridos numa sociedade que não tem tempo para andar a levantar “fardos pesados”. A eterna desilusão com a malfadada existência é tal que, aos 90 anos, o pintor português Cruzeiro Seixas acredita que depois do Surrealismo, nada mais existe para inventar, nem sonhar, na arte. O Homem já se atreveu a tudo e esgotou as fontes de inspiração; Dalí e outros talentosos seguidores deliraram tanto que hoje "estamos todos desesperados à procura de uma ideia nova", diz Cruzeiro Seixas.


Então a quem poderemos recorrer se não temos ninguém ao nosso lado, se nem Deus, nem os homens, nem mesmo a arte nos valem? A não ser que a ciência nos consiga anestesiar com uma “dose de felicidade”, o que fazer quando as nossas lágrimas transbordarem uma e outra vez? O que nos convence que vale a pena viver muito, acordar e levantar, enxotar o comodismo, correr, “sentir tudo de todas as maneiras” (citando recorrente e inevitavelmente Pessoa), conjugar a palavra “amor” (em todas as formas e a cada instante), fechar os olhos às tragédias humanas (individuais ou colectivas), sacrificarmo-nos (por nós, por outros ou por uma causa) e continuar a sonhar (em estado permanente) que “um dia, será diferente”? É que além de Criador e “Pai”, Deus é também, em todas as religiões, um símbolo do amor incondicional, da compaixão, do respeito, do perdão das fraquezas humanas e uma panóplia de valores morais universais. E disso o Homem nunca abdicará – e em doses generosas.


Analisando o panorama actual, contra a solidão e o cansaço existencial, a sociedade apresenta o virtual. Os ecrãs de PC e o mundo das relações formatadas já são um novo local de culto, mas nenhuma ilusão, nenhum Midas, nenhuma explicação racional tem acalmado o espírito inquieto e inconformado do ser humano, a não ser a própria relação humana. Ou existe outro sentido para a existência? Talvez Deus precise mesmo de descer à Terra outra vez.

Sandra Pereira


10
Out11

Quem conta um ponto... Comentários e Doações


 

 

Comentários e doações

 

Não é apenas de finanças que o país anda mal, é, também, de lideranças político-partidárias e governativas. Mesmo os socialistas mais empedernidos sentem que o seu secretário-geral é um erro de casting. Claro que o homem é sério, mas falta-lhe presença, chama e capacidade de chefia. Todos sabemos que não é líder quem quer, mas sim quem desenvolve genuinamente essa predisposição, quem “toca” nas pessoas com as suas palavras, quem emana poder, quem sugere empatia, quem fascina, quem convence e quem consegue ser seguido sem o impor.

 

Vasco Pulido Valente, o colunista mais opinativo e viperino dos media portugueses, arrasou por completo, nas páginas do Público, António José Seguro. Desde logo porque não morre de amores pelos socialistas. Convenhamos, no entanto, que o VPV também não morre de amores por ninguém. Mas, pelo menos, tem a coragem de escrever aquilo que pensa, sem tibiezas, disfarces, meias palavras ou exercícios de retórica. O meu amigo R. é um seu leitor fiel.

 

Uma bela manhã de sábado, entre o alegre e o excitado, o R. citou-me trechos de um artigo do Vasco. Eu, por descargo de consciência, transcrevo parte delas, para que nem ele nem os estimados leitores, me acusem de sectário. Ei-las: “Nunca, em quase 50 anos, conheci um político que se aproximasse tanto de não ser nada como o António José Seguro. Não tem um currículo académico de qualquer distinção. Não tem currículo profissional. Nunca esteve à frente de um grande ministério ou se distinguiu na administração do Estado. E o seu nome não está associado a qualquer grande causa. (…) Em 30 anos de PS raramente se deu por ele. E os socialistas votaram por ele, porque não podiam votar num herdeiro de Sócrates. Até Mário Soares, pela única vez na sua vida, se absteve. E assim ficámos com um chefe da oposição sem uma ideia na cabeça e com um ar irresistível de seminarista. (…) Sucede que (…) Seguro foi apanhado entre um passado impossível e um futuro a que obviamente não pertence.”

 

Reconheço que a última frase é arrasadora. É arrasadora porque encerra em si todo o rigor dramático de um líder que não é querido por quem nele votou e é desprezado pelos seus opositores.

 

O R. também me lembrou, e eu lembro aos estimados leitores, que há gestos e actos que definem uma personalidade. Por exemplo, António José Seguro, contra a tradição estabelecida, indicou o seu próprio nome para conselheiro de Estado. E a eleição pela Assembleia da República é apenas uma formalidade.

 

Nessa mesma manhã de sábado, o F., dividido entre o pastel de carne e a meia de leite, lembrou, e bem, que tanto o secretário-geral do PS, como Pedro Passos Coelho, são o produto de uma “cultura de partido” que tomou conta do nosso sistema político e aproximou a democracia portuguesa duma caricatura. “Actualmente”, disse o F. enquanto mexia o líquido da chávena, “tudo está partidarizado: o funcionalismo, as câmaras, a justiça, o sector público e, para espanto de todos nós, liberais confessos, a maior parte do sector privado.”

 

Eu lembrei que tanto PPC como AJS não possuem carreiras académicas, ou profissionais, relevantes. Ambos e dois cresceram na leira promíscua das juventudes partidárias, que chegaram a presidir. Foi aí, nessa antecâmara do poder partidário, onde viveram, e protagonizaram, rivalidades e intrigas. E é bom que tenhamos presente que AJS foi eleito líder do seu partido com cerca de 15 000 votos e o actual primeiro-ministro com apenas mais uns poucos milhares. E com essa diminuta representatividade, um já chegou a PM e o outro diz ambicionar poder ocupar a mesma cadeira em breve.

 

De repente apareceu o L. e sentou-se ao nosso lado. O bom do L. senta-se sempre com o seu ar de gentelman, honra lhe seja feita. Apercebendo-se do que estávamos a falar, trouxe ao debate a douta opinião de outra comentarista afamada e com reputação de ter mau feitio, que logo de início não acreditava que Passos Coelho tivesse o killer Instinct necessário para um líder, mas a frieza com que o tem visto tomar atitudes fá-la acreditar na nova onda política. Afinal, Maria Filomena Mónica é mesmo uma mulher de ondas.

 

“O seu argumento mais consistente sobre esta governação”, lembrou o L. com o seu semblante de Roger Moore envelhecido, foi o de que Passos Coelho é bonito e que gosta muito do corte de cabelo do ministro das Finanças. Sobre o corte de cabelo de PPC nem uma palavra e sobre a beleza do ministro das Finanças outro tanto. Entrementes, eu pus-me a rememorar e, pretendendo descobrir a opinião de um técnico avalizado, lembrei-me de uma entrevista publicada no jornal I e da resposta do barbeiro Joaquim Pinto, um diplomata da tesoura, que sobre a cabeleira de Passos Coelho afirmou: ‘Acho que poderia ter um corte mais adequado à fisionomia. Talvez ficasse melhor.’ E olhem que ele sabe do que fala, pois o senhor Joaquim cortou o cabelo a Magalhães Mota, Sá Carneiro, Sá Machado, Eurico de Melo e Mota Pinto.

 

Já o professor Marcelo, sobre os 100 dias de governo, expôs este taxativo argumento: “Até agora foi sóbrio, mas correspondendo às expectativas e revelando até agora uma boa forma física que em tempo de crise é notável.” Depois desta apreciação, resta-nos desejar que consiga, o Governo, claro está, os mínimos para poder participar nos Jogos Olímpicos do Brasil.

 

O R., que também gosta de dar um arzinho da sua graça, proferiu: “Na sua última entrevista, o professor Marcelo revelou um dado inquietante. Confirmou que agora está a dormir um pouco mais, entre quatro e quatro horas e meia. E que às vezes vai mesmo até às cinco. O que é sinal de envelhecimento, pois contraria a evolução normal, porque as pessoas costumam começar a dormir menos à medida que envelhecem. Sempre do contra este velho Marcelo!”

 

Estávamos todos nós a digerir a informação prestada pelo R., cogitando se havíamos de chalacear ou de chorar, quando o F. se começou a rir às gargalhadas. O L., de surpreendido, quase cuspiu a pedaço de torrada que estava a mastigar. A maioria dos clientes do café olhou na nossa direcção para se inteirarem do motivo de tal desaforo. E ele, o L., como se fosse autista: “Vem aqui no jornal que António Cabeleira doou, generosamente, 37 livros ao Município de Chaves, todos adquiridos no desempenho do seu cargo de deputado. Agora faz-se alarde de actos tão comezinhos como este.”

 

O R., lembrou, nem de propósito, que ainda há pouco tinha comentado que há gestos e actos que definem uma personalidade. Eu aproveitei a deixa para perguntar ao L. qual o real motivo de tão sonora e inquietante gargalhada. Ele respondeu-me que em política o ridículo mata. “Se ao menos fossem livros comprados pelo senhor ex-deputado”, comentou, “ainda vá que não vá. Agora doar livros que lhe ofereceram dando-se ares de benemérito, anda muito perto do caricato. E que tenha feito disso um facto público, é sinal evidente que a sofreguidão do poder é bem má conselheira. Se o ridículo pagasse imposto… Mas os actos ficam com quem os pratica. Topa-se ao longe que não aprendeu nada com João Batista. A discrição, a coragem e a tolerância, são atributo dos sábios. E a cultura não se compra numa farmácia. Demora anos e anos a adquirir.”

 

João Madureira

 


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