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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

28
Out11

Discursos Sobre a Cidade - Por José Carlos Barros


 

 

A impossibilidade de olhar objectivamente as coisas

 

José Carlos Barros

 

 

 

Apercebo-me de repente, não mais que de repente, que parece ser-me impossível escrever sobre Chaves sem escrever ficção. Não é propositado: é o contrário disso: uma impossibilidade. Não é um artifício literário: é a incapacidade de olhar objectivamente as coisas.

 

Fernando Ribeiro escreve sobre o programa deste ano da Feira dos Santos: leio e sou tentado, assim à distância, racionalmente, a dar-lhe razão. E, no entanto, simultaneamente, apercebo-me da nenhuma preocupação que o caso me suscita. Porque a Feira dos Santos, na minha memória dela, nunca teve programa ou teve programa e o programa sempre me passou ao lado.

 

Apercebo-me de repente, não mais que de repente, que sofro já, irreversivelmente, do síndrome do emigrante. Saí cedo. Os meus regressos são cada vez mais espaçados. E o afastamento levou-me a ser o que julguei durante muito tempo serem os outros com as suas qualidades e os seus defeitos: os que já eram de fora.

 

O tempo passou a devolver-me a cidade de Chaves como um lugar em que a névoa -- não necessariamente o nevoeiro concreto que descia sobre a urbe semanas a fio quando o Inverno começava a insinuar-se -- se misturou à memória até esborratar as fotografias e as deixar em cima das mesas entre o sépia, os vários tons de cinzento e as pinceladas largas de imaginarmos o que terá sido se a realidade não fosse o que é. E a realidade, assim vista de longe, é tudo menos o que haverá de ser.

 

A cidade de Chaves começou por ser a cidade para quem era do mundo rural e a cidade fascinava e desiludia. Mas sempre em grande e em grande estilo: à grande e à francesa: desilusões imensas, fascínios de romance.

 

O que recordo da cidade, o que ainda hoje vivo dela, é essa espécie de concretude feita de ilusão e remorso: magia de ter sido feliz; mágoa de o mundo ser uma esfera tantas vezes fechada contra o seu próprio centro e nos vermos contidos nesse perímetro escuro.

 

Chaves, tal como posso guardá-la, é ainda o lugar onde o cheiro a gasóleo e o mistério da combustão imperfeita se desenhavam no espaço de uma garagem de camionetas de carreira da Auto-Viação do Tâmega. Chaves é ainda a mesa da Sissi com uma taça de vinho branco e meia dúzia de pasteis em dia de feira. Chaves é ainda o sapo do Faustino e o balcão corrido, com um espelho ao fundo, das girafas da Romana. Chaves é ainda as moelas e as imperiais dos Amigos e a orelha cozida do Kambu. Chaves é ainda o espaço lá ao fundo do supermercado onde os melhores rissóis de camarão do mundo custavam três escudos e quinhentos. Chaves é ainda uma garagem com música numa tarde de feriado que nunca mais haveria de repetir-se. Chaves é ainda a escadaria junto à secretaria do Liceu onde subíamos sabendo que era proibido subir a escadaria do Liceu junto à secretaria do Liceu. Chaves é ainda a cobra d'água apanhada fora do leito do Tâmega entre as ervas encostadas à base do paredão. Chaves é ainda a mesa de matraquilhos na Feira dos Santos e a jukebox onde escolhíamos o disco que nos escolhessem. Chaves é ainda, e sempre, o Jardim Público e os plátanos do Jardim e tudo o que essas árvores acolhiam na sua sombra alargada quando a luz da Primavera se estendia contra o sermos jovens. Chaves é ainda o Largo das Freiras quando no Largo das Freiras havia olaias e as suas flores entre o rosa e o púrpura. Chaves é ainda o Sport, o Geraldes, uma tasca de que não recordo o nome porque me recordo de não ter nome nenhum. Chaves é ainda a jeropiga que sabia a petróleo numa taberna que foi derruída para que o progresso tivesse ruas largas. Chaves é ainda a sala dezanove e a escada, debruada a azulejos brancos, que dava para uma porta fechada que levaria, não sendo proibido, para o varandim do ginásio. Chaves é uma noite no Cine-Teatro. Chaves é ainda  a casa do amigo onde ouvíamos a música do comandante Che antes de comermos bacalhau assado. Chaves é ainda a noite a envolver-nos e a fechar-nos desde a Ponte Romana aos Aregos, desde o Tabolado aos Anjos, desde o Santo Amaro a uma taberna da Rua Direita.

 

Não é possível, hoje, imaginar-me preocupado com os problemas de desenvolvimento que se colocam à euro-região, à inexistência de uma verdadeira sala de espectáculos, aos buracos das ruas, à programação da Feira dos Santos.

 

Porque Chaves, a cidade de Chaves, não é para mim, não é possível que seja, mais que uma abstracção. Uma abstracção literária. Uma cidade que não posso deixar de ver pelos olhos do emigrante que sou.

 

Uma cidade que é feita do sol imenso a cair a pique sobre as ruas e os telhados nos meses de Julho. Uma cidade feita de nevoeiro e frio concreto e metafórico.

 

Chaves é ainda, haverá de ser sempre, a cidade a que chegava na camioneta da carreira, criança ainda, a acompanhar o meu pai para se escolher o design de um folheto composto na tipografia que ficava no lugar onde mais tarde haveria de nascer um café moderno que fazia tostas mistas.

 

É assim que os emigrantes vêem os lugares onde se perderam e encontraram. E eu, tempo após tempo, sou cada vez mais esse emigrante que julgava serem os outros.

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