Palavras colhidas do vento... por Mário Esteves
A crónica ou o escrito, como já lhe chamaram, não tem sido publicada todas as semanas e por vezes regressa tarde das feiras e salta das quartas para outros dias, emula o título que as encima, igual ao vento que um dia se faz sentir e noutro não.
Nisto o único culpado é o autor que anda instável, irritadiço com uma dor no ombro, que acerta mais na meteorologia que os meteorologistas.
Mas ainda bem que a dor é no ombro e não no cotovelo, dor assaz comum e pouco cívica, parente próxima da maledicência, pecado a que não sou achacado.
Assim peço perdão aos leitores, ao administrador do blogue e profícuo ilustrador destas crónicas, que, na última e também derradeira fotografia que a encerra, fez um autêntico milagre ao quase ocultar por todo e emagrecer, a figura proeminente do regente da orquestra Amizade, mestre “Cesteiro”, por um microfone e o estreito suporte!
Não te amofines, Fernando!
Nem por isto, nem pelo comentário do Diamantino, que gostaria de reconhecer.
Bem sabes o apreço e amizade que tenho por ti e pelas múltiplas artes de que és dotado, e se ficares um pouco zangado, olha a culpa não é minha… é do vento!
Mas, por favor continua a ilustrar as crónicas.
Bem e como está Chaves, a “nossa linda cidade, pelo Tâmega beijada…”?
Semelhante à economia do País.
Como? – Interrogar-se-ão os inquietos leitores.
Vejamos: buraco no Largo de Camões, buracos na Rua Bispo Idácio, mais antigos, crateras em frente do Palácio da Justiça e entre a Travessa do Loureiro e as traseiras dos edifícios com frente para a outrora Travessa do Olival e do Faustino, e ficamo-nos por estes.
A propósito de como chegamos a esta situação, não aos buracos da urbe, mas aos outros buracos.
Assemelha-se ao que se conta de um comerciante da cidade, que em situação deveras difícil, era assediado constantemente pelos credores, remetendo-lhe cartas e mais cartas a pedir o pagamento das dívidas, ao que ele invariavelmente respondia:
-“ Confirmo os créditos, enviem mais mercadoria …!”
Arredado voluntariamente da imprensa, apenas por instantes ligo a televisão e por pirraça do azar, logo tenho que enfrentar umas das chamadas mesas-redondas, que têm tudo menos circulares, onde uns senhores eruditos debitam brilhantes análises e menos luminosas soluções para a triste e preocupante estado das finanças públicas.
Mas o que mais surpreende nos intervenientes, alguns com responsabilidades governamentais no passado, independentemente da filiação partidária, é o estupor que demonstram, no desconhecimento, que teimam em se preservar, da realidade que hoje deparamos.
Desde logo, lembra uma das estrofes de um poema do insigne poeta espanhol, António Machado, mais tarde utilizada por Chumy Chumez, excelente caricaturista, na revista de humor, Hermano Lobo, com larga circulação em Espanha nos anos sessenta e finais do século passado, e mais restrita em Portugal, e já desaparecida, a comentar a transição do regime autocrático de Franco para a monarquia constitucional do rei Juan Carlos:
-“La Primavera ha venido y nadie sabe como há sido…”
Aproveitando uma anedota de um personagem mítico de Chaves, muito conhecido pelas próprias que realmente existiram e por outras que se lhe criaram, passo a contá-la, sem mais preâmbulos, salvo ser politicamente incorrecta, e menciono isto parar salvar a pele e seguir a corrente, porque não estou para sensibilidades menos afoitas ou mais susceptíveis, e para o caso tanto dá ou tanto monta.
Passeava a ilustre figura no Jardim das Freiras, quando mais à frente vislumbrou o comandante da GNR, recentemente empossado, e a sua magnífica e espampanante esposa.
O que se passava por aquele cérebro atribulado, não sei – mas, tentações leve-as o demo! -, aquilo que aconteceu, foi que o homem ao passar pela dama, não resistiu e deu-lhe para lhe apalpar os opulentos e frondosos glúteos.
A senhora, a fim de poupar um escândalo público ao marido, deu-se por despercebida, mas quando chegou casa, contou ao marido.
O marido mal dormiu nessa noite e apenas aguardava a manhã para tirar satisfações do atrevido.
Ainda a neblina pairava pela cidade e já o militar, envergando o uniforme de gala, batia na aldraba da residência.
Atendeu a empregada e requerida a presença do proprietário da casa, que inteirado dos propósitos pouco pacíficos do molestado, chamou pela mulher, que, estremunhada, desceu, tendo o marido ciciado algo de ininteligível aos seus ouvidos, e depois disse:
- “ Ah! É isso Senhor Comandante!”
E prosseguiu:
-“ Ò …!”. E pediu à mulher que se voltasse de costas.
- “ Faça favor, Senhor Comandante!”
O ofendido, perplexo, rodou os calcanhares e saiu de casa.
Na rua, ainda confuso, deu um passo em direcção à porta que acabava de bater, mas acabou por desistir do intento.
Ora bem, creio que não existem dúvidas, quem são os apalpados no momento presente, apenas resta saber se os culpados estão dispostos a assumir as responsabilidades, que, indiferentemente, assacam a uns e outros, ou então, a sacrificar as esposas, como o nosso protagonista.
Mário Esteves






