Discursos Sobre a Cidade - Por Isabel Seixas
Cemitérios vivos
Olá Pai
Deambulamos agora secas as lágrimas, por entre as campas com o respeito por quem sabemos nos aguarda sem pressas. Há rostos omissos chorados que foram, nas flores que agora são saudade e amor.
As condolências não se deixam afetar pela crise e vêm cobertas de solidariedade ou protocolo como que antevendo a necessidade de alimentar espíritos carentes da presença agora ausentes de corpo.
Alguns morrem mesmo depois de já terem morrido deixando vagos os momentos .
E nós evocamos os nossos sentimentos usados nas ocasiões para atenuar a surpresa fria de morte sem remissão, relativizando os sonhos.
Deixa-me só lembrar-te o tio Vitorino que de uma vida de trabalho fez sabedoria serena, partiu com a leveza dos silêncios deixando a sua história para contar aos netos com a dignidade de quem chegou e disse.
Às vezes ficamos com a sensação de ver mais partidas que chegadas, mas também é das folhas desbotadas , das árvores seminuas de mais um inverno anunciado de ventos indecisos ainda e sem rumo e do frio que desampara os que estão mal agasalhados.
Fenecem ainda os lugares sasonais de mandatos que se extinguem na ilusão dos que acreditam que a mudança é o saber que estava no devir para resolver…
As lutas comezinhas estão a perder sentidos e a deixar a descoberto as estruturas que conduzem ao humanismo e é daqui que regresso ao principio ao teu reconhecimento e aos valores sem preço o apreço pela solidariedade na amizade.
Hoje vejo-te no banco de jardim rei e senhor da tua presença como quem vive seguro e dono nas nossas almas.
Tua filha Isabel
Isabel Seixas



