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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

31
Jan12

Pedra de Toque - A Senhora Marquinhas

 



A senhora Marquinhas



     Durante a minha meninice e até na adolescência conheci algumas senhoras que se davam por tal nome.

    Nas aldeias do concelho sei que existiam muitas mais.

    Vou-vos falar de uma que conheci muito bem e com quem lidei inúmeros anos.

    Era uma mulher espantosa.

    Tinha mãos de fada.

    A melhor costureira de camisas de homem, era procurada pelas esposas dos cavalheiros mais distintos e conceituados da cidade, pela perfeição da sua obra. Uma filha que com ela vivia, perita na abertura das casas, ajudava-a.

    A senhora Marquinhas trabalhava imenso e por isso chegava a recusar encomendas.

    Numa velha Singer a pedal, talhava, colocava as entretelas, cosia, e quando as passava, as camisas feitas à medida ficavam um brinco, um primor.

    A senhora Marquinhas respeitada e estimada, dominava no caroço da cidade, mais precisamente na Rua de Santo António, na Rua do Olival e no então Largo do Arrabalde.

    Frequentava a loja do Reis Pinto, onde adquiria linhas, botões e tecidos e sempre larachava com o senhor Adolfo dono do estabelecimento, bom amigo, bem como com os funcionários que lhe dedicavam simpatia. Entre eles recordo o Cipriano e o Zé Mairos.

    Porque era uma mulher fisicamente frágil (venceu uma tuberculose com os ares de S. Lourenço e ventosas num pulmão que secou) cuidava da sua saúde, seguindo, entre outros, os conselhos do bom amigo Dr. João Morais, clínico distinto, homem de grande coração que, quando subia as escadas para a consulta (dela ou de familiares) não deixava nos dias de inverno de se sentar à braseira para se aquecer e para dar duas de conversa, já que ambos eram óptimos conversadores.

    Subia a rua com frequência em direcção à Farmácia Morais, donde era cliente, e onde tinha duas grandes amigas que a atendiam diligentemente e com afeição e apreço. Lembro a D. Alice Morais e a D. Agostinha Geraldes, esta felizmente ainda entre nós.

    Mais adiante do outro lado da Rua o senhor Tavares, proprietário da Foto Águia, que era coadjuvado pelo Ão.

    Ali levava as filhas e os netos para as habituais fotografias de família, em dia de comunhão solene, na Páscoa e noutras datas festivas.

    Mais à frente a Casa Lopes estabelecimento de tecidos que por vezes visitava, cujo dono, o senhor Lopes, obedecendo ao nome da loja, casara três vezes.

    Também no mesmo ramo perto do Reis Pinto, o Armandinho, comerciante conhecido, que dera trabalho ao seu sobrinho, o jovem Paulo, amigo já finado que com o tio aprendia os segredos do ofício.

    Ao talho do senhor Maneca Pinheiro, mais conhecido por Maneca Sonim, era visita diária. Não ficasse ele no rés-do-chão da casa onde ela residia.

    Bastante mais idosa, por vezes discutia com o Maneca, mas não deixava de o estimar, estima essa que ele lhe devolvia sem limites.

(Vêr nota no final da crónica)

 

    O Silva Mocho, na esquina com o Arrabalde, a grande mercearia na época, era onde ela adquiria todos os produtos necessários para o governo da casa.

    Aí tinha conta, como era uso, mas era recebida sempre com afabilidade pelos donos, Sr. Eduardo e irmãos e pelos funcionários, entre eles o senhor Manuel Ventura que resiste, respirando saúde e boa disposição.

    Mais à frente, na Rua do Olival, a Pensão Restaurante Império, uma das melhores e mais conceituadas da cidade. Frequentava-a, não com muita assiduidade, já que a sua filha, casada com o proprietário, visitava diariamente a casa da mãe onde crescia um filho dela e neto da senhora Marquinhas.

    Muitas outras amigas do peito, com a D. Aurora Leão, a D. Adélia Campos, entre outras, eram visitas da residência dela, onde normalmente lanchavam e conversavam, práticas de então, infelizmente a desaparecerem.

    Eram estas, com maior ou menor precisão as fronteira físicas e pessoais, do “Reino” da senhora Marquinhas, cujo marido por razões de trabalho passava muito tempo fora de Chaves.

    Esta senhora, autodidacta, era uma mulher culta e extremamente inteligente (fina também como então se dizia).

    Com a quarta classe, ouvia diariamente a Rádio (a televisão chegou muito mais tarde) e lia todos os dias, de fia a pavio, o Século, um diário de Lisboa que chegava a Chaves no comboio das vinte e pico.

    Não lhe escapava notícia, artigo de opinião, necrologia e muito menos os folhetins, que eram romances de autores conhecidos e consagrados que o periódico, aos pedaços, publicava diariamente.

    Tinha, por isso, opinião sobre qualquer assunto e esforçava-se para a fundamentar.

    Era escutada e procurada.

    As casas reais da Europa conhecia-as no pormenor, pela leitura do jornal e de revistas com destaque para o Século Ilustrado.

    Redigia muito bem, ajudando pessoas que lhe pediam para escrever cartas.

    Com ela cresceu o neto por quem nutria muito amor correspondido. Ele certamente por contágio, temente das doenças, quando se queixava de pequenas mazelas, ouvia a avó a comentar: “O rapaz de coice de pulga não morre”.

    Quando o neto, já na faculdade, regressava de férias a Chaves e aqui se pronunciava sobre qualquer acontecimento importante, perante outros, dizia sorrindo: “Quem os quer manda-os para Coimbra”.

    Tantos ditos populares cheios de sabedoria e graça que ela proferia…

    De momento já recordo muito poucos.

    Definhou, acabando por extinguir-se, por apagar-se serenamente a treze de Janeiro de 1975, já na casa dos oitenta.

    Não sem antes, lúcida, reiterar as suas dúvidas quanto à veracidade das imagens de televisão que mostraram o homem a pisar a lua.

    Na certidão de óbito, o nome da senhora Marquinhas reza Maria do Rosário Gonçalves Roque.

    Foi a pessoa que me ajudou a crescer que mais me ajudou na minha formação, de quem recebi imensos cuidados e enorme ternura, a primeira mulher que amei.

    Voltarei a ela e ao muito que presenciei e me ensinou e que merece ser contado

     Desculpem-me … Já não consigo escrever mais. As lágrimas turvaram-me a visão.


    A senhora Marquinhas era a minha querida e saudosa avó.



António Roque


Nota: Sempre que posso tento ilustrar os textos com imagens. Neste texto só era possível uma, a que vos deixo, onde se encontra o autor da crónica (ainda criança) à frente da Avó Marquinhas (ao centro) e a mãe (ao lado direito). A outra senhora não me foi possível apurar a sua identificação.

 

Esta imagem só foi possível graças à cumplicidade de um amigo (Rui Queirós) e do Silvano Roque, irmão do autor da crónica. Espero que o autor goste e me desculpe esta surpresa.


Fer.Ribeiro


30
Jan12

Intermitências - Brumas

 

Brumas


Esta manhã as trevas desceram à cidade. A noite gelada cedeu lugar à bruma cerrada que teima em assombrar a terra. Uma bruma tão densa que parece querer condenar as gentes a um sono eterno. E face a esta ameaça, as gentes levantam-se e suspiram frente a mais um dia que será tenebroso até ao fim.


É da serra, dirão uns. É do céu de Deus Nosso Senhor, dirão outros. Ou é simplesmente da vida, malvada, sem explicação, e não se fala mais nisso. Certo é que ninguém merecia esta agressão aos ossos, esta avalanche de arrepios gelados no corpo quente enrolado em camadas de pano. Nestas manhãs, passos largos, olhares de esguelha, sorrisos tremidos, cumprimentos relâmpagos e queixumes entrecruzam-se nas ruas da cidade. Não se apoquentem, que dias mais vivos virão, reconfortam as gentes o pensamento.


- Que castigo este tempo! Porque grito de raiva? Porque tudo é insatisfação? Porque tudo é tristeza? Os que mais amo são os que conhecem o meu lado mais negro, os meus defeitos mais insuportáveis, os meus pecados mais ocultos e os meus pensamentos mais obscuros. É precisamente porque os amo que lhes mostro as minhas brumas. Não faço cerimónias, sou eu só. Quero que ouçam a minha voz interior tão bem quanto eu, mas que me perdoem por isso.


- E quem ama perdoa sempre. Mas há quem sofra mais que outros: são os que amam demais. Amam tanto, dão tanto, que esperam secreta e humildemente uma retribuição, nem que ínfima, desse amor. Uma retribuição que é sempre compreendida, mas nunca saciada porque está fora das capacidades do ser humano.


- Só quero que os que amo regressem... E tu quem és?


Chega a tarde e as trevas não abandonam a cidade. Nessas tardes, o dia parece acabar antes de ter começado. Os queixumes da manhã tornam-se suplícios de condenados. Não se apoquentem, que alguma chama mais viva virá, reconfortam as gentes o pensamento.


As trevas também não abandonam a aldeia, cada vez mais deserta de gente, animais e biodiversidade. Parece mesmo obra do demónio, que enlouquece os “pobres diabos” que restam. “Já falo sozinho... E quando vier a noite como será? Quem me valerá? O lume, o pote, a distracção ou as rezas?”. Certo é que as brumas da alma afugentam mais as gentes do que a bruma serrana. São também mais difíceis de combater.

 

Entre Chaves e Boticas - Janeiro de 2012 - Fotografia de Sandra Pereira

 

- Que castigo este tempo! Porque estou sempre só? Porque ninguém ouve a minha voz? Porque tudo existe se é para ter fim? Os que mais amo não deviam ser envoltos nas minhas brumas, mas não adianta lutar contra elas. Todos os esforços parecem insignificantes, nada é suficiente, só vejo o tamanho dos outros. Será que os outros vêem o meu?


- Quem ama nunca abandona. Ou regressa mais cedo ou mais tarde.


- Só quero que os que amo regressem... E tu quem és?



As trevas sobem agora noite dentro. A cidade desertou. Nessas noites, não tem vivalma e desce à condição da mais humilde aldeia, onde, entre a bruma cerrada, nem se chegam a ver sorrisos tremidos, só cumprimentos relâmpagos de natureza animal e o acenar da vizinha atrás da janela embaciada. Não se apoquentem, que amanhã outro dia virá, reconfortam as gentes o pensamento.


Agora as casas tornam-se ilhas paradisíacas. E numa delas está um homem e uma voz. “Já estou a ficar maluco… E quando vier o dia como será? Quem me valerá? A horta, o pote ou o bagaço?”. Por mais rápido que se corra na vida, fica-se sempre com a sensação de chegar atrasado, coisa estranha...


- Que castigo este tempo! Só sei mostrar brumas, não sei mostrar amor. Nunca ninguém me ensinou e sempre pensei nunca precisar. Quem me deixou ser desgraçado? Agora estou só, tal como sempre estive.


- E continuarás a estar. O amor é “fogo que arde sem se ver”, ou a tua alma nunca te pede poemas quando precisa de acalmar? Se procuras sempre manter-te verdadeiro, então é essa a tua retribuição.


- Só quero que os que amo regressem... E tu quem és?


As trevas entranham-se agora na madrugada. Mas na aldeia, nunca foram as trevas que mais gelaram as gentes. É o tédio, é a inconstância, é o cansaço, e o avanço dos desertos, e as alterações climáticas. “Já devo ter nascido velho… E estas malditas brumas que não deixam ver as estrelas que estão lá no céu a brilhar para fazer companhia à gente! Que castigo este tempo! E quando vier a morte como será?”.


Sandra Pereira



30
Jan12

Quem conta um ponto... O Filisteu na quinta da Anita

 

 

 

O Filisteu na quinta da Anita

As tardes deste inverno de sol tímido dão-me tristeza. Uma tristeza densa e fria como já há muito não sentia. Quando era jovem, por vezes utilizava-as para, em vez de estudar, pôr-me a ler lindos romances de capa e espada. Enquanto lá fora o sol envergonhado nem sequer derretia a geada, dentro de casa, aquecido à lareira, imaginava como eram bonitos e corajosos os heróis dos romances de aventuras, de uma coragem verdadeira, a coragem de quem vence o medo pelo sentido de justiça e aspira a endireitar o que de torto encontra nos quatro cantos do mundo.

Mas depois também penso que quem faz da vida apenas uma enorme recordação não tem grande futuro.

Nos tempos que correm querem fazer-nos crer que os intrujões que estão no Governo são homens bons. Certamente que já o foram. No fundo todos o somos, apenas nos tornamos maus por culpa de alguém que, por sua vez, também se tornou mau por culpa de alguém que, por sua vez, também se tornou mau por culpa de outro. Sim, eu sei. Esta é uma cadeia infindável de culpados, mas sempre haverá alguém que lhe escapa.

O discurso dos nossos governantes é brutal, de uma brutalidade quase insana. Essa brutalidade pretende devorar quem se faz apetecido, o povo, este povo que se vê a caminho do precipício e é incapaz de dizer basta, que prefere falar em voz baixa, fazer pequenos gestos que querem dizer, “por favor, senhores ministros não se irritem, por favor”, assumindo sempre o tom de delicadeza atemorizada dos cordeiros, tentando acreditar que o futuro é cada um de nós sacrificar-se na convicção de que a vida não é feita senão de abdicação, subserviência e lástima. Este Governo brutal é incapaz de fazer melhor porque optou, inexoravelmente, por nos tornar piores.

Desta vez pretendia não vos falar das nomeações que o Governo fez. Mas a indignação tomou as rédeas deste meu escrito e, como muito bem diz o nosso povinho, o que tem de ser tem muita força. Ora pois então.

Dizem os jornais que nos primeiros seis meses de governação Pedro Passos Coelho já nomeou mais gente para cargos políticos do que o primeiro Governo do malfadado José Sócrates. E estão prometidas muitas mais nomeações nos próximos tempos. Ora isto marca um ponto de viragem na austera imagem do Governo. Já bem nos dizia António Aleixo: Os que bons conselhos dão / às vezes fazem-me rir / por ver que eles mesmos, são / incapazes de os seguir.


A cereja no topo do bolo foi a nomeação dos administradores para a EDP. A cangalha é constituída por: Rocha Vieira, um ex-militar ligado ao PSD; Jorge Braga de Macedo, ministro de Cavaco Silva, PSD retinto e histriónico, com certos tiques de esquizofrenia mediática e verborreica; Paulo Teixeira Pinto, ex-secretário de Estado de Cavaco Silva, PSD ilustre, pintor nas horas vagas e poeta nos anos bissextos; Ilídio Pinto, acionista da Fomentinvest, curiosamente a última empresa onde Passos Coelho trabalhou. E ainda a inenarrável Celeste Cardona, antiga ministra da Justiça do governo do PSD/CDS.

Catroga, o homem que não gosta de discutir “pintelhos”, mas adora ganhar milhões enquanto os outros andam a contar os tostões, diz que as escolhas, entre elas a sua, foram feitas porque os chineses já os conheciam. Estamos em crer que sim senhor. No entanto não são estes os únicos portugueses que são conhecidos dos chineses.

Sabemos de ciência certa que todos os trapaceiros acima citados são pessoas com fortíssimas ligações aos partidos da (des)governação. Ou seja, o PSD e o CDS, que gritavam aos quatro ventos o escândalo das putativas nomeações dos “boys” pelo governo do engenheiro Sócrates, duma vez só envia, e pela mão enluvada do primeiro-ministro, para as cadeiras douradas da EDP, um grupo, não de “boys”, mas antes de “old boys”, quinquilharia que, de tão gasta e ferrugenta, devia era ir para abate.

No entanto Pedros Passos Coelho resolveu pagar àqueles “príncipes aposentados” o preço do compadrio, da gestão dos lobbies, da baixa política de bastidores, da subserviência, da mentira, da demagogia, da inoperância, do “amiguismo” e do embuste.

Apesar de me custar, tenho de o dizer, este primeiro-ministro é um intrujão. É um aldrabão porque disse coisas que ficaram escritas e que atestam o seu grau de impostura.

A 14 de julho de 2011, afirmou na reunião Nacional do PSD: “A nossa preocupação não é levar para o Governo amigos, colegas ou parentes, mas sim os mais competentes.”

As nomeações para as “Águas de Portugal” indicam precisamente o contrário. Para lá foram indicadas pessoas de competência técnica mais que duvidosa, mas todos eles com cartão ou do PSD (que se anda a empanzinar de tachos) ou do CDS (que também se anda a fartar à custa do Estado, que diz abominar e pretender destruir).

Em plena campanha eleitoral, o trafulha do atual primeiro-ministro, afiançou para quem o quis ouvir. “Não quero ser eleito para dar emprego aos amigos”. Seis meses após ter ido para o governo já atulhou todos os cargos de nomeações com gente do PSD e do CDS. Mesmo para o Centro Cultural de Belém nomeou o putativo Dante português, Vasco Graça Moura, que até se benzia e cuspia sempre que falava do engenheiro Sócrates e dos seus “boys”.

O burlão do primeiro-ministro, apesar de ter escrito no programa executivo do PSD/CDS que “o Governo compromete-se a despartidarizar o aparelho do Estado”, está a fazer exatamente o contrário. Todos os cargos estão a ser ocupados pelos militantes e simpatizantes do PSD e do CDS.

O filisteu que nos (des)governa, disse ao DN a 27 de julho de 2011 que “quando nos aparecer alguém a dizer ‘são todos iguais’, perderemos o tempo que for preciso a explicar ‘não, não somos iguais’”.

Isto para não falar na tal ladainha de vendedor de banha da cobra sobre o “impensável” corte no subsídio de férias e de Natal, na mais do que “improvável” subida de impostos, no “reforço e melhoramento” do Serviço Nacional de Saúde e da Segurança Social, na mais que “provável descida” da taxa de desemprego, etc., etc., etc., etc., etc. e etc, e etc. e ainda mais etc. etc. e etc. e tal.

O nosso presidente da República, com a sua incomensurável idiotice de gato pardo, tentou fazer-se de coitadinho, caindo no ridículo e perdendo a compostura. Ele que se reformou e se vai locupletando com as benesses de um Estado que ajudou, e de que maneira, a falir, criando um buraco financeiro do tamanho da cratera do vulcão dos Capelinhos. Já George Orwell nos tinha lembrado que todos os animais são iguais, só que há uns animais que são mais iguais do que outros.

As mentiras como punhos que este Governo teima em propalar, de forma vingativa em relação ao seu povo, tornam atualíssima uma quadra de António Aleixo: P'ra mentira ser segura / e atingir profundidade / tem de trazer à mistura / qualquer coisa de verdade.

PS – Tenho de confessar, embora me custe, que desta vez tinha destinado este espaço para escrevinhar algumas palavras de aplauso e reconhecimento ao presidente da Câmara de Chaves pela sua “década de progresso” frente aos destinos da nossa cidade e do nosso concelho. Por desgraça, o chefe do governo da Nação meteu-se ao meio e desviou-me do meu principal objetivo. Prometo que fica para a próxima. Desde já as minhas mais sinceras desculpas.

 

João Madureira

29
Jan12

LÉXICO-GLOSSÁRIO TRANSMONTANO - Letra P

 

GLOSSÁRIO TRANSMONTANO

Registo, significado padrão e referência em uso

dos falares diversos dos povos da VEIGA do TÂMEGA e

zonas limítrofes da TERRA-QUENTE e do BARROSO

P


pachouchadas - histórias e ditos
pães - searas de centeio “Em Março, tanto durmo como faço, iguala a noite com o dia e os pães com o sargaço”
padecer - sofrer
padecimento - sofrimento
palhas-alhas - palha do alho para curar a sarna
palmeiro - do tamanho de um palmo “caçou um cesto de trutas, todas palmeiras”
palóio - espécie de fumeiro tradicional feito de tripa grossa

 

 

Pães no Planalto de Travancas

palouço - tolo, parvo
pamonha - indivíduo pouco expedito
panasca - homosexual, paneleiro
paranheira - pedra da porta do forno
parecenças – semelhanças
parede - muro de pedra solta “as crias esbarrondaram as paredes do lameiro”

 

A poula pode ser pequena ou no meio do monte, mas tem de ficar entre paredes.

 

pariu a galega! - faz um frio de rachar; diz-se também quando se junta muita gente “O que há? Parece que pariu a galega!”
parolice – coisa própria de parolo, “essa roupa é uma parolice”
parolo – rústico, grosseiro
parpalhaça - codorniz (coturnix)
parrana - baixote
parreco - pato

 

Parrecos do Tâmega (do tempo em que os havia)

 

parrogueira - local da cozinha onde se guarda a cinza
parva - pequena refeição no intervalo dos trabalhos
passar ao estreito - engolir, comer “trazia uma larica tão grande, que depressa passou tudo ao estreito”
passar pelas brasas - dormitar “deitei-me no escano, depois de merendar, e passei um cibo pelas brasas”
patamal - patamar, soleira
patorra - cotovia
pau de virar tripas - magricela, franzino
pavia – pêssego duro no tempo das vindimas
peçonha - veneno
pede - merendas (despede-merendas) - flor roxa sem folhas (primavera e outono), (pulsatilla vulgaris) (os trabalhadores agrícolas tinham direito a merenda só na primavera e verão)
pelar – escaldar para retirar pelos ou penas
peles (péis) - emigrantes passados clandestinamente “a salto”
peliqueiro - careto do entrudo, ambulante que compra e vende peles de coelho e outras, passador de emigrantes clandestinos
penca - couve
pensar - alimentar os animais
permisso - consentimento, licença
pernada - tronco lateral de uma árvore “tive que deitar abaixo uma pernada do castanheiro, que me estorvava a passagem”
perpianho - pedra de granito aparelhado

 

 

Um molho de lenha pitada

 

perseguida - órgão genital feminino
pestina (peste) - cheirete, mau cheiro
peto (ê) - mealheiro, caixa das esmolas
pia (dos recos) - recipiente de pedra ou madeira de onde os porcos comem
píbeda - pevide
piça - órgão genital masculino, picha, pénis, (do latim spissa ?)
pica-peixe - guarda rios, (alcedo attis)
picheleiro - canalizador
picho - carrapito no cabelo
pichorra - púcaro de barro com bico
pico - espécie de martelo de ferro, afiado nas duas pontas, com que se picam as pedras das mós
pieira (peeira) - doença dos pés nos animais “as ovelhas, o mais delas anda a mancar à conta da pieira”
pingo - unto, gordura do porco para cozinhar
pincha-carneira - salto com agilidade, jogo infantil
pinchar - dar saltos, dar pinchos
pinheira – espécie de cogumelo, sancha (lactarius)
piorno - tronco grosso da giesta
pirraça - birra “está a fazer pirraça, que não gosta da comida”
pírtigo - peça móvel, de madeira de carvalho, do malho que se usa nas malhadas de centeio
pisadura - hematoma, nódoa negra
pisão - engenho mecânico, movido a água, onde se amaciava e tornava resistente o tecido, mediante batimentos constantes e aquecimento a água
pisoar (apisoar)- bater no pisão “mandei apisoar uns quantos panos de burel”

 

Pitas carecas

 

pita - galinha
pitalho - bocado que os pássaros levam aos filhos, cibo
pitar - partir lenha, partir pedaços miúdos de pão
piteiro - negociante de galinhas, guarda redes pouco seguro, frangueiro
pitilho - cigarro “tens um pitilho que me dês?”
pitos - frangos “Quem olha a milho não bota pitos”
pito verdeal - pica-pau verde (picus viridis)
poalha - poeira fina
pobre de quem nas ouve, quem nas diz fica aliviado! - alusão a pessoa mentirosa ou caliniadora
pocho (ô) - cão
poio - monte de fezes, cagalhão, cagada de pássaro
poldras (pondras) - pedras alinhadas sobre as quais se atravessa o rio
pondoar - floração do centeio, “os pães já começam a pondoar”
porretas(porrelas)-despido “andava no rio em porretas”
por-se nas putas - fugir, desandar, desaparecer

 

 

Dois portelos, um para pessoas outro para animais e viaturas rurais

 

portelo (ê)- entrada de um campo, cancela
por via disso - por causa disso “por via disso é que eu fiquei assim”
porvorinho - remoinho
pôr tento - dar atenção
porto - lugar fundo do rio que se passa a pulo
pote - utensílio de cozinha, em ferro, com três pés, tampa e asa redonda “vê se já fervem as batatas no pote”
poula - terreno em pousio
pousada - conjunto de cinco molhos de centeio
povo - povoação, aldeia “atravessou o povo todo com ela pela mão”
praino - planície
prática - homília do padre na missa
pregar uma partida - ter uma atitude ou comportamento inesperado
prenhada - grávida
prenóstica - presunçosa

 

 

Pucaros de barro preto - Vilar de Nantes


presa - açude, represa
proa - vaidade
prosmeirice - impostorice
prosmeiro - impostor amável “tu não vás na conversa dele, que é um prosmeiro”
puado - com puas, com picos
púcaro – espécie de copo com asa, em barro preto de Vilar
puche - restos de palha moída que a máquina limpadora separa do grão
pular - saltar “os lobos não se astrevem a pular a cerca”

 



Para melhor entender o porquê deste LÉXICO-GLOSSÁRIO TRANSMONTANO, ficou tudo explicado aqui: http://chaves.blogs.sapo.pt/710026.html


29
Jan12

Feira do Fumeiro em Montalegre

Foto de Arquivo - Montalegre - 2003

 

E nas voltas que prometemos dar pela região, hoje, é obrigatório passar por Montalegre, pois por lá está a decorrer uma das feiras do fumeiro mais importantes do país, senão a mais importante, pelo menos, com o gosto barrosão de qualidade que já conhecemos, é única.

As imagens não são da feira, pois infelizmente já há alguns anos que não vou por lá (pela feira) e tenho pena, mas como é uma feira que já tem tradição, a minha visita e o registo fotográfico fica adiado para o próximo ano, mas recomendo uma visita, pois sei que a feira de ano para ano tem vindo a melhorar e se antes já era uma boa feira, agora está pela certa muito melhor.

Quanto às fotos, a primeira é uma vista geral de Montalegre com alguma neve, mas não se iluda com esta, pois a neve não é de hoje, a foto já tem uns anitos. A segunda foto é de Vilarinho de Negrões, no Concelho de Montalegre.


Vilarinho de Negrões - Montalegre - 2012

 

Se é por aqui da região e ler estas palavras ainda hoje, ainda está a tempo de dar lá um pulo, pois a feira só encerra hoje, Domingo 29. Para quem não pode lá ir, deixo o vídeo do hino oficial da feira. Ah pois é, a rapaziada de Montalegre não faz a coisa por menos e quando trata a promover a terrinha e os seus produtos faz das tripas tradição e do fumeiro uma canção e festa.

 

POR FAVOR, PARA VER E OUVIR O VÍDEO, DESLIGUE O RÁDIO NA BARRA LATERAL DESTE BLOG.

 



28
Jan12

Pecados e Picardias - Por Isabel Seixas

 

O senhor fugiu com o olhar como quem evita um mal maior, incrédulo e com sentimento de culpa por ter visto (…), O frio lembrou-lhe que estava especado e era tempo de andar como se houvesse necessidade de movimento, os passos saíram-lhe emotivos e quase gagos de surpresa, instintivamente olhou de novo e confirmou, era mesmo.


Lembrou o primeiro postulado, é a vida, e sentiu o embargo sem saliva misturado de angústia e vazio, engoliu o nada e tentou o retrocesso do tempo…


O casal alheado dentro do carro prolongava o beijo pelo entardecer como quem se prova e degusta num manjar de direitos adquiridos por atração.


Os miúdos riram encolhendo os ombros com caretas matreiras de quem adquiriu a ocasião de ver o imprevisto, o mais velho fez o gesto obsceno que arrancou gargalhadas abafadas na correria.

 

 

 

Um lusco-fusco de perícia protegia agora o casal que usando as liberdades de expressão corporal continuava numa troca de afagos, sem pressa, como quem ativa a mais ínfima sensação e sensibilidade adormecida num despertar em valsa lenta de acordes repetidos.


A mulher despachada para ir fazer o jantar acenou com a cabeça, num parece impossível até num sitio de passagem, bem quis ver quem eram mas um crepúsculo discreto delineava perfis de sombras em movimentos de audaciosa arte para ela de poucas vergonhas .


Fizeram crescer água na boca às sonhadoras que passaram, capturando para os seus desejos recônditos o cenário idílico com sabor a tudo sem precisar de mais, oh que sorte sorriram de inveja pela sobremesa de disputada receita.


Nem o miar de gatos em canções de  cio, nem o fenecer da tarde em   embrião da noite perturbou o ritmo da dança dos corpos num encontro anunciado de harmonia e reciprocidade, cobertos um pelo outro ,como muralhas na defensiva conquistaram o poder de comunicar a linguagem do entendimento cálido ,sinergia do entusiasmo secreto de vitalidade que faz criar e mudar mundos e fundos.


Um vulto com olhares automáticos para trás, numa marcha insegura de perplexidade percorria as ruas num andar por andar.


Surgia indelével a estrela cupido dos necessitados de amor correspondido quando menos se espera…


E a tarde corria para os braços da noite afundando a cidade num fim de dia igual e diferente para o homem, que não queria acreditar que tinha perdido…


Isabel Seixas


 (In Espólio)


27
Jan12

Discursos Sobre a Cidade - Por Isabel Seixas

 

Cemitérios  vivos …

Olá Pai


Agora as saudades são mesmo imagens esculpidas em neblina
As tristezas são frias cobertas de um mutismo impotente, imagina!

As certezas não deviam ser serenas, talvez seguras e ou firmes…
E a cidade observa num horizonte de voltas em rotundas e crises

As pessoas fogem apressadas do tempo, faz de verdade tanto frio
Que todas as vontades têm direção e caminham com ou sem brio

Sentidos aproximam gerações afastadas por serem sempre melhores
Finalmente e envergonhadas, percebem um orgulho pálido com livores

Até os paços do concelho esmorecem da sua insegura e ténue altivez
Dando razão à Romana que se congrega com outras pontes em sensatez

Há noites de tão sozinhas se despem pelos jardins  e sem se esconder nas ruas
Vagueiam ébrias sem perigo de má fama ou mau olhado de quem as veja posar  nuas

Esperam-se amanhãs nem sempre em nascimentos e casamentos bem sucedidos
Mas damos as boas horas na forma protocolar habitual a pensar que estamos vivos

Deixamos o valor da paisagem bela de cinzenta às fugas sem apelação
Bancos de jardim que descansam agora pousados no chão da solidão

E do âmago deste inverno ansiamos por joviais e amenas primaveras
Onde possamos estar todos juntos as vidas com as memórias eternas.

Isabel Seixas


26
Jan12

Uma Foto, Uma Leitura - A Árvore que Há em Nós

 

A Árvore que Há em Nós

Acordei no meio deste trilho descalço sobre uma terra húmida e escura a contrastar com um céu azul, limpo e sem nuvens que se sobrepunha às árvores que o ladeavam. A cada passo, a terra mantinha-se escura e húmida contrastando com o céu, ora azul ora a principiar o que parecia ser o início de uma nuvem, provocando-me uma sensação de conforto misturado com uma inquietação insegura.

Observei ao pormenor o que me rodeava e confirmei que os aglomerados de árvores reinavam naquele vale, cada árvore era ela própria; umas de tronco forte, altas, com as ramificações repletas de folhas vivas e macias com a palete de cores a passear-se desde o verde musgo ao castanho escuro; outras de troncos finos e frágeis, quase nuas com ramificações fracas e carentes de folhas, ou mesmo sem uma única folha. Continuei a caminhar, a terra permanecia húmida, escura e fértil, a cada passo o céu mantinha-se na alternância entre os espaços limpos e os nublados, num degradê desde o branco até ao cinzento. A terra começava a chamar por mim, como se estivéssemos ligados por um elo, caminhei até parar num espaço vazio como se me estivesse destinado, agachei-me e sentia terna, delicada e aveludada, o seu cheiro entrou em mim com uma sensação de conforto, a cada minuto que passava estávamos mais ligados.

Havia em mim uma sensação de dever para com ela, mas não conseguia perceber o quê. Ainda que não tivesse uma bússola, algo me encaminhou até aquele lugar, primeiro pelo trilho principal, depois por uma ramificação que esperava por mim. À medida que o tempo passava naquele lugar mágico, percebia que aquele preciso metro quadrado de terra húmida, escura e fértil me estava destinado e, nesse preciso momento em que tudo se tornou mais claro, senti nas minhas mãos uma semente. Com as minhas próprias mãos, abri um buraco e enterrei-a cuidadosamente no meu chão. Depois de garantir que ficou bem plantada, vi-a crescer, primeiro uns ramos finos culminando numa árvore corpulenta e vigorosa. A cada momento do seu crescimento, o meu corpo começava a ficar translúcido, sem perder a sua forma, apenas a vivacidade da sua cor. A árvore continuava a crescer e eu continuava a perder a minha opacidade, cada vez mais sincronizados enquanto um ganhava forma o outro desvanecia, até ao momento em que a ligação se torna mais forte e, lentamente, o meu corpo foi sugado pela árvore, onde, num momento natural, os dois se tornam num só corpo.

 

 

 

Naquele momento, fui humano e fui uma árvore. Observei em detalhe o meu novo estado, olhei para o tronco que de uma pequena raiz se tornou forte e robusto, para os meus ramos principais que se bifurcaram em pequenas ramificações, umas preenchidas de folhas com cores vivas, outras vazias à espera que se abrisse um orifício que possibilitasse o desabrochar de folhas, flores...de vida. A cada auscultação desta carapaça vi uma passagem da minha vida. Nos ramos cobertos de folhas cheias de vivacidade, como um trailer de um filme, vivi na lembrança passagens alegres, momentos felizes, rodeado da família, amigos e todos aqueles com quem vivenciei passagens venturosas. Olhei para cima e percebi que, onde havia mais folhas, o céu era mais limpo, mais azul, mais cristalino, mais quente, não havendo espaço para as nuvens cinzentas. O combustível que alimentava o meu novo corpo, que fazia crescer as folhas vivas retirando as nuvens cinzentas que cobre o meu céu era tudo aquilo que caminhou, até então, na minha vida ao meu lado. Nesse momento, em que tudo se tornou claro, algo mudou na minha nova fisionomia, houve uma agitação interna, queria perceber o que se passava, mas não podia chamar ninguém, não tinha voz, não tinha como o fazer, não sabia se o queria fazer. Após uns minutos de alguma turbulência, a serenidade voltou e a minha também...só que agora estava de novo fora da árvore.

Era de novo só humano, na forma, porque era também árvore. Do mesmo modo que algo me encaminhara até aquele local, fui de novo direcionado pelo mesmo caminho, mas em sentido inverso, voltando ao trilho principal. Passo a passo reparei nas muitas árvores repletas de folhas, troncos fortes cobertas por um céu limpo e quente transmitindo uma sensação de conforto. Queria ficar ali, mas tinha que caminhar, ainda faltava muito para o meu destino final. As árvores nuas estão cobertas de nuvens cinzentas pautando-se por uma sensação de desconforto.

Continuei a caminhar até chegar ao ponto inicial, vi as marcas dos meus pés bem vincada no início desta incursão. Coloquei os pés sobre elas, olhei para o céu e vi-o repartido entre o limpo azul celeste e o cinzento. Fechei os olhos e sorri ao mesmo tempo que abria os ramos para os frondescer.

Fotografia - António Tedim - http://www.antoniotedim.blogspot.com
Texto - Rui Santos - http://www.cognitare.blogspot.com


26
Jan12

O Homem sem Memória (86) - Por João Madureira

 

O Homem Sem Memória
Texto de João Madureira
Blog terçOLHO  
Ficção

86 – Como dissemos anteriormente, nas quentes noites de estio, o filho do guarda Ferreira, se não tivesse algum bailarico a que ir, estacionava em casa do Fernando e só de lá saía de madrugada. Estimava muito o seu amigo Fernando, mas admirava ainda mais a verve culta do seu ilustrado pai. Então se tivesse já a sua dose de vinho e sandes de vitela, o senhor Carvalho tornava-se um mestre à moda antiga.


Se ouvia uma música dos Beatles, por muito medíocre que fosse, adivinhava-lhe a melodia e trauteava-a com poderes adivinhatórios. Ou seja, depois do primeiro ou segundo acordes, era capaz de alinhar a música como se ela ainda não tivesse sido escrita pelos quatro rapazes de Liverpool. Punha-a logo sobre uma pauta imaginária e solfejava-a como se ele fosse John Lennon ou Paul McCartney em plena composição.


De pé, fazendo tremer a voz e a papada, o senhor Carvalho conduzia a orquestra imaginária com a sua batuta mágica, agitando as grossas mãos, ora lentamente, ora em frenesim, acompanhando permanentemente o compasso da melodia. E chorava.


Quando combinava a pinga e a música, o senhor Carvalho permanecia sempre emocionado. Os seus olhos ficavam rasos de água. E gaguejava e interrompia os seus gestos para afirmar que a música tem o poder de amansar os homens, de ir ao mais profundo de cada indivíduo e o colocar em paz com o mundo e com o seu semelhante. “A música tem o poder divino. A crer em Deus, imagino-o maestro da humanidade, com uma batuta feita de um raio de sol, chefiando uma orquestra de músicos sábios acompanhada por um coro de anjos entoando uma cantata universal, onde as notas musicais são como estrelas candentes. Eu acredito no poder da música. A música inebria os sentidos, exalta o amor, celebra a paz, louva a beleza, proclama a liberdade, diviniza o ser humano, aclama o progresso e apregoa o socialismo.”


Os filhos admiravam-no. Era raro encontrar um homem mediano com a sensibilidade do senhor Carvalho. No entanto, quando estava com um grão na asa, emocionava-se e deixava-se ir das palavras.


Ao contrário da quase totalidade dos bebedores, que têm mau beber, o pai do Fernando tinha bom vinho. Com um copo a mais, transformava-se num poço de melifluidade e cultura. Mas tinha o inconveniente de não conseguir calar o que tinha de calar: a sua paixão política.


Era o senhor Carvalho um republicano laico e socialista, um terno seguidor de Antero e de António Sérgio, um defensor da autogestão e do cooperativismo. Um combatente pela democracia e pela liberdade.


Com um copo de vinho a mais, e uma que outra sandes de vitela assada, o senhor Carvalho ia-se da língua e trazia sempre à liça o socialismo, que era o “nosso futuro”, e o seu “amor à liberdade”, que era a “nossa batalha” mais próxima. Dava muitos vivas à democracia e outros tantos morras a Salazar e ao fascismo. O problema é que no rés-do-chão vivia um engraxador que tinha a fama, e o proveito, de ser bufo da Pide. E com a Pide não era bom brincar.


Mas o senhor Carvalho, mesmo avisado pelos filhos, e pela santa da sua mulher, deixava-se entusiasmar e lá se ia das palavras. Os filhos, para disfarçarem o discurso, aumentavam ao som do aparelhómetro musical e tentavam desviá-lo da obstinação.


Uma das estratégias era arredá-lo da música e puxá-lo para a literatura. O homem gostava de poesia e recitava-a com muito esmero e ilustração. Por mor da azáfama, às vezes chegava a salivar em demasia, aspergindo perdigotos, o que fazia com que os que assistiam à récita e fossem conhecedores do seu comportamento, se colocassem a uma distância estratégica.


O senhor Carvalho recitava Fernando Pessoa, José Régio, Camões, Miguel Torga e outros que tais, como se fosse o próprio João Villaret. E tremendo a papada e elevando a voz, para consolo de todos, dizia gemendo de paixão: “Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces / Estendendo-me os braços, e seguros / De que seria bom que eu os ouvisse / Quando me dizem: "vem por aqui!” (…) Não, não vou por aí! Só vou por onde / Me levam meus próprios passos… (…) Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós, / E vós amais o que é fácil! / Eu amo o Longe e a Miragem, / Amo os abismos, as torrentes, os desertos... (…) Não sei por onde vou, / Não sei para onde vou / Sei que não vou por aí! E a assistência, que era pouca, mas entusiástica, gritava e chorava de emoção.


Era frequente, a meio do recital, pedir à mulher que lhe trouxesse um copo de vinho. Ela, que amava e respeitava o seu marido, para quem os desejos eram ordens, trazia-lhe sempre um copo de tinto servido no mais pequeno dos copos que havia no mercado. E dizia-lhe com carinho: “Não o bebas todo de uma só vez que te podes engasgar.” Ele sorria e lá puxava de outro poema. Por vezes facilitava e pegava num ou noutro texto de Vitorino Nemésio e recitava-o. Evitava fazê-lo na voz anasalada, modorrenta e convencida do poeta açoriano. Dava-lhe ou um registo próprio ou, então, tentava encaixá-lo no estilo de João Villaret.


Mas a verdade tem que ser dita, por muito que gostemos de Vitorino Nemésio, o seu registo poético e declamatório foi sempre muito soturno, pouco entusiasmante. Quase tão incompleto como o seu toque de guitarra. O senhor Carvalho, porque era um homem culto e respeitador, prestava-lhe homenagem, mas a plateia não se conseguia entusiasmar. Ali todos eram fãs do ardente e telúrico declamar do João Villaret.


Os recitais de poesia tendiam a ser curtos, muito por obra e graça da sua estimada esposa, pois o senhor Carvalho, quando se entusiasmava, sobretudo aos fins de semana, tendia a beber um copo por cada poema declamado e, lá para o meio da récita, já as palavras tendiam a sair mais entarameladas. Era nesta altura que se socorria do tal Nemésio, que a todos provocava sono e arrelias. Mas o senhor Carvalho, porque era um homem culto, repetimos, tendia a recitá-lo como se o linguajar do poeta insular se adequasse mais ao registo notívago e vagabundo das tabernas.


Depois da música, e logo após o recital, de novo o senhor Carvalho teimava em dissertar sobre a música e daí a nada estava outra vez aos gritos de “viva a república, viva a liberdade, abaixo o fascismo”. O José quase que sentia no rés do chão o cão bufo a rosnar de raiva e a espumar de ódio.


De novo os filhos e a esposa do senhor Carvalho ficavam em pânico e, por isso mesmo, tentavam levá-lo à razão. O Fernando, que era o estratega da família, puxava então da guitarra e começava a tocar enquanto a mãe trazia mais um copo de vinho dos pequeninos, misturado com muita água. O senhor Carvalho, com o entusiasmo e com a pouca luz da sala, nem dava pela marosca. Ou se dava disfarçava muito bem, como é apanágio dos rapazes bons e dos homens sábios.

 
87 - Era certo e sabido que se o Fernando começasse a dedilhar o fado da Samaritana, o pai, no seu curioso sotaque minhoto, começava a cantar. E cantava tão bem, ou tão mal, como o João Braga, e isso pela singela razão de que ...

 

(Continua)

 




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