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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

10
Fev12

Discursos Sobre a Cidade - Por António Tâmara Júnior


 

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A AMIZADE


Desde algum tempo a esta parte, tenho-me dado conta do ar circunspecto e triste do Tio Nona. Não é apenas por aspectos relacionados com a sua saúde, não! É uma espécie de desencanto, desilusão da vida, das coisas que lhe aconteceram …


Aqui há dias fui fazer-lhe uma visita. Mergulhava nas suas leituras. Desta feita, relia algumas obras de Alberto Alberoni, um sociólogo italiano, que muito aprecia.


Passou-me para a mão três folhas de formato A4, dactilografadas.


Pediu-me que as levasse e que as lesse atentamente. Porque, disse, nestes tempos de crise e de grande desorientação e desvario, urge fazer-se uma pausa e reflectir.


O mundo moderno em que vivemos, - e mostrava-me o livro “A Cultura-Mundo”, de Gilles Lipovetski e Jean Serroy -, construído na base do hipercapitalismo, da hipertecnicização, do hiperindividualismo e do hiperconsumo, em que mercado, tecnociência e indivíduo estão entregues a si mesmos, como organizadores dominantes, e sem precedentes na história, gerando um novo “mal estar na civilização”, faz com que, no dizer de Tocqueville, o homem se sinta “perdido na multidão”, órfão de pontos de referência da sua identidade.


Durante muito tempo – continuou -, o objectivo da cultura foi identificado com a “profundidade da alma, com a vida em obediência à razão”. Ora, esta vocação superior, nos tempos hipermodernos que correm, ficou obsoleta, pois vivemos num mundo dominado pela superficialidade do imediato e do consumível.


Para além do objectivo do a “aprofundamento da alma em obediência à razão” – António -, outra missão à cultura lhe incumbe para o futuro: a de abrir a existência a dimensões diferenciadas, fornecer objectivos, distribuir cartas para que se possam encetar novos caminhos e estimular potenciais diversificados dos indivíduos que não se reduzam apenas à compreensão inteligente do mundo, regressando, desta feita, à função eterna, antropológica, da cultura: educar e socializar os seres humanos, fornecendo-lhes objectivos.


E deixei continuar com a sua prelação.


Hoje a cultura deve fornecer uma multiplicidade de projectos, de experiências e de horizontes de sentido, por forma a criar possibilidades de “mudança de vida”.


A cultura não é contra a paixão. Deve alimentar as paixões ricas e boas dos indivíduos.


Daí a importância de se recentrar o papel da cultura na sociedade e de fazer vir ao de cima determinados temas para análise, discussão e reflexão.


E a problemática da amizade é uma das questões a que recorrentemente temos de pensar e reflectir. Para separarmos o trigo do joio, face aos encontros que no dia a dia nos acontecem e aos projectos que individualmente queremos construir – concluiu.


Não resisto, assim, em deixar aqui, nesta rubrica, que mensalmente assino, aquilo que Tio Nona tinha vertido nas suas folhas sob a designação de “Algumas reflexões sobre a amizade”, mas a que eu, porque se trata de uma abordagem típica da problemática da amizade, mais lhe chamaria “Discurso sobre a amizade”.


Aqui fica, pois, o texto, como forma de partilha com os meus caros leitores.


Que vos aproveite…


(…)


“… Não é nossa intenção aproximarmo-nos… a nossa meta não é transformam-nos um no outro, mas conhecermo-nos um ao outro, e aprender a ver e a respeitar no outro aquilo que ele é: o nosso oposto e o nosso complemento” .


Herman Hess, Narciso e Boccadoro.

 

Na linguagem corrente a palavra amizade tem numerosos significados. Serve para indicar o sócio, o conhecido, a pessoa simpática, o vizinho, o colega, todo aquele que se encontra próximo.


Há, porém, hoje, como no passado mais remoto, um outro significado, o de amigo pessoal a quem queremos bem e que nos quer bem.


É um momento em que sentimos uma forte simpatia, um interesse, sentimos uma afinidade em relação a uma outra pessoa. Se já a conhecíamos há algum tempo, é como se a víssemos de uma maneira diferente, pela primeira vez. Chamaremos «encontro» a esta experiência.


A amizade constitui-se através de uma sucessão destes «encontros», cada um dos quais continua o precedente. A amizade é uma filigrana de encontros. E cada encontro é uma prova.  Cada encontro é diferente, abre uma nova estrada, abre-nos novas perspectivas.


Os amigos encontram-se e renovam a sua amizade através dos encontros.


Se uma amizade é verdadeira, isto repetir-se-á inúmeras vezes.


A verdadeira amizade é aventura, exploração, busca.


E o encontro é em si mesmo um momento de felicidade, de grande intensidade vital. É um momento em que compreendemos algo de nós próprios e do mundo.


No encontro sentimos que a outra pessoa nos ajuda a caminhar na direcção correcta. Podemos senti-lo, mesmo que entre nós não haja identidade de opiniões, mesmo que sejamos diferentes, quer em termos de formação cultural quer mental.


 Pelo contrário, o outro deve ser um pouco diferente. Pois, no encontro, essa diversidade é preciosa, até porque dá uma nova perspectiva. Sozinhos não teríamos seguido naquela direcção. Uma nova perspectiva constitui até uma confirmação da correcção daquilo que tínhamos pensado. Cada amigo, portanto, ajuda o outro a descobrir aquilo que é para si essencial e a aproximar-se-lhe um pouco mais.


O encontro não é reconhecer uma identidade ou semelhança. É apercebermo-nos de que o outro nos completa e que nós o completamos.


O encontro é fazer um pedaço da estrada em conjunto em direcção à própria identidade, em direcção à descoberta daquilo que, para cada um, é a coisa mais importante. O outro está connosco não por interesse ou por cálculo, mas porque é essa a sua natureza, porque deve percorrer aquela estrada.


Do ponto de vista da amizade, são estes momentos de imensa intensidade vital que têm importância. Aquilo que acontece nos intervalos não conta.


Porque na amizade é tão importante o encontro?


Porque é o momento de autenticidade, porque é o aparecimento de um sentido. Embora seja um instante, e dure apenas um instante, abarca (o encontro) a diversidade caótica da nossa vida e dá-lhe ordem, confere-lhe significado.


Cada um de nós é um turbilhão de desejos, como um núcleo ardente no seu centro. No encontro tocamos, de qualquer forma, esse núcleo central de nós próprios. Damos uma resposta aquilo que interessa, que é, pois, a eterna questão: de onde vimos; onde estamos; e para onde devemos ir.


O amigo é aquele que nos faz sempre entrever a meta, e faz connosco uma parte do caminho.


Do encontro com o amigo espero sempre, portanto, uma revelação. O amigo abre-me a porta que eu queria abrir.


A experiência do amigo é interessante exactamente por ser diferente.


É confrontando-nos com esta experiência que me conheço. Conhecer quer dizer confrontar, comparar, distinguir.

Quando falamos com um amigo não somos o public relations de nós próprios. Somos sinceros. Apresentamo-nos tal qual somos.


O amigo, por outro lado, não nos engana, fala-nos a verdade. E nós acompanhamo-lo com imparcialidade, compreensivos e lúcidos. Desta maneira, os fantasmas, o faz de conta, tão comum nas relações sociais, o teatro, desvanecem-se.


Cada encontro é um risco, porque tem que resultar.


A amizade é o resultado de encontros bem sucedidos.


A amizade quer, em primeiro lugar, a liberdade do outro e, se faz mesmo o mais pequeno esforço para a constranger, deixa de ser amizade verdadeira.


A amizade é um estado aceite e desejado. Não lhe queremos fugir. Nunca nos vem à mente, nem por um instante, tornar um amigo escravo.


Não escolhemos como amigos as pessoas pelas quais não temos estima.


A amizade não pode coexistir sem essa estima, não pode existir sem um comportamento moral recíproco. Mas a amizade não é apenas estima, não é apenas admiração. É também afecto. A amizade é a forma específica de afecto/amor que tem, como objecto, uma pessoa que consideramos e que age de forma eticamente correcta, pelo menos para connosco.


O amigo é, portanto, aquele que «te faz justiça». Justiça num sentido profundo, vital. O amigo que aprecia uma tua qualidade que ninguém tinha valorizado, que te estima por algo que os outros desprezam, faz-te justiça nesse sentido profundo. O amigo está do teu lado, combate contigo e, se necessário, vinga-te.


O amigo é generoso. Vê aquilo que somos e ajuda-nos a sermos nós próprios. Os outros ficam indiferentes.


Amigo é aquele que intui e evoca a parte melhor de nós, a parte mais bondosa, mais humana, espontânea, sincera e mais gentil.


O facto de a amizade ter uma tão forte componente ética torna verdadeira a afirmação «diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és». Os amigos são o retrato objectivo da ética da pessoa.


A amizade é, na sua essência, uma relação entre dois indivíduos isolados, donos de si próprios. É um encontro entre iguais.


A amizade é uma virtude democrática, republicana.


Todos nós esperamos do amigo reciprocidade, afecto, afeição. Se o amigo não no-la dá, mostra, sem qualquer dúvida, o seu desinteresse, evidenciando que não se está a comportar como amigo. Um comportamento deste tipo põe em crise a amizade, não porque sejamos ciumentos, mas porque ele se comporta de uma forma inadmissível.


O ciúme é incompatível com a amizade, porque a amizade não suporta nem padrões nem prisões.


Incompatível com a amizade é também a necessidade de exclusividade. A amizade é aberta, livre, serena. Quando na amizade fazem o seu aparecimento estes sentimentos opressores, quer dizer que qualquer coisa não funciona e que, mais tarde ou mais cedo, aparecerá uma crise.


A amizade é a relação que menos suporta o exagero e a superficialidade.


Compreende-se agora porque a amizade parece tão frágil e porque há tanta gente que se diz desiludida da amizade.


A crise na amizade nasce sempre de uma desilusão e tende a tornar-se combate mortal. Por isso, se não somos compreendidos por um amigo, quer dizer que não é amigo, que não nos queria bem.


A crise da amizade não depende da vontade. Quando a amizade se quebra, podemos procurar salvá-la, conservar uma atitude amigável, fingir que nada aconteceu, mas é inútil.


A crise apenas pode ser resolvida num «encontro». A este tipo de encontro entre amigos dá-se o nome de esclarecimento.


Superar uma crise significa melhorar-se a si próprio, fazer uma travessia difícil no próprio desenvolvimento pessoal.


A amizade tem uma substância moral. Uma vez perdida a confiança, perdeu-se para sempre. A crise da amizade, portanto, é um processo: o passado é reevocado para ser julgado; o futuro é invocado porque tem que ser determinado; e a decisão é sempre inapelável.


António Tâmara Júnior

 


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