Intermitências - A Arte do Gozo
A Arte do Gozo
Aproveitando o cheirinho a Carnaval e assistindo ao espectáculo mediático diário à volta dos direitos adquiridos, apetece dissertar sobre a arte do Gozo. Antes de mais, não é para qualquer um. É para quem sabe, mas sobretudo para quem pode. Goza-se de cima para baixo, com naturalidade, como se fosse uma lei da natureza, e com à vontade, porque o “carapuço” do gozo não está certamente ajustado à nossa cabeça. Tal como a vida, o gozo é injusto, desigual, cruel, mas apresenta-se como uma arte democrática: só goza quem tem autoridade para isso (e quem só tem estupidez para isso), mas este admite a defesa do gozado. Logo, tal como a democracia, o gozo “goza” de boa reputação, mas, sendo uma arte, tem os seus princípios…
Ponto um. O gozo não é de domínio privado, é público. Todo o artista precisa de público e a arte do gozo não existe sem ele.
Ponto dois. O gozo não é um simples acto, é uma arte. O artista, sempre matreiro, nem sempre certeiro, atira ao alvo. Se exercida com talento e engenho, a arte do gozo aumenta a auto-estima e reconhecimento do artista. E se a obra ganha visibilidade, a autoridade do artista torna-se inquestionável. Então a obra torna-se mero instrumento para exercício do gozo e não tem mais reacção, deixa-se passivamente admirar pelo público e... sorri.
Ponto três. O gozo não é uma personalidade, é um anónimo. É uma arte que não é bonita como a poesia, por vezes também matreira e certeira, e por isso usa uma máscara carnavalesca e colorida para que ninguém a possa levar a mal. É descontraída, é suposto divertir o público, é “para todos”. Deste modo, nunca compromete o artista.
Ponto quatro. O gozo não é uma tristeza, é uma alegria. Ri o artista, sorri a obra, volta a rir o artista. Satisfeito pelas técnicas usadas estarem a resultar, o artista pavoneia-se perante os “holofotes da fama” e consolida a autoridade.
Ponto cinco. O gozo não é inocência, é malícia. Atrás de qualquer arte, há sempre emoções inexprimíveis, desejos reprimidos e segundas intenções. Quem atira sem malícia e responde com sinceridade, simplesmente não domina a arte, logo não tem eficácia. Entre as técnicas maliciosas mais populares, estão a ironia, o cinismo e a arrogância.
Fotografia de Sandra Pereira - As máscaras de pão do povo, Veneza, Itália, Outubro 2006
Há 37 anos, o povo português decidiu escolher os artistas que pintariam o seu futuro. E estes não perderem tempo a aprender a lição da democracia e a aplicar todas as suas técnicas, inclusive as mais “transgressoras”, como a demagogia, o populismo, a “mesquinhez” e o “arranjinho”. Sorrindo, a obra de arte foi absorvendo todas estas “técnicas” e adoptou-as como marca do “estilo” português, enquanto os artistas, porta-vozes da arte democrática, as exibiam sem pudor nas galerias do mundo, ganhando reconhecimento e autoridade.
Aos poucos, a arte do Gozo foi sendo desenvolvida e aperfeiçoada pelos artistas até que hoje, no país dos “doutores”, em que cada vez é mais fácil ganhar autoridade de cima para baixo, tornou-se sufocante, insuportável, chocante, quase pornográfica. Hoje, os artistas abusam da sua obra de arte diariamente. À falta de pudor, juntam as técnicas maliciosas e assinam “crise” por baixo em vez do nome de autor. É que tudo o que tiver a etiqueta “crise”, vem “por bem”, ninguém pode levar a mal. É esta a nova cor da arte do Gozo.
O que resta hoje das nossas escolhas? Artistas que pintam mal e culpam a concorrência pela sua falta de talento. Artistas que anunciam técnicas artísticas inovadoras, que no fundo já são velhas, ineficazes e só realçam a fealdade da tela. Artistas que prometem uma obra exclusiva e incrivelmente bela, e passadas duas horas fingem que nunca foi anunciada porque nem sequer existe na imaginação humana. Artistas que deturpam as técnicas mais básicas da arte, mas nunca são julgados pelos críticos. E esses são os que mais riem perante os holofotes... A “lata” deixou de ter limites. Pior: “a lata” passou a ser preenchida com tinta reconhecida e aceite como marca do “estilo” português.
Hoje, a arte do Gozo deixou de ter limites e torna Portugal num país sem defesa, onde tudo é permitido e ninguém leva a mal. E é assim que a arte se torna crime, um atentado à beleza da obra que continua a... sorrir. Nos tempos que correm, convém pois ter as regras da arte do Gozo sempre no bolso e sacá-las em caso de necessidade. Por exemplo, quando ouvirem Cavaco Silva dizer que a reforma não lhe chega para as despesas ou Passos Coelho a concluir de modo brilhante que “já estamos pobres. Há é pessoas que ainda não se deram conta disso e continuaram a viver como se não fossem pobres”. Nesses momentos, é sacar as regras do bolso e constatar qual é a nossa reacção: Riso? Raiva? Revolta? Um sorriso?
"La fiction prend le pouvoir" ("A ficção toma o Poder"), titulou o diário francês "Le Monde" na semana passada. O artigo dizia que as televisões estão a produzir cada vez mais séries que retratam a suposta realidade política em que nos fizeram acreditar desde que a democracia existe. Em tradução livre, dizia que "como cada palavra pública parece hoje sabiamente pré-escrita, como qualquer deslocação ou anúncio parece ser posto em cena e previamente validado por estudos de opinião, como mais nada passa por natural, só a ficção estará em posição de mostrar o real”. Resumindo, diz o "Le Monde", que existe uma vontade de "acrescentar espectáculo ao espectáculo".
E se um dia nos fartamos de tanto espectáculo? Deixamos de sorrir, denunciamos o artista, retirámo-la a autoridade e exprimimos novas emoções e desejos reprimidos. Uma revolução artística que recupera o expressionismo e o realismo que desafiaram os padrões da arte nos inícios do século XX? Parece uma utopia, mas a acontecer, depois de termos pintado cravos, há que escolher uma flor bem mais modesta...
Sandra Pereira







