Quem conta um ponto... Da expetativa ao imobilismo (V): O munícipe como verbo de encher
Da expetativa ao imobilismo (V): O munícipe como verbo de encher
Cinco palavras revelam definitivamente a “década de progresso” de João Batista, António Cabeleira e do PSD à frente da câmara de Chaves, e por esta ordem: expetativa, ilusão, desilusão, imobilismo e abandono.
Chegado aqui paro para meditar um pouco. É que a política autárquica aflige-me na sua quase vacuidade e conformismo, mas a situação no país começa a meter-me medo. E como sei que ambas as lideranças estão pintadas da mesma cor partidária, tal facto deixa-me extremamente apreensivo.
A verdade é que o atual primeiro-ministro – e perdoe-se-me a minha expressão – parece a galinha antes de pôr o ovo: faz força, força, força, mas o ovo sai-lhe sem casca. E isso, dizem os antigos, é muito mau presságio.
Independentemente de Pedro Passos Coelho sorrir quando é apupado, o seu perplexo esgar tem a mesma intrepidez ideológica da senhora Merkel e o mesmo ar afetado do cavalheiro Sarkozy quando são cumprimentados pelo seu servo bajulador luso com o sorriso de cópia de uma outra cópia de ainda uma outra fotografia que andamos todos a tentar descortinar onde se nos tornou familiar.
Mas, Deus meu, o que é que nos está a acontecer? O que é que nós fizemos de mal para nos calhar tamanha desgraça?
O poeta Manuel António Pina confessou a um jornal: “A vontade que eu tenho era pôr um cinturão de bombas e rebentar com essa malta toda”. Digamos que é um desabafo quase terrorista. Mas para vilão, vilão e meio. A ser assim, das suas palavras prefiro ficar com a citação dos versos do poeta brasileiro João Cabral Neto, na “Morte e Vida de Severina”: “Muita diferença faz entre lutar com as mãos e abandoná-las para a frente.”
Depois dou uma vista de olhos à capa da “Tabu” e arrepio-me com o sorriso sibilino do primeiro-ministro e com a sua afirmação de que o poder nunca lhe subiu à cabeça. No entanto teima em fazer empobrecer o povo português, o que provocou do lado de Bagão Félix (CDS) uma entrevista onde afirma textualmente que o Governo “Está a proletarizar a classe média”. Mas, por outro lado, “não há retração ao nível da classe rica”.
Finalmente a capa da “Revista” do Expresso começa a fazer sentido. O lava-loiças (leia-se governo de direita neo-neo-liberal) tem mais bactérias do que uma sanita depois de puxar o autoclismo. Esse é o facto político (científico?) mais surpreendente dos últimos meses.
E daqui fui transportado a uma citação de António Capucho (PSD): “Alguns deputados são uns verbos de encher.” Ele sabe do que fala. E nós também sabemos muito bem daquilo que ele fala. E nós por cá (salvo um ou dois honrados exemplos) já fornecemos ao país muitos desses degradantes exemplos. Mas como não aprendemos com as más experiências, teimamos em teimar e em enviar para Lisboa uns verbos de encher que envergonham a alma e a dignidade transmontanas.
Por falar em capas de jornais, andava eu a tentar dar umas voltas na Eira Joanina (antigo Jardim das Freiras), que nestes dias de inverno mais rigoroso tem estado em salmoura, quando reparei que nos escaparates do quiosque o meu semanário regional de referência destacava a “novidade” de que o executivo camarário tinha realizado a iniciativa “Dar Voz ao Munícipe”.
Depois de ler a notícia confirmo que o evento mais não foi do que outra encenação para conferir visibilidade a uma ficção abandonada à cerca de cinco anos. Parece que o vice camarário de João Batista, à falta de melhor, resolveu tirar mais um dos velhos brinquedos do baú que estava no sótão, para dizer que tem ideias e que possui iniciativa. Mas estas coisas só servem para provar à exaustão que o senhor vice é o grau zero da criatividade e um embrulho absolutamente desprovido de ideias.
João Batista, a muito custo, lá se vai deixando levar para encenações que só lhe ficam mal. Mas pôr o ovo chamado António Cabeleira só o pode levar para estas cenas caricaturais. Todos sabemos que a dificuldade é grande, mas, ó senhor presidente, olhe que ele não lhe vale o esforço.
O senhor presidente lembra que nos tempos que correm “é importante que as pessoas participem, de forma a transmitirem as suas opiniões, para que todos tenhamos uma vida melhor”.
O que nos intrigou foi porque interrompeu esta tão “inédita iniciativa” durante cinco anos e a ressuscitou precisamente agora quando, à semelhança de uma galinha, faz força para colocar cá fora um ovo de classe B que se põe às bicadas nas pessoas para sair de dentro da casca.
Essas, e outras iniciativas, pertencem ao seu tempo da ilusão. Os cinco anos de interregno, estão já na zona da desilusão e no início da estagnação. Atualmente – e perdoe-me que lho diga desassombradamente – o senhor presidente já está na fase do abandono.
Mas olhe que o esforço que anda a fazer é inglório. O frango não lhe vale o empenho. Pode até vir tentar iludir-nos com cantatas intelectuais de última hora, que o não consegue. Citar Tony Judt fica-lhe bem, mas já vem tarde. Essa do que “temos de aprender com quem discorda, rejeita, reage e com quem diverge, por muito irritante que possa ser para quem está no poder”, é como recordar a um casal separado a marcha nupcial.
O senhor declarou para uma plateia de trinta pessoas que, segundo nos afirmaram, era quase apenas constituída por gente da câmara, ou do seu partido, quando não ambas as coisas, que “o desenvolvimento constrói-se em bases sólidas tendo como pilares fundamentais as pessoas, o território, a criação de condições para o desenvolvimento de atividades económicas e a cooperação”. Convenhamos que quando o senhor presidente não quer dizer nada não diz mesmo nada. A retórica aprendida sempre lhe vai servindo para alguma coisa.
Afirmar o que atrás afirmou é o mesmo que assegurar que o tempo para a semana vai estar soalheiro… se não chover. Ou, como diz o povo, é paleio furado. São apenas palavras que nada querem dizer. É o vazio. É o abandono.
E o tal ovo lá continua, impacientemente à espera, que o senhor presidente lhe dê a bicada para quebrar a casca que lhe permita colocar a cabecita de fora.
Mas, voltamos a avisá-lo, olhe que o franganito não lhe vale o esforço. E o senhor sabe-o muito bem. Sabe-o até melhor do que nós. Na sua frente pode ser muto sorriso e abraços, mas nos bastidores a conversa é outra. E isto aconteceu durante muito tempo. Basta que o senhor presidente se informe.
Mais à frente lemos que o “atual executivo mantém o mesmo rumo desde que assumiu o poder, pois sabemos o que queremos e para onde vamos de forma a caminhar para um desenvolvimento sustentável e sustentado”.
Temos que convir que nas suas palavras existe algum fundo de verdade. O seu executivo mantém o mesmo rumo, o de não ter rumo nenhum, pois andou sempre a navegar à vista, apesar de não ter ventos contrários (leia-se oposição consistente, categórica e combativa), nunca se afirmou, nunca liderou, nunca se empenhou num único projeto de valia que possa reconhecer como uma bandeira sua. Foi tudo muito comezinho, muito caldo sem sal. Por isso é que não temos futuro à vista. Por isso é que o nosso “desenvolvimento sustentável” é, a cada dia que passa, mais insustentável.
O meu semanário regional de referência também conta que as tais trinta pessoas estiveram cerca de duas horas e meia a ouvi-lo – e perdoe-me de novo a analogia – a cacarejar. Diz que as pessoas puderam colocar as questões que entenderam. Mas nenhuma delas foi digna de registo. Nem elas nem as suas respostas. O que nos chegou foi apenas o eco do seu solilóquio. Ou seja, dali não saiu nada. Foi apenas uma conversa em família. A retórica assimilada sempre lhe vai servindo para alguma coisa.
O êxito foi tanto que a próxima iniciativa, se é que vai ser realizada, ficou agendada para o mês de abril. Ou seja, a primeira correu tão mal que a segunda talvez não se efetue. Convenhamos que daí não vem mal à cidade. O senhor habituou-nos a esperar sentados pelo futuro. Não sei se por acreditar que os cidadãos podem muito bem votar e depois ficar em casa à espera que Lázaro volte a ressuscitar. Essa foi sempre a estratégia do PSD enquanto poder.
Sabe, senhor presidente, porque é que a sua iniciativa foi um malogro? Pois porque o povo sabe que falar com o seu executivo camarário é pura perda de tempo. O senhor lá ouvir ouve, mas nada decide. E senhor lá prometer promete, mas não cumpre. Ou nunca cumpre a tempo e horas. E olhe que apesar do seu sorriso, as coisas não se resolvem apenas com simpatia e afabilidade. Eu digo isto porque estive em alguns processos. O senhor sabe muito bem daquilo que falo.
Lembro-me de, logo no início do seu primeiro mandato, ter sido convocado para uma reunião na câmara por causa da alteração do projeto da avenida D. João I, aprovado no tempo de Altamiro Claro. A reunião destinava-se a ouvir os residentes que utilizavam a rodovia para saber da sua opinião. Tudo muito democrático. Deram voz aos munícipes. E os munícipes manifestaram-na alto e bom som. A esmagadora maioria pronunciou-se contra o novo projeto e a favor do que já existia. Pois, apesar disso, a câmara foi para a frente com a afronta dos políticos e com a teimosia de alguns técnicos. E os munícipes, pobres iludidos, só disso souberam quando as obras já estavam no terreno.
Este, por muito que lhe custe, senhor presidente, é o exemplo acabado da importância que o seu executivo atribui à “voz” dos munícipes. Os flavienses estão cansados de encenações. Das suas encenações. Os munícipes estão fartos de serem utilizados como verbos de encher.
Por isso, como já o tiveram como galinha durante três mandatos, agora recusam o frango depenado que lhes quer deixar, depois de lhes ter prometido um galarispo com penas. Pois, como muito bem diz o nosso povo, que lhe faça bom proveito à barriguinha e ao peito.
Então, até para a semana.
João Madureira





