Pedra de Toque - Um homem modesto
Um homem modesto
Era simpático, afável, humilde, trabalhador, amante fervoroso de todos os seus.
Apesar de dirigir e ser proprietário da mais conceituada e afreguesada pensão-restaurante (Império) da cidade de Chaves de então, educou os filhos apoiando-os nos caminhos que eles quiseram trilhar.
Para tal, lutou com dificuldades.
Algumas que ele inevitavelmente criava por desorganização, falta de método, que o levava a pagar com multas, por atraso, as suas obrigações nomeadamente com o fisco.
Generoso com a família e com os amigos, também pelo sua bonomia, era muito considerado na cidade para onde veio com 10 anos para trabalhar no estabelecimento comercial de um tio.
Era um homem honrado, mas por vezes demasiado teimoso e ingénuo nos negócios.
Já sem a pensão, perto do fim da vida, foi enganado ao adquirir uma loja de fazendas resultando-lhe daí graves prejuízos.
Era um homem modesto, mas também MODESTO, de nome.
Filho de uma professora, que conheci bem, e que pereceu já eu andava nos 12 anos e de pai que falecera muito jovem, ainda eu não tinha vindo ao mundo.
Teve muitos irmãos, tendo alguns deles procurado, sem grande sucesso, a árvore das patacas no Brasil.
Lembro-o com frequência, mas no dia 19 de Março, dia do pai, escrevi esta crónica, tendo a sua presença me acompanhado em quase e todos os momentos.
O meu pai foi o primeiro adulto que vi chorar copiosamente no dia da morte da mãe, minha avó.
Não resisti chorei também.
Não sei, ainda hoje, se o fiz pela morte da minha avó, de quem gostava, se por ver o meu pai chorar.
Herdei-lhe o tremedouro das mãos, mas todos os filhos herdamos a sua simplicidade, a sua modéstia, a sua honradez e o seu grande amor e dedicação à família.
Pelos filhos ele tinha paixão desmedida.
Mesmo quando adolescentes levamos um ou outro tabefe merecido, o que aconteceu muito raramente, ele ficava profundamente incomodado e a nossa mãe via-lhe lágrimas a marejarem nos olhos.
Quando pretendi contribuir para lhe proporcionar uma velhice tranquila, até porque já trabalhava e a vida corria bem, uma doença prolongada e muito dolorosa, levou-o de nós, deixando-nos eterna saudade.
Não nos legou bens, nem dinheiros.
Deixou-nos, contudo, o orgulho na sua honradez de homem bom para enfrentarmos a vida com trabalho sério.
Que melhor fortuna poderíamos ambicionar?
Ainda hoje, gente de idade avançada que com ele conviveu, me aborda como filho do Modesto, um bom amigo, uma óptima pessoa, o que sempre me emociona.
Partiu levando saudades dos muitos amigos, da família e, de certeza, muita, muita dos filhos que adorava e também do genro que estimava imenso.
Nós, os filhos, quedamo-nos enquanto a vida quiser mas muito orgulhosos e ufanos por termos nascido filhos de um homem simples, honesto, com um coração enorme que, de baptismo, se chamava MODESTO ALVARES DA COSTA.
António Roque




