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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

03
Abr12

Pedra de Toque - O bebado do Zé da Guia


 

 

O BEBADO DO ZÉ DA GUIA


O frio era grande e a noite estava de chuva. O mês de Dezembro tinha chegado com todo o rigor de prolongado Inverno.


Indiferente às estações do ano, Zé da Guia, homem de bom fundo e sapateiro apreciado na cidade pelas suas hábeis mãos, continuava a apanhar a sua bebedeira que, só não era diária porque o reumatismo nas noites frias de Inverno o impedia por vezes de sair de casa.


Quando o Zé da Guia passava cambaleando pelas ruas principais da cidade, os comentários eram da mais variada ordem e saiam de bocas de todas as idades e de todas as condições.


Os burgueses enriquecidos que na terra ocupavam altos cargos, quando estavam desacompanhados de suas esposas ou filhas, sempre que viam o Zé da Guia diziam-lhe:


- Oh Zé, vais como um cacho!


- Que é que o senhor tem com isso - replicava o Zé da Guia com a sua voz incerta e interrompida por um soluço. Por vezes o Zé mesmo com o vinho dizia coisas muito acertadas.


Os miúdos corriam atrás dele, puxavam-lhe pelo casaco a que o Zé correspondia com um bater de pés a simular que corria atrás deles.


A mulher, a Rita do Zé da Guia, essa é que por vezes passava as passas do Algarve. Quando o álcool o atacava fortemente, batia na mulher que lançava gritos que acordavam a vizinhança, gritos que eram simultaneamente de dor e de piedade. Sempre que castigava a mulher o Zé no dia seguinte andava triste.

 


Nunca pensou se o vinho lhe fazia mal ou bem. Não tinha culpa o Zé de não ter andado no Liceu ou de não ser doutor. Talvez se fosse doutor não fosse um bêbado, pensava por vezes.


Mas bebia, bebia constantemente, até que um dia acordou muito doente. A Rita aflita correu em busca de um médico que depois de o observar o considerou irremediavelmente perdido.


Mais uns dias se passaram em que o Zé esteve de cama contorcendo--se com dores enquanto a Rita e os quatro filhos soluçavam mais por ouvirem a mãe chorar do que por o pai estar doente. A pouca idade não lhes permitia compreender a gravidade do momento.


A oficina do Zé deixou de ter o aspecto alegre e vivo para se transformar numa porta fechada onde os sapatos se amontoavam a um canto e as sovelas começavam a adquirir ferrugem.


Um mês depois dos primeiros sintomas da sua doença, desfaleceu.


Morreu um bêbado. O seu enterro foi modesto e nesse dia a sua morte foi comentada em toda a cidade. E lá foi a caminho do cemitério acompanhado dos últimos suspiros da Rita e lá ficou ao lado dos ricos numa campa mais simples.


No dia da sua morte as crianças da rua choraram pelo Zé da Guia, o bêbado que tinha bom fundo e que nunca pensou no mal que lhe fazia o vinho.


As flores que cresceram no cemitério não se esqueceram de oferecer o seu encanto e perfume à última morada do Zé da Guia.

 

António Roque

 


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